
Capítulo 87
Hotel Dimensional
A Rua Wutong, número 66, quase nunca tinha paz. Dentro daquela casa incomum, sempre havia algum tipo de barulho. Se não fosse o temperamento explosivo de Yu Sheng esquentando o ambiente, eram os gritos estridentes da pequena Doll chamada Irene — juntos, eles garantiam que nenhum momento de tranquilidade durasse. Para completar o cenário animado, Foxy, a garota com orelhas de raposa, sentava-se por perto, mastigando alegremente seu pacote de batatas fritas como se estivesse assistindo a um espetáculo se desenrolar diante de seus olhos.
Por cerca de dez minutos, o caos absoluto reinou. Irene corria de um lado para o outro como um bicho-do-mato, mordiscando com seus dentinhos quem se aproximasse. Eventualmente, Yu Sheng conseguiu pegá-la. Com um aperto firme, ele a levantou e, após uma boa luta, pendurou-a no varal na pequena varanda da sala.
“Yu Sheng, seu canalha! Me põe no chão!”, Irene gritou, contorcendo-se e balançando os braços loucamente. A haste escorregou direto pelas mangas dela, prendendo suas roupas por trás e a deixando pendurada como um peixe salgado balançando na brisa do mar. Ela olhou furiosa para ele. “É só um banimento de doze horas, tá legal? Minha conta não está condenada para sempre! Você vai mesmo me deixar pendurada aqui por doze horas? Não se sente culpado? Pelo menos me pendure de uma forma mais confortável!”
“Se eu usasse prendedores de roupa, você escaparia rapidinho”, respondeu Yu Sheng, acomodando-se no sofá e lançando-lhe um olhar de soslaio. “Isso vai te ensinar a não mexer nas minhas coisas. Relaxa, eu te solto antes do jantar. Mas se você ousar fazer isso de novo, vou te pendurar no porão.”
Ao ouvir a menção do porão, os olhos de Irene se arregalaram, e ela começou a se debater ainda mais freneticamente. No entanto, apesar de seus chutes desafiadores, seu “espírito indomável” desmoronou rapidamente. “E-eu estava errada! Eu estava errada! Eu prometo que não vou fazer de novo! Por favor, me solta…”
Na verdade, Irene sabia ceder incrivelmente rápido quando confrontada com ameaças reais. Embora fosse péssima em jogos, tivesse uma boca suja, esquecesse as coisas o tempo todo e frequentemente parecesse irritadiça, ela sabia quando admitir a derrota. Yu Sheng simplesmente ignorou seus apelos, tratando-os como meros ruídos de fundo.
Foxy, ainda segurando seu pacote de petiscos, aproximou-se silenciosamente na ponta dos pés. Ela olhou para cima, para Irene, depois olhou para Yu Sheng. Com uma pequena pausa, ela falou suavemente: “Benfeitor, acho que Irene realmente se arrepende do que fez. Poderia soltá-la?”
Como se oferecesse paz, Foxy estendeu suas batatas fritas. “Aqui, coma um pouco. Talvez te ajude a se acalmar.”
Yu Sheng enfiou a mão no saco, pegou algumas batatas fritas e as jogou na boca. Enquanto mastigava, ele olhou para Irene, que havia fixado o olhar na televisão no momento em que ele a ligou. Ao ver a tela brilhante, ela de repente se aquietou, como se a TV tivesse lançado algum feitiço silencioso sobre ela.
“Vê o que eu quero dizer?”, Yu Sheng suspirou, soando como alguém que já havia se acostumado com tais travessuras. “Todo aquele alvoroço, e no momento em que eu a ignoro, ela para. Isso é o que eu chamo de ser uma barra pesada.”
“Oh”, disse Foxy, assentindo, embora ela claramente não entendesse o que era ser uma “barra pesada”. Antes que ela pudesse perguntar, um alto “BANG” ecoou repentinamente do andar de cima. O som trovejou pelo teto, fazendo todos darem um pulo.
Irene, ainda pendurada, esticou o pescoço para cima. “Ei, Yu Sheng, o que caiu lá em cima? Será que foi aquela escada velha encostada no canto do sótão?”
Yu Sheng se levantou e lançou um olhar intrigado para o segundo andar. “Não… isso soou como se viesse do quarto no final do corredor”, murmurou ele. “É melhor eu ir dar uma olhada.”
Foxy se levantou de uma vez, seu rabo fofo balançando animadamente atrás dela. “Eu vou com você!”, disse ela, com a voz brilhante e ansiosa.
Irene se debateu novamente. “Ei! Me solta também! Eu vou com vocês! Esse barulho não soou nada normal. Eu posso precisar proteger vocês dois!”
Yu Sheng revirou os olhos. “Nos proteger? Claro.” Ainda assim, ele deu um passo à frente e levantou a haste do varal, permitindo que Irene se soltasse e caísse no chão. “Só desta vez. Mas da próxima vez que você aprontar, eu vou te levar para o porão de verdade.”
Irene aterrissou, cambaleou por um momento, depois endireitou suas roupas e mostrou a língua para Yu Sheng. Seu rosto praticamente gritava: “Eu vou me comportar por agora, mas não pense que pode me assustar para sempre!”
Yu Sheng ignorou seu gesto infantil. Ele esticou os membros e acenou com a cabeça para Foxy antes de seguir em direção às escadas. Foxy o seguiu de perto, e Irene, depois de lançar um último olhar fulminante, correu atrás deles. Juntos, eles subiram para o segundo andar, seus passos silenciosos nos degraus. Yu Sheng os guiou direto pelo corredor até o quarto no final — aquele que antes tinha o retrato de Irene em sua porta.
Eles encontraram a porta fechada, e do lado de fora, nada parecia incomum. Tudo parecia calmo e tranquilo. No entanto, Yu Sheng tinha certeza de que o baque alto havia vindo desse mesmo quarto.
Ele se lembrou de como aquele quarto em particular havia mudado antes: uma vez completamente vazio, depois exibiu móveis simples. O único objeto lá dentro pesado o suficiente para criar tal barulho poderia ter sido o espelho na parede. Mas da última vez que ele verificou, aquele espelho estava fixado tão firmemente que era quase impossível removê-lo. Se ele tivesse caído, eles também teriam ouvido o estilhaço do vidro. Mas não houve um único som de vidro quebrando — apenas aquele baque profundo e estranho.
Yu Sheng aproximou-se da porta cuidadosamente. Ele envolveu sua mão na maçaneta de formato estranho, pronto para girá-la.
“Espere”, sussurrou Irene, levantando uma mão. Ela espalhou os dedos, e deles esticaram-se fios finos, pretos, semelhantes a teias. Essas mechas brilhantes escorregaram silenciosamente por baixo da porta, rastejando para dentro para explorar o quarto primeiro.
Foxy, por outro lado, removeu silenciosamente uma de suas orelhas de raposa. Ela a pressionou suavemente contra a superfície da porta, como se fosse algum tipo de dispositivo de escuta. Concentrando-se intensamente, seu rosto ficou muito sério, e seu rabo peludo ficou imóvel.
Yu Sheng observou os dois e suspirou silenciosamente. “Nenhum de vocês pode agir normalmente por uma vez?”
“Eu sou perfeitamente normal!”, Irene pensou irritada para si mesma. “É aquela raposa que está sendo esquisita.”
Um momento depois, Foxy sussurrou: “Benfeitor, não consigo ouvir nada de incomum lá dentro.”
Irene franziu a testa, retirando seus fios escuros. “Nenhuma presença estranha pelo que posso sentir também. Tudo parece limpo. Vá em frente e abra.”
Com um aceno de cabeça, Yu Sheng empurrou suavemente a porta, abrindo uma fresta. Ele se sentiu um pouco tolo — esta era a casa deles, não uma mansão mal-assombrada. Ainda assim, dada a natureza estranha da Rua Wutong, número 66, e este quarto peculiar em particular, ser cuidadoso era apenas sensato.
Uma lufada fria saiu do quarto no instante em que a porta se abriu, fazendo Yu Sheng estremecer. Era o tipo de frio que o lembrava dos ventos gelados que sopravam sobre montanhas nevadas distantes. O ar beliscou sua pele, picando-o com geada repentina. Mas quando a porta se abriu completamente, o quarto parecia exatamente como sempre.
Lá dentro estava o mesmo arranjo simples: uma cama modesta, uma escrivaninha de madeira combinada com uma cadeira simples, um pequeno espelho pendurado em uma parede, pisos de madeira antigos que rangiam sob os pés, papel de parede desbotado enrolando nas bordas e cortinas esfarrapadas. Nada parecia mudado ou fora do lugar. Nenhum intruso estranho, nenhum portal aberto, nenhuma rachadura bizarra na parede.
Yu Sheng não baixou a guarda. Ele deu um passo à frente, espreitando em cada canto. Irene seguiu um passo atrás, sua curiosidade aumentando enquanto inspecionava este espaço que supostamente era “dela”. De repente, os olhos de Irene se arregalaram ao ver algo perto da moldura da porta. “Ei, Yu Sheng! Olha ali, perto da parede!”
Yu Sheng se virou para ver onde ela estava apontando. Ali, na base da porta, havia uma pequena pilha de algo branco e fofo, junto com manchas escuras e úmidas afundando lentamente nas tábuas do assoalho.
Ele se inclinou, curvando-se para examiná-lo. “Isso é… neve?”, perguntou ele, assustado. Certamente parecia neve, e quando ele a tocou, ela rapidamente se derreteu em gotas de água fria.
Irene piscou, espantada. “Neve? Dentro do quarto? Que estranho!”
Yu Sheng estudou a poça derretida. “Parece que o vento a soprou de algum lugar, empilhando-a ao longo da parede. Mas como diabos a neve poderia entrar neste quarto fechado?” Ele franziu a testa, tentando juntar as peças do quebra-cabeça.
Foxy se juntou a ele, agachando-se e pressionando o nariz perto do papel de parede úmido. Ela cheirou cuidadosamente, suas orelhas de raposa se contraindo. “Cheira a uma criatura viva”, disse ela seriamente. “De onde quer que essa neve tenha vindo, há seres vivos envolvidos.”
Irene olhou boquiaberta para Foxy, admirada por ela poder dizer tanto com apenas uma cheirada. “Você está brincando! Você pode realmente dizer isso só pelo cheiro?”
Foxy se endireitou, parecendo orgulhosa. “As raposas têm narizes muito sensíveis”, disse ela.
“Isso é ainda melhor que o nariz de um cachorro”, Irene murmurou para si mesma, soando impressionada.
Naquele momento, Yu Sheng avistou outra coisa. Ele se afastou da parede em direção à escrivaninha. Lá, no chão, ele pegou um pequeno pedaço de metal preto como breu. Parecia um pequeno dispositivo ou um conector estranho para canos. Tinha vários orifícios roscados, era oco por dentro e parecia leve, mas sólido entre seus dedos.
Irene se aproximou, estudando o objeto curioso. “Isso definitivamente não estava aqui antes, certo?”
“De jeito nenhum”, disse Yu Sheng, balançando a cabeça. “Assim como a neve não pertence a este lugar, esta peça de metal estranha também não.”
Com isso, Yu Sheng aproximou-se do espelho pendurado na parede em frente à porta. Ele olhou para ele, notando como ele simplesmente refletia o quarto atrás dele. Cama, escrivaninha, cadeira — tudo parecia normal.
Mas ao semicerrar os olhos, Yu Sheng notou algo mais, algo sobreposto ao reflexo. Dentro do espelho, parecia haver outra cena sobreposta ao reflexo do quarto. Além da mobília comum, ele podia distinguir o que parecia ser a boca de uma caverna, meio escondida, mas visível se você olhasse de perto. E do lado de fora daquela caverna, a neve caía constantemente, caindo de um mundo frio e secreto, longe da Rua Wutong, número 66.