Hotel Dimensional

Capítulo 88

Hotel Dimensional

Yu Sheng se inclinou para perto, aproximando o rosto a poucos centímetros da superfície do espelho. Ele estava tentando dar uma olhada melhor naquele curioso e tênue “segundo reflexo” que pairava ali. A imagem no espelho estava duplicada de alguma forma, como se ele estivesse olhando através de uma janela em uma noite de inverno. Dentro dele, o reflexo de seu próprio quarto parecia se misturar com uma cena distante de uma caverna nevada além. Tudo o lembrava de olhar através do vidro para dois mundos de uma vez: seu quarto familiar e um mundo estranho, coberto de neve, muito distante. No entanto, a segunda cena estava turva, como se fosse apenas meio real, escapando além de seu alcance.

Naquele instante, Irene subiu rapidamente no ombro de Yu Sheng. Ela envolveu seus bracinhos de boneca em volta de sua cabeça, olhando fixamente para a estranha visão no espelho. Por um tempo, ela permaneceu em silêncio, seus olhos fixos na curiosa cena. Finalmente, ela falou, sua voz suave cheia de admiração. "Você acha que essa neve está realmente soprando do outro lado do espelho?", ela perguntou.

Yu Sheng virou a cabeça levemente, surpreso com a pergunta dela. "Você também consegue ver?", ele disse.

Irene soou perplexa com sua surpresa. "Claro que consigo. O que tem de tão chocante nisso?", ela respondeu. "Eu não sou cega, sabia?" Ao lado deles, Foxy — sua companheira com características de raposa — também assentiu, antes que Yu Sheng pudesse dizer qualquer coisa.

"Benfeitor, eu também vejo", disse Foxy baixinho.

Yu Sheng coçou a cabeça, sentindo-se um pouco sem jeito. "É só que, depois de lidar com a Chapeuzinho Vermelho e Li Lin, eu tenho me preocupado se nem todo mundo vê o que eu vejo. Eu estava começando a pensar que poderia estar imaginando coisas." Ele deu de ombros, envergonhado por sua própria cautela.

Enquanto ponderava sobre esses pensamentos, Yu Sheng deu um passo cuidadoso para frente. Ele estendeu a mão em direção à superfície do espelho, querendo testá-lo de alguma forma. Da última vez que ele havia tocado neste espelho, ele havia lhe mostrado um terreno baldio estranho onde uma boneca quebrada e um monstro sombrio e tenebroso haviam sido destruídos. O que aconteceria agora se ele o tocasse novamente? Será que ele lhe mostraria algo ainda mais estranho?

Irene, nervosa com a ideia, agarrou o cabelo de Yu Sheng, agarrando-se firmemente. Ele podia sentir o corpo dela tremendo um pouco. "Ei, tenha cuidado!", ela gritou. "E se alguma coisa esquisita—"

"Ai, ai! Irene, solte meu cabelo!", Yu Sheng gritou, assustado pelo puxão forte.

"Oh! Desculpa!", Irene exclamou, aliviando rapidamente seu aperto. Ela havia se deixado levar por seus próprios medos.

Agora livre, as pontas dos dedos de Yu Sheng roçaram a superfície do espelho. Estava frio — tão frio que parecia tocar em um bloco de gelo. Ele meio que esperava que o reflexo mudasse novamente, ou que algo acontecesse, mas a imagem permaneceu imóvel.

"Está só frio", disse Irene baixinho, ousando estender a mão e tocá-lo ela mesma. "Além disso, não está acontecendo nada."

Yu Sheng assentiu e puxou a mão para trás, com a testa franzida em confusão. O toque gelado havia desaparecido assim que ele se afastou, e agora ele notou outra coisa: a estranha imagem dupla no espelho estava desaparecendo. Em apenas alguns segundos, aquela caverna nevada e toda a sua brancura misteriosa desapareceram, deixando apenas o reflexo comum do quarto. O outro mundo, se é que era isso, tinha sumido.

Ele estendeu a mão novamente e tocou o espelho, mas desta vez estava apenas em temperatura normal. Nenhum frio. Era apenas um espelho, simples e direto.

Foxy, que havia estado observando tudo isso em silêncio pensativo, se manifestou. "Benfeitor", ela disse cuidadosamente, "o espelho sempre foi assim?"

Yu Sheng balançou a cabeça, suspirando. "Sempre foi estranho de alguma forma", ele disse. "Às vezes ele mostra cenas estranhas de sabe-se lá onde. Mas desta vez, ele fez mais do que isso. Tinha neve bem aqui no quarto. E aquela coisa de metal esquisita caiu no chão." Ele lançou um olhar para o pequeno objeto de metal preto que havia encontrado antes, apanhado debaixo da mesa. A neve que havia entrado do outro lado já estava derretendo, deixando uma pequena poça de água nas tábuas do assoalho.

Ele franziu a testa para o dispositivo de metal ainda em sua mão. A estranha visão no espelho havia desaparecido completamente, mas a evidência de sua presença permanecia — a neve derretida, o objeto desconhecido. Eles eram totalmente reais. Irene estava certa — isso era realmente bizarro.

"Eu vou dormir no seu quarto hoje à noite", Irene declarou de repente, seus bracinhos abraçando a cabeça de Yu Sheng como se para se proteger. Ela estremeceu. "Eu vou dormir numa cadeira ou numa mesa, qualquer coisa! Eu não vou ficar neste quarto assustador sozinha!"

"Eu não estava planejando deixar ninguém ficar aqui de qualquer maneira", Yu Sheng respondeu, removendo as mãos de Irene de sua cabeça. "É estranho demais. De agora em diante, se eu não estiver aqui, não abram esta porta, não importa o quê."

Irene e Foxy assentiram em concordância ansiosa. Nenhuma delas tinha qualquer desejo de passar um tempo sozinha neste lugar perturbador.

"Além disso", Yu Sheng acrescentou, levantando Irene de seu ombro e colocando-a no chão, "se você não quer dormir aqui, você poderia simplesmente ficar com a Foxy. Por que você insiste em ficar no meu quarto?"

Irene protestou imediatamente, agitando seus bracinhos loucamente. "Porque essa raposa bate nas pessoas com o rabo quando está dormindo! Você pode me chutar da cama enquanto dorme, mas pelo menos eu vou cair só no chão. Ela me bate tão forte que eu saio voando na parede!" Ela continuou sem parar, reclamando sobre como ela não tinha um quarto próprio, nem uma cama decente, e como todo mundo parecia se esquecer dela porque ela era pequena. Era um fluxo constante de lamúrias, cada reclamação se misturando na próxima. Já que bonecas não precisam respirar, ela nunca parava, nem mesmo por um segundo, fazendo a cabeça de Yu Sheng latejar.

Ele entreteve a ideia maluca de enfiar Irene no rabo fofo de Foxy, mas rapidamente descartou, sabendo que isso só levaria ao caos. Em vez disso, ele pegou a boneca tagarela, acenou para Foxy e os conduziu para fora daquele quarto assustador. Ele trancou a porta atrás de si, verificando-a uma, duas, três vezes para ter certeza de que estava segura.

"Benfeitor", Foxy disse suavemente, notando sua preocupação, "devo fazer guarda do lado de fora desta porta hoje à noite? Se alguma coisa acontecer, eu poderia te chamar imediatamente."

Yu Sheng imaginou Foxy, uma raposa de nove caudas, sentada como um cão de guarda no corredor. Ele balançou a cabeça. "Não, tudo bem. Não é como se este quarto tivesse começado a agir estranho hoje." Ele suspirou, lembrando que a casa inteira na Rua Wutong, nº 66, tinha sua cota de segredos estranhos. [1]

Ele colocou Irene no chão e puxou o novo telefone que havia recebido do Departamento de Assuntos Especiais. Irene, momentaneamente distraída de reclamar, subiu em seu ombro novamente, curiosa sobre o que ele estava fazendo.

"O que você está fazendo?", ela perguntou, esticando o pescoço para ver a tela.

"Quando algo estranho acontece, ajuda perguntar aos especialistas", Yu Sheng explicou. "Eu vou postar sobre isso no fórum 'Comunicações da Terra de Fronteira'. Talvez alguém por aí reconheça o que é essa coisa de metal." Ele mexeu no telefone, procurando o recurso certo. "Deve haver uma maneira de enviar fotos... Ah, aqui estamos."

Ele equilibrou o estranho objeto de metal preto em uma mão enquanto segurava seu telefone com a outra, tirando várias fotos de diferentes ângulos. Logo, ele as enviou para o mural público. Então ele olhou através das categorias e encontrou "Discussão sobre Relíquias Antigas" e "Discussão sobre Fenômenos Incomuns". Ambos pareciam promissores. Ele postou as fotos lá também, junto com uma breve mensagem:

"Objeto desconhecido feito de metal. Sem sinais de corrosão ou vida. Encontrado após uma nevasca em um quarto selado. Possivelmente relacionado a um espelho que mostra cenas distantes."

Yu Sheng quase escreveu "encontrei em casa", mas ele mudou de ideia. Afinal, a maioria das pessoas não esperaria encontrar dispositivos de metal estranhos e neve repentina dentro de suas casas. Ele tinha bons instintos — não havia necessidade de revelar muito sobre a Rua Wutong, nº 66. Mesmo uma pessoa normal como ele sabia que era melhor não divulgar todos os seus segredos online.

"Alguém vai responder?", Irene perguntou, se acomodando e olhando para a tela. "A maioria das pessoas escreve posts longos, até adiciona vídeos. Você mal escreveu alguma coisa."

"Eu não tenho muito mais a dizer", Yu Sheng admitiu. "É só um quarto, e este objeto estranho não parece fazer nada de notável."

Irene inclinou a cabeça e deu de ombros. "Justo", ela disse, voltando sua atenção para a televisão. Com Foxy ao lado deles, eles retornaram para a sala de estar, assistindo TV e esperando. Horas se passaram, e à noite, o telefone de Yu Sheng finalmente vibrou com uma resposta.

Ele tocou na tela ansiosamente. A mensagem veio de um usuário chamado "Três Mil Discípulos Malvados" no canal "Discussão sobre Relíquias Antigas":

"Você pode descrever o ambiente onde você encontrou este objeto? É em um Outro Mundo? Se sim, qual tipo? Existem seres inteligentes ou vestígios deles?"

Yu Sheng piscou para as perguntas inesperadas. Ainda assim, era um começo — sua primeira vez interagindo com alguém que poderia saber algo útil. Ele rapidamente digitou de volta:

"Outro Mundo, uma casa residencial antiga. Mobília moderna, bastante pacífica, sem monstros óbvios. Quanto a seres inteligentes..."

Ele hesitou, olhando para Irene empoleirada em seu colo, e Foxy cuidando de seu rabo ali perto. "Existem seres inteligentes", ele terminou, e apertou enviar.

Irene olhou para ele ceticamente. "Você acha que alguém realmente vai saber o que está acontecendo?", ela perguntou. "Mesmo o Departamento de Assuntos Especiais não sabia muito sobre a Rua Wutong, nº 66 até recentemente. E agora você está esperando que um estranho na internet resolva isso?"

Yu Sheng deu de ombros. "Quem sabe? Talvez eles não saibam sobre a Rua Wutong, nº 66 em si. Mas este objeto estranho poderia ter aparecido em outro lugar antes. Alguém pode reconhecê-lo."

Irene considerou isso e deu um pequeno aceno de cabeça inseguro. Então ela voltou a assistir televisão. Em pouco tempo, o telefone de Yu Sheng vibrou novamente.

Era outra mensagem de "Três Mil Discípulos Malvados":

"Eu nunca ouvi falar de tal Outro Mundo. Sua descrição é peculiar. Mas o objeto é interessante. Parece feito pelo homem, mas as marcações em seus cantos são estranhas. Alguém na 'Academia' pode estar interessado."


[1] - Wutong Road, nº 66 é o endereço da casa mal-assombrada onde Yu Sheng mora.

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