
Capítulo 98
Hotel Dimensional
“O lobo... sou eu.”
Assim que essas palavras escaparam dos lábios de Chapeuzinho Vermelho, Yu Sheng viu um brilho estranho e perturbado cruzar seus olhos. Era difícil entender o que estava por trás daquele olhar, mas uma forte sensação de desconforto pareceu se instalar ao redor dela, como uma névoa úmida no ar. Sua revelação — de que o lobo era ela mesma — certamente não soou como uma confissão alegre.
Se o momento não fosse tão estranho, Yu Sheng poderia ter feito mais perguntas ali mesmo. Mas aquele momento parecia errado para ser intrometido e, então, ele permaneceu em silêncio, fazendo uma promessa silenciosa a si mesmo de que voltaria ao assunto algum dia. Talvez, quando confiassem mais um no outro ou encontrassem um lugar mais seguro, ele perguntaria quem eram seus lobos de verdade e por que ela disse o que disse.
Por enquanto, a atenção de Yu Sheng voltou para o corredor. No final, uma sala de exposições branca e austera aguardava. A atmosfera parecia mais fria e pesada quanto mais seus pensamentos se moviam em direção a ela. Ele quase podia sentir o mais leve cheiro de sangue no ar, e isso fez seu coração apertar.
Silenciosamente, Yu Sheng pensou alto: “Os ‘guardas’ só reagem a intrusos. Eles podem ver, mas não podem ouvir ou cheirar. Eles seguem suas ordens sem pensar — como marionetes com muitas brechas para escapar...” Sua voz sumiu pensativa, seus olhos se estreitando como se estivesse imaginando as fraquezas dos guardas e como tirar vantagem delas.
Ao lado dele, Chapeuzinho Vermelho se inclinou para perto, falando em um tom sussurrado. “O que você acha? Deveríamos recuar por hoje? Sempre poderíamos voltar amanhã—”
“Não”, Irene interrompeu bruscamente, sua voz inesperadamente firme. “Olhe para o rosto de Yu Sheng.”
Chapeuzinho Vermelho piscou para Irene, confusa. “O que tem o rosto dele?”
Irene soltou um suspiro cansado. “Ele está com aquele olhar de novo — ele teve outra ideia.”
Antes que Chapeuzinho Vermelho pudesse sequer formar uma resposta, Yu Sheng se virou para Foxy, a garota raposa, com um brilho repentino nos olhos. “Tenho uma pergunta”, disse ele. “As caudas de Foxy contam como parte de seu próprio corpo?”
O grupo inteiro congelou por um momento, perplexo. Chapeuzinho Vermelho se recuperou primeiro, soltando sem pensar: “É claro que são parte dela! Elas estão ali, presas a ela—”
“Mas ela pode lançá-las”, disse Yu Sheng ansiosamente. “Essas caudas são artefatos que ela mesma fez, certo? Ela pode atirá-las e depois conseguir novas. Isso pode significar que elas não são realmente parte dela, pelo menos não no sentido normal.”
Chapeuzinho Vermelho olhou para ele, tentando entender. “Espera... o que você está tentando fazer com essa ideia?”
Os olhos de Yu Sheng brilharam como se estivesse preparando algum truque ousado. “Eu quero testar algo. Se os guardas reagem apenas quando veem um intruso, e se bloquearmos a visão deles com algo que não é realmente ‘nós’? Vamos passar pela linha de visão deles. Se eles começarem a se mover, nós apenas pegaremos o que precisamos e correremos. Nós temos aquele truque da porta, certo?” Ele assentiu confiantemente, como se o plano fosse perfeitamente lógico.
Sem esperar por mais protestos, ele se virou para Foxy. “Foxy, eu preciso da sua ajuda. Eu preciso usar suas caudas.”
“Espera aí!” Chapeuzinho Vermelho ofegou, ainda tentando acompanhar. “Tem, tipo, sete ou oito guardas lá dentro? Foxy já atirou duas caudas antes. Quantas ela pode ter sobrando?”
Ela sentiu um aperto repentino no peito — tudo isso era muito estranho. Ela esperava perigo, talvez armadilhas, mas não esse tipo de loucura. Antes que pudesse expressar suas preocupações ainda mais, Foxy calmamente deu um passo à frente.
A garota raposa alcançou atrás de si e, com um movimento casual, puxou duas caudas fofas. Ela as colocou suavemente no chão e, em seguida, tirou mais duas, colocando-as em uma linha organizada. Chapeuzinho Vermelho observou, com a boca ligeiramente aberta, enquanto Foxy continuava fazendo isso, cada cauda cuidadosamente disposta. Depois de descarregar todas as suas caudas atuais, Foxy fez uma pausa. Então, com um som silencioso e escorregadio — como uma lâmina puxada de uma bainha — nove caudas novinhas em folha brotaram de suas costas.
Chapeuzinho Vermelho piscou. "...O quê?"
Irene deu um tapinha em seu braço como se para confortar uma criança confusa. “Ela as mantém armazenadas”, explicou Irene. “Ela come muito, e isso permite que ela mantenha muitas caudas em reserva.”
Chapeuzinho Vermelho olhou fixamente. "...O quê?" Cada palavra que Irene dizia fazia sentido por si só, mas juntas, formavam uma frase que soava completamente ridícula.
Enquanto isso, Foxy apontou para as caudas que havia colocado no chão. “Esta me custou vinte coxas de frango para fazer”, disse ela calmamente, “e esta custou dez.”
Chapeuzinho Vermelho conseguiu murmurar, através de sua descrença: “Porque a segunda estava pela metade do preço?”
“Não”, disse Foxy, soando levemente ofendida. “Essa segunda só consegue atingir velocidade subsônica. Matéria e energia estão conectadas, sabe. Você não entende o básico de como isso funciona?” ℝâ
Chapeuzinho Vermelho de repente sentiu como se precisasse de algo para embotar seu senso de razão. Nada disso se encaixava em nenhum padrão normal de pensamento. Ela estava acostumada a coisas estranhas, mas isso estava ultrapassando seus limites.
Agora, Foxy organizou todas as suas caudas em uma linha organizada, cada uma pairando um pouco acima do chão, embora parecesse que estivessem repousando sobre ele. Um leve brilho de fogo-fátuo fantasmagórico tremeluzia atrás delas, emitindo um som suave e perturbador. A visão lembrou Chapeuzinho Vermelho desconfortavelmente de foguetes alinhados antes do lançamento — cada cauda fofa e prateada pronta para decolar em alta velocidade.
Só de pensar nisso, ela percebeu o quão profundamente havia sido influenciada por esses companheiros estranhos. Ela estava começando a ter os pensamentos mais estranhos. Lidar com Entidades — como Yu Sheng — era realmente perigoso. Mesmo um supostamente inofensivo poderia torcer sua mente em nós.
Foxy levantou a mão gentilmente, fazendo com que as caudas prateadas, tingidas de fogo-fátuo, se elevassem silenciosamente no ar. Embora fossem capazes de velocidades incríveis, ela as moveu lenta e cuidadosamente pelo corredor, como nadadores pacientes deslizando através de água parada.
A voz de Yu Sheng veio suavemente atrás deles. “Se os guardas não reagirem, bloquearemos completamente a visão deles e entraremos. Se eles reagirem, então pegaremos o que estiver no centro do salão e correremos. Eu vou preparar o feitiço da porta e ficar de prontidão.”
Ele levantou a mão, e uma porta cintilante — mais como um contorno fantasmagórico de uma — apareceu na ponta de seus dedos, pronta para ser usada no momento certo.
“Entendido”, disse Foxy, dando um aceno de cabeça tenso, guiando suas caudas pouco a pouco em direção à sala de exposições branca. A energia no corredor parecia espessa com antecipação nervosa.
Chapeuzinho Vermelho ficou ali em um estado meio sonhador, incapaz de se sentir verdadeiramente assustada. A cena era muito estranha, muito excêntrica para sua mente processar adequadamente. Ela sentia que deveria estar tensa, mas se sentia apenas entorpecida e confusa. Até mesmo seus lobos das sombras pareciam enfeitiçados e silenciosos.
“Eles não estão se movendo...” Foxy sussurrou. Sua voz tremia levemente de excitação. “Acho que consigo cobrir todas as linhas de visão deles. Isso deve funcionar!”
Yu Sheng se permitiu um pequeno sorriso, soltando uma respiração silenciosa enquanto a porta fantasmagórica desaparecia de sua mão. Ele esperava que esse plano funcionasse e, até agora, parecia que poderia.
Depois que Foxy lhe deu um olhar de confirmação, ele fez um sinal para os outros seguirem. “Tudo bem, vamos dar uma olhada”, disse ele suavemente.
Juntos, eles se aproximaram da sala de exposições silenciosa. Cada passo parecia levá-los mais fundo em um silêncio antinatural. Seus olhos percorriam de um guarda para o outro — figuras semelhantes a manequins em uniformes azul escuro, parados mortalmente imóveis, cegos pelas caudas flutuantes enroladas em suas cabeças. Os guardas pareciam tão rígidos e artificiais que isso enviou um arrepio pela espinha de Chapeuzinho Vermelho.
Na entrada principal, estava um desses sentinelas de plástico, seu rosto pintado completamente sufocado por uma cauda prateada e fofa. Normalmente, as caudas de Foxy pareciam charmosas, até mesmo encantadoras, mas agora, entrelaçadas na cabeça de um guarda, o efeito era perturbadoramente assustador. Fazia o guarda parecer uma criatura estranha com um crescimento monstruoso.
Então, Yu Sheng inspirou bruscamente, sua exclamação sussurrada quase perdida no silêncio:
O olhar de Chapeuzinho Vermelho se fixou em direção ao centro do salão, onde a tão falada estátua do "Chorão" deveria estar. Só que isso não era uma estátua.
No pedestal, estava o cadáver de um homem, torcido em uma dolorosa posição de joelhos, com as mãos sobre o rosto como se estivesse chorando. Ele era mantido no lugar por cruéis espinhos de ferro que perfuravam seu corpo. O sangue já havia secado há muito tempo, deixando para trás manchas escuras e enferrujadas. Ele devia estar morto há séculos. O ar fedia a sangue velho e algo mais sinistro. A visão fez o estômago de Chapeuzinho Vermelho se contrair.
Yu Sheng ficou imóvel. Ele já havia morrido antes — mais de uma vez, na verdade —, mas testemunhar a morte de fora era diferente. A atmosfera aqui era horripilante de uma nova maneira. Isso não era um simples assassinato. Parecia mais um ritual terrível, um sacrifício oferecido a algo cruel e faminto. Havia uma elegância distorcida nisso, como se alguém tivesse posado o cadáver para combinar exatamente com a pose da estátua do "Chorão", e isso fez a pele de Yu Sheng se arrepiar.
Ele queria entender. Ele se virou para a única pessoa que poderia saber mais sobre tais horrores. “Chapeuzinho Vermelho, você sabe o que—”
Ele nunca terminou sua pergunta.
Algo estava terrivelmente errado com Chapeuzinho Vermelho. Seus olhos estavam fixos no cadáver, brilhando em um carmesim feroz que combinava com os olhos de seus lobos das sombras. Um rosnado profundo e gutural ressoou em seu peito. Pelos brotavam ao longo de suas bochechas e no dorso de suas mãos, selvagens e antinaturais. Enquanto Yu Sheng observava, atordoado, sua própria sombra começou a se mover e se esticar sobre o chão.
De repente, uma forma monstruosa surgiu daquela sombra, algo alto e bestial com uma pele de lobo pendurada sobre uma estrutura humana. Parecia uma fusão terrível de pessoa e besta, uma criatura que havia tomado o esqueleto de um homem para si. Sem som ou aviso, ele avançou.
Não estava atacando Yu Sheng ou os outros. Ele se direcionou diretamente para Chapeuzinho Vermelho. E como ela poderia evitar um ataque de sua própria sombra?