Hotel Dimensional

Capítulo 11

Hotel Dimensional

Nos momentos finais antes que a morte o envolvesse com seu abraço frio, Yu Sheng sentiu uma escuridão mais profunda do que qualquer coisa que já tivesse conhecido. Era densa, quase como se fosse um ser vivo, pressionando-o como um líquido denso e viscoso. Não havia escapatória, apenas o peso esmagador do esquecimento.

Sua mente começou a desaparecer, escorrendo como areia por entre os dedos. Ele sabia que seu corpo estava falhando, sua vida se esvaindo devido aos terríveis ferimentos que havia sofrido. Seus pensamentos, ligados ao invólucro físico que os sustentava, estavam prontos para se dissolver no nada. Era, afinal, a ordem natural das coisas.

Mas então—justamente quando sua existência estava à beira de desaparecer—algo a deteve. Uma força, ou talvez fosse uma ideia teimosa, pareceu envolver sua mente, puxando-o de volta da beira do abismo. Na confusão nebulosa, ele se lembrou do sapo que uma vez havia comido seu coração e de como ele havia sido ressuscitado antes.

Como isso sequer tinha acontecido? O que tinha acontecido com ele? Por que ele ainda estava… vivo?

Essas perguntas o corroíam, impedindo-o de afundar completamente no abismo escuro. Sua consciência vacilava, mas se recusava a ceder completamente. Ele precisava saber—o que o havia trazido de volta antes? O que havia acontecido depois que a morte o levara?

O peso da escuridão o esmagava com mais força, tornando-se mais frio, mais áspero, como ser enterrado vivo sob camadas de rocha. Ele podia sentir sua alma sufocando sob sua pressão. E então, tão repentinamente quanto havia começado, a sensação esmagadora se dissipou.

Naquele momento de libertação, um único pensamento claro lhe veio: Ao morrer, a própria morte havia morrido.

Yu Sheng havia superado a morte e, agora, a morte havia fugido dele. Seu "corpo" parecia mais leve, e ele disparou para cima, para longe do vazio negro que quase o havia consumido.

Enquanto subia, ele vislumbrou algo—algo na superfície da escuridão. Era como se estivesse deslizando sobre uma estranha camada de existência, mas antes que pudesse entender, seus olhos se abriram.

O ar noturno estava frio, entrando pelas paredes destruídas ao seu lado. Ele estava no templo em ruínas novamente, com o telhado meio desabado acima dele. Lá fora, o céu era uma bagunça caótica de nuvens rodopiantes, e os ventos do vale uivavam à distância.

Yu Sheng sentou-se imóvel no canto, com a mente confusa. A sensação era estranhamente familiar. Já havia acontecido com ele antes.

Mas desta vez, sua recuperação foi mais rápida. Em algumas respirações, ele se lembrou de tudo, incluindo a escuridão opressiva que quase o havia levado.

Estabilizando sua respiração, Yu Sheng lentamente se levantou.

Seu corpo rangeu e gemeu como se estivesse acordando de um longo e profundo sono. A força fluiu de volta para seus membros, e sua mente clareou. Ele olhou para fora do templo, para o local onde havia desabado, com sangue acumulado ao seu redor.

Não havia nada ali agora. A besta que o havia atacado havia desaparecido—ou talvez estivesse espreitando nas sombras, esperando para atacar novamente.

Yu Sheng ficou em silêncio por um momento antes de falar em voz alta em seus pensamentos: "Irene?"

Quase instantaneamente, uma voz explodiu em sua mente. "Yu Sheng! Meu Deus, você está bem?!"

A voz de Irene estava frenética enquanto ela continuava: "Você parou de responder do nada! Fiquei ligando e ligando, mas você não atendia! Pensei que você estivesse morto! Você me assustou demais! Se você realmente tivesse morrido, quem consertaria a TV? Tem certeza de que está bem?"

A sobrancelha de Yu Sheng se contraiu. "Então, você está preocupada apenas com a TV em casa?"

Houve uma pausa. "...Não só com isso. Quer dizer, eu também estava preocupada com você estar morto..."

Yu Sheng suspirou, com exasperação em sua voz. "Sério agora."

Ela hesitou antes de dizer isso! ele pensou, incrédulo.

Apertando a mandíbula, Yu Sheng lutou para se manter calmo. "E se eu te dissesse que eu realmente morri agora?"

Irene não acreditou nem por um segundo. "Você está falando, não está? Você parece bem!"

"...Sim, só brincando", Yu Sheng respondeu secamente. Ele fez uma pausa antes de perguntar abruptamente: "Quanto tempo se passou?"

"Hã? Quanto tempo o quê?"

"Desde que eu disse que ia desligar. Quanto tempo eu fiquei fora?"

"Hum... Não consigo ver um relógio daqui, mas talvez meia hora? É difícil dizer com certeza. Estou presa nesta pintura há séculos, então meu senso de tempo está um pouco confuso. O céu não mudou muito, então não acho que tenha sido uma noite inteira. Provavelmente?"

Yu Sheng suspirou novamente. "Essa é uma resposta bem vaga, não acha? Há uma grande diferença entre meia hora e uma noite inteira."

Houve silêncio por um momento antes de uma risada baixa, quase travessa, soar por perto.

Irene imediatamente se apressou em explicar. "Não fui eu! Foi o urso!"

Yu Sheng se sentiu completamente exausto, tanto mental quanto fisicamente. Ele acenou com a mão de forma desdenhosa. "Eu sei."

Ela pareceu satisfeita consigo mesma. "Ah, então você acredita em mim agora?"

Ele nem teve energia para discutir. Não se tratava de acreditar nela. Era só que, a essa altura, a voz dela por si só era suficiente para fazer os outros quererem lhe dar uma boa palmada.

Ainda assim, com o tagarelar de Irene diminuindo ao fundo, Yu Sheng saiu do templo mais uma vez.

Ele não tinha certeza se era apenas sua imaginação, mas se sentia mais forte do que antes. Seus passos estavam mais leves, seus movimentos mais poderosos e até seus sentidos pareciam mais aguçados.

Era como se estivesse se ajustando a este lugar estranho—a escuridão, as ruínas, a malícia sempre presente e os olhos invisíveis o observando.

Sem hesitação, ele caminhou em direção ao espaço aberto em frente ao templo, em direção à floresta sinistra que se aproximava do outro lado, no fundo do coração do "Outro Mundo".

Ele conhecia os riscos. Ele poderia morrer novamente a qualquer momento, com o próximo passo, ou na próxima respiração.

A voz de Irene ecoou em sua mente mais uma vez, mais suave desta vez. "Yu Sheng... você está realmente bem?"

"Estou bem", ele respondeu, com a voz firme. "Eu me machuquei antes, mas estou curado agora."

"Talvez você devesse ficar parado... encontrar um lugar seguro. Vou tentar lembrar se já ouvi falar desse 'vale' que você mencionou."

"Vá em frente e tente isso. Eu vou continuar me movendo."

"Espere, e se for muito perigo—"

"Irene", Yu Sheng interrompeu. De pé no ar frio e misterioso da noite, ele olhou para a floresta escura à sua frente. Pela primeira vez no que pareceu uma eternidade, ele sorriu. "Ultimamente, tenho me sentido como se estivesse... à deriva."

Irene pareceu confusa. "À deriva?"

"Sim, só... vagando. Mas quando você mencionou o 'Outro Mundo' e as pessoas tropeçando nele acidentalmente, você sabe como isso me fez sentir?"

"Como isso te fez sentir?" ela perguntou cautelosamente.

Yu Sheng riu. "Feliz."

"Feliz? Sério?"

"Sim. Muito feliz." Seu sorriso se alargou, uma risada borbulhando dentro dele. "Você disse que algumas pessoas abrem a porta errada acidentalmente, ou pisam na tábua errada, e acabam em um Outro Mundo, certo? E você também disse que se tiverem sorte, podem encontrar uma saída."

"Isso é... o que eu disse", Irene respondeu, com a voz incerta. "Mas não é fácil! Investigadores profissionais têm dificuldade em sair, e pessoas comuns geralmente... bem..."

"Morrer algumas vezes, e eu vou descobrir", Yu Sheng murmurou, meio para si mesmo.

"O que foi isso?" Irene perguntou, sem entender suas palavras.

"Nada", Yu Sheng disse levemente. "Eu só encontrei algo para me concentrar. Vai levar tempo, mas eu vou sair daqui."

"Bem, se isso te faz sentir melhor, fico feliz! Só... não morra de novo, ok? Eu ainda preciso que você volte e conserte a TV... oh, e talvez me arrume um corpo?"

"Tudo bem, tudo bem", Yu Sheng disse com uma risada. "Quando eu voltar, vou ver o que posso fazer sobre isso."

Irene se animou. "Sério? Você é um fabricante de bonecas ou algo assim? Por que não disse isso antes?"

Yu Sheng fez uma pausa, então admitiu com um suspiro: "Bem, eu não sou exatamente um profissional. Eu assisti a alguns vídeos sobre escultura e modelagem... mas minhas mãos não correspondem às minhas ambições."

Dois segundos de silêncio se seguiram antes que Irene começasse a xingá-lo em voz alta.

Mas pela primeira vez em muito tempo, Yu Sheng se sentiu verdadeiramente à vontade. Ele caminhou para frente, olhando para as montanhas imponentes, e avistou algo espreitando logo à frente.

Era uma criatura enorme, com o corpo feito de membros retorcidos e fundidos. Ela estava parada à beira da estrada, observando-o com olhos fixos.

Yu Sheng parou em seus rastros e, sem hesitação, chamou Irene. "Irene."

"O que foi?"

"Uh... Talvez eu precise desligar de novo."

"Hã?"


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