
Capítulo 13
Hotel Dimensional
Yu Sheng despertou com uma sensação familiar — o peso da escuridão ao seu redor, pressionando-o de todos os lados. Parecia que sua consciência estava afundando cada vez mais, como ser submerso em um mar denso e escuro.
Seus pensamentos flutuavam sem rumo na escuridão, rodopiando como folhas apanhadas em uma tempestade. A pressão o fazia se sentir pequeno e impotente, deixando para trás nada além de um profundo cansaço.
Ele esperava que a estrada para fora do “Outro Mundo” fosse traiçoeira. Talvez até perigosa o suficiente para lhe custar a vida mais de uma vez. Ele havia previsto muita coisa, mas não isso. Enquanto vagava na escuridão sufocante, memórias começaram a surgir — fragmentos da última coisa que viu antes que tudo escurecesse: um par de olhos dourados-avermelhados fixos nos seus, a visão daquelas magníficas caudas de raposa flamejando como fogos de artifício no céu.
E então aquela cabeçada. Aquela cabeçada supersônica.
Afinal, quem era aquela garota? De onde ela veio? E por que ela estava naquele lugar estranho? Ele repassou a cena repetidamente em sua mente como se pudesse desvendar o mistério pela força de vontade.
Mas essa não era a única coisa que o incomodava. Durante a luta com aquele monstro, algo havia mudado dentro dele. Sua força havia aumentado, seus movimentos se tornaram mais precisos e… havia aquela fome avassaladora.
O que estava acontecendo com ele?
Os pensamentos de Yu Sheng giravam como um redemoinho. Sem um corpo para ancorá-lo, sua mente conjurava imagens estranhas e mutáveis que dançavam diante de seus olhos. Entre elas, havia fragmentos de memória: a criatura feita de incontáveis membros, a garota com orelhas de raposa colidindo com ele com aquele golpe final. Então, de repente, algo diferente apareceu — uma pintura, onde Irene jazia estilhaçada em uma cadeira, seus membros de marionete conectados por fios delicados. No fundo, uma sombra espreitava, fraca, mas inconfundível.
E então, em um instante, tudo sumiu.
Novas memórias surgiram — céus carmesins, luz do sol que fluía como água pelas ruas e becos familiares. Era sua casa, Cidade Fronteira. Ele a havia deixado há apenas dois meses, mas de alguma forma, enquanto essas cenas flutuavam diante dele, elas pareciam distantes, como memórias da vida de outra pessoa.
Tão rápido quanto apareceram, as imagens desapareceram na escuridão mais uma vez, deixando Yu Sheng no silêncio.
Por um momento, sua mente se clareou, e ele tentou chamar: “Irene.”
Nada. Nenhuma resposta.
Claro, neste estado de “morte”, ele deve ter perdido sua conexão com ela.
Yu Sheng mudou seu foco. Ele conseguia mover seus membros? Havia algo ali que ele pudesse tocar ou mesmo ver? Ele tentou olhar ao redor, mas tudo o que encontrou foi um vazio. Ele era apenas uma consciência flutuante — incorpóreo, sem forma.
Por um tempo, ele experimentou em silêncio.
Nas últimas duas vezes em que “morreu”, ele não teve uma compreensão real do que havia acontecido. Cada vez, ele voltava à vida atordoado. Mas desta vez, algo estava diferente. Ele tinha alguma clareza agora, uma consciência que o permitia testar os limites deste lugar estranho.
Ele sabia que tudo tinha sido confuso — um mundo desconhecido, eventos bizarros, mistérios sobre seu próprio corpo e o fato de que ele já havia morrido e voltado duas vezes. Muita coisa havia acontecido, e nada disso fazia sentido.
Mas desde que Irene mencionou o “Outro Mundo”, Yu Sheng havia estabelecido um novo objetivo: retornar ao mundo normal.
Ele aprendeu com ela que, às vezes, pessoas comuns cruzavam acidentalmente para o Outro Mundo. Isso podia acontecer das maneiras mais banais — descendo no ponto de ônibus errado, virando uma esquina a mais ou abrindo a porta errada. Não importava como acontecia, mas o principal era que nem sempre era permanente. Havia maneiras de voltar.
De acordo com o que Irene lhe havia dito, havia até pessoas que estudavam o Outro Mundo — especialistas que mapearam algumas de suas regras. Algumas pessoas conseguiram retornar à vida normal depois de escorregar pelas fendas.
Aquele vale, onde a noite nunca terminava, era um desses Outros Mundos. A casa na Rua Wutong, onde Yu Sheng havia ficado, era outro. Mas Yu Sheng tinha a sensação de que sua jornada para o Outro Mundo havia começado ainda antes.
Talvez o dia em que ele abriu a porta da frente de sua casa, dois meses atrás, tenha sido o dia em que ele pisou pela primeira vez nesta estranha realidade.
Agora, mais do que nunca, ele precisava entender. Ele tinha que descobrir essas ocorrências estranhas, desvendar os segredos do Outro Mundo e, mais importante, encontrar sua saída.
Com essa resolução, Yu Sheng abriu os olhos.
O vento frio da noite varreu o buraco aberto na parede, sua mordida afiada carregando-se através do telhado meio desabado e para o céu escuro e turvo além.
Yu Sheng sentou-se no canto do templo em ruínas, sem se mover imediatamente. Ele permaneceu perfeitamente imóvel, congelado na postura de alguém que acabara de acordar. Seus sentidos estavam em alerta máximo, examinando cuidadosamente tudo ao seu redor. Sua mente se esforçava para manter as memórias e impressões que estavam escorregando, desaparecendo tão rápido quanto haviam chegado.
Ele estava tentando se lembrar daquele momento exato em que havia acordado, para identificar onde estava a linha entre a escuridão da qual havia emergido e o “mundo real” em que agora se encontrava.
Talvez, só talvez, isso o ajudasse a entender o que realmente estava acontecendo com ele — o mistério de seu constante “morrer e ressuscitar”.
No mínimo, isso poderia lhe dar uma pista sobre o que estava por trás de tudo isso.
Gradualmente, pedaços do que ele havia visto antes de acordar começaram a retornar a ele. Ele se lembrou de ascender da escuridão, atravessar uma fronteira nebulosa e, em seguida, cair de volta em direção à realidade. Mas depois disso? O que havia acontecido entre o momento em que ele desceu em direção à realidade e o instante em que seus olhos se abriram? Havia algo importante naquele minúsculo fragmento de tempo.
Havia imagens fugazes — cenas breves e borradas — mas algumas se destacaram, mais claras do que o resto. Ele viu o caminho familiar perto de sua casa, o portão da casa na Rua Wutong e este mesmo canto no fundo do templo em ruínas.
Yu Sheng fechou os olhos por um momento, deixando seus pensamentos se acalmarem. Ele considerou algumas teorias, mas decidiu deixá-las de lado por enquanto. Em vez disso, ele respirou fundo e lentamente e começou a flexionar as mãos e os pés, testando seu corpo.
Este corpo parecia forte e poderoso. Ele podia sentir a energia correndo por suas veias. Sua audição estava aguçada, sua visão clara e seus membros cheios de força — mesmo que ele tivesse sido quase decapitado não muito tempo atrás por uma cabeçada supersônica. Agora, era como se nada disso tivesse acontecido. Ele se sentia completamente revigorado.
Levantando-se, Yu Sheng se preparou para chamar Irene.
Mas então ele congelou.
Havia um som, fraco, mas inconfundível, vindo de além da parede quebrada.
Por um breve segundo, a mente de Yu Sheng correu. Aquele monstro de cheiro delicioso… ele o havia seguido para dentro do templo?
Mas não. Algo estava errado. Aquela criatura sempre fazia muito barulho. Seja o que fosse, estava se movendo furtivamente, quase cautelosamente.
Yu Sheng respirou em silêncio, deixando sua curiosidade assumir o controle enquanto ele se arrastava até o buraco na parede e espiou para fora.
A noite estava escura, mas ele ainda podia ver claramente.
Lá, entre as ruínas, estava uma garota. Ela estava escolhendo seu caminho cuidadosamente através dos destroços.
Suas roupas estavam esfarrapadas — um vestido que antes poderia ter sido bonito, mas agora era pouco mais do que uma bagunça. Seu cabelo branco estava pendurado em nós emaranhados, cobrindo a maior parte de seu rosto. Mas espreitando através da desordem estavam duas orelhas de raposa pontudas e peludas.
O olhar de Yu Sheng mudou para trás dela, e seus olhos se arregalaram com o que ele viu: caudas — caudas de raposa, mais de uma. Do seu ângulo, era difícil contar exatamente quantas. A maneira como suas caudas estavam emaranhadas fazia parecer que ela tinha apenas uma enorme.
Ele sabia quem ela era, é claro.
A que havia dado a cabeçada supersônica.
No entanto, ela parecia completamente alheia à sua presença. Ela se movia cautelosamente entre as ruínas, cheirando o ar como se estivesse procurando por algo. Depois de um tempo, seus olhos se iluminaram e ela correu em direção a um ponto específico.
O som de plástico farfalhando ecoou fracamente na noite.
O queixo de Yu Sheng caiu.
Era o saco plástico — o que estava cheio de restos de cozinha. Ele o havia trazido consigo quando foi “jogado” neste vale antes. Sem pensar muito nisso, ele o jogou nas ruínas.
Dentro do saco estavam cascas de vegetais descartadas, cascas de ovo e as sobras que ele havia limpado da geladeira.
Ele se agachou mais, observando enquanto a garota com cauda de raposa rasgava animadamente o saco plástico, derramando seu conteúdo. Sem pensar duas vezes, ela pegou um punhado de restos e enfiou na boca, comendo vorazmente como se não comesse há séculos.
Yu Sheng sentiu um estranho aperto no peito.
Ele não tinha certeza do porquê, mas isso o encheu de tristeza. Ninguém, ele pensou, deveria ser deixado para morrer de fome assim.
Nem mesmo alguém que não parecesse muito… humano.
Mesmo que ela tivesse lhe dado uma cabeçada antes. Afinal, ela estava tentando salvá-lo.
Naquele momento, a garota pareceu sentir que não estava sozinha.
Ela se agachou ali, congelada no meio da mordida, seus olhos arregalados de surpresa e nervosismo.
Yu Sheng estava parado no canto desmoronando da parede do templo. Através das ruínas, seus olhos se encontraram.