
Capítulo 709
Meu Talento Se Chama Gerador
Depois disso, continuei, vamos ao campo de batalha. Não para terminar tudo ainda, apenas para testar as águas. Se conseguirmos obter informações úteis, melhor ainda. E, se não, não há problema em ganhar alguns níveis pelo caminho.
Mazikeen me observava atentamente, mas não disse uma palavra.
Foi então que a porta do quarto se abriu.
North saiu de dentro. Ela não falou nada. Seus olhos se encontraram com os meus, tranquilos mas determinados.
Entendi imediatamente.
— Volto já, — falei para os outros, já me adiantando. Segui North para dentro do cômodo, e a porta se fechou atrás de nós.
O silêncio parecia pesado.
— O que aconteceu? — perguntei, estudando o rosto dela. — Tem algo errado?
Ela não respondeu de imediato. Olhou fixamente para mim, com uma expressão firme mas tensa, como se estivesse decidindo quanto peso colocar nas palavras.
— Recebi minha missão do Sistema, — disse finalmente.
Minhas sobrancelhas se franziram. — Quando?
— Há alguns segundos.
Isso me fez pausar. O timing era incisivo demais. Muito preciso. Minha mente imediatamente voltou à conversa com Saleos, ao aperto de mão, ao acordo. Era como se tivesse sido deliberado, como se o Sistema estivesse observando, esperando para ver qual caminho eu escolheria antes de fazer seu movimento na partida.
— Qual é a missão? — perguntei.
Ela respirou lentamente. — Diz que há uma estrutura chamada Ancoragem Eclipse dentro de uma fenda de Quarta Classe. Dentro dela há um núcleo. Meu objetivo é destruir esse núcleo.
Fiquei em silêncio, deixando que ela continuasse.
— A descrição diz que a torre bloqueia o Sistema, — ela prosseguiu. — Não consegue observar bem a área. Não consegue interferir. Qualquer coisa dentro daquela zona vira... um ponto cego.
Piscando uma vez, minha mente instantaneamente visualizou a imagem. A estrutura imponente que ficava mais próxima da fenda. A que irradiava aquela presença estranha e opressiva. O lugar onde a aura do Eterno parecia mais densa.
— Então é isso que ela faz, — murmurei.
North continuou. — Se aquele núcleo permanecer intacto, o Sistema não consegue ajudar quem estiver lá dentro. Sem suporte. Sem correções. Sem avisos. Sem observações.
Um calafrio percorreu meu corpo.
Me lembrou do asteroide Estrela Vazia. A mesma sensação de estar completamente desconectado, isolado de algo fundamental. Só que dessa vez, muito pior. Não era um único lugar. Era um campo de batalha inteiro.
Suspiro lentamente.
— Então o Sistema quer que você rasgue o selo dos olhos dele, — eu disse.
North cruzou o olhar comigo. — Ou quer garantir que você não entre na escuridão sozinho.
Pisquei uma vez.
— Talvez, — murmurei. Mas, no fundo, tinha certeza de outra coisa: o Sistema queria olhos sobre mim. E qual seria a melhor forma de fazer isso do que vinculando uma missão a alguém que me importa? Não por força. Não por ameaças. Apenas um ganchinho sutil envolto em preocupação.
Manipulação feita de forma limpa.
Puxei um suspiro leve e sorri, mesmo sem vontade. Estendi a mão e acariciei suavemente a cabeça dela.
— Não se preocupe. É uma missão simples, — disse. — Nós íamos enfrentar o Eterno de qualquer jeito. Se sou eu ou os demônios, não importa. Você será quem vai destruir aquele núcleo.
Meu sorriso ficou um pouco mais sutil. — O único problema é aquela torre. Se eu estiver certo, ela é o local mais protegido de toda a defesa deles. Tudo importante estará ao redor dela.
Ela concordou lentamente, aceitando sem contestar. Então deu um passo à frente e me abraçou.
— Bilhão, — ela falou suavemente, com a testa encostada no meu peito —, por favor, cuide de si. Você está se arriscando demais, rápido demais.
Fechei os olhos por um momento e apoiei o queixo levemente nos cabelos dela.
— Eu sei, — respondi suavemente. — Mas pode acreditar, não estou sendo imprudente.
Reforcei um pouco mais meus braços ao redor dela, o suficiente para que ela sentisse.
— E te prometo uma coisa, — falei em voz baixa. — Não importa o que aconteça, vamos terminar sua missão.
Ela se afastou só um pouco para olhar nos meus olhos, que estavam atentos, apesar da preocupação neles.
— Idiota, — disse, — tô mais preocupada com você do que com a missão.
— Eu sei, — respondi após uma breve pausa. — E também me preocupo com você. Não falo isso com frequência, mas vejo. Vejo o modo como você se empurra pra frente. O jeito que nunca desacelera, mesmo quando deveria.
Ela sorriu levemente, como se estivesse aliviada.
— Obrigada por isso, — adicionei. — Por se manter forte quando as coisas ficam feias. Por seguir em frente mesmo com medo.
— Só não desapareça comigo, — ela murmurou. — Nem pelo Sistema. Nem pela guerra. Nem por ninguém.
Encostei a testa na dela.
— Não vou, — respondi. — É uma promessa que não vou quebrar.
Um agradável golpe na porta quebrou o momento.
North se endireitou um pouco, suspirou. Soltei meu aperto e olhei na direção da porta.
— O que foi? — perguntei.
A porta deslizou aberta sem esperar resposta, e Steve entrou. Ao nos ver, congelou.
— Ah, — ele disse. — Hora ruim?
North deu um passo atrás, cruzando os braços, com a expressão já controlada. — Você sempre tem hora ruim.
Steve coçou a nuca. — É… desculpa aí. Mas isso é importante.
Isso me fez endireitar.
— O que aconteceu? — perguntei.
Steve engoliu em seco, olhou sério pra mim. Só aquilo já dizia: isso não era brincadeira.
— Acabei de receber uma missão, — revelou.
Os olhos de North se voltaram rapidamente pra ele. Os meus, se estreitaram.
— Uma missão? — repeti.
Ele assentiu. — Do Sistema.
Meus olhos se estreitaram. Uma missão pode ser mera coincidência. Duas, já é padrão.
— O que ela quer? — perguntei.
Steve respirou fundo lentamente. — Diz que preciso roubar as inscrições rúnicas e as instruções usadas para criar os Ancoradouros de Infiltração.
O silêncio tomou conta da sala.
Até o zumbido distante da batalha parecia quase sem som por um momento.
— Roubar, — North repetiu suavemente.
— É, — Steve confirmou. — Não destruir. Não sabotar. Roubar. O processo completo. As runas, a estrutura, o método. Tudo.
Fechei os olhos brevemente.
O Sistema não estava apenas reagindo mais. — Estava planejando.
Primeiro North tinha a missão de destruir a Ancoragem Eclipse, a torre que bloqueava sua visão. Agora Steve era enviado para as próprias ferramentas que os Eternos usam para se instalar dentro de seres vivos.
Ele não queria apenas que vencêssemos essa fenda.
Querendo que aprendêssemos como o inimigo funciona. Tenho certeza de que já sabe como as runas são criadas. Essa não era a primeira fenda do nosso universo.
Quando abri os olhos novamente, ambos estavam olhando para mim.
Suspiro lentamente. — Parece que o Sistema decidiu parar de observar e começar a agir.
Steve soltou um sorriso torto, mas havia tensão por trás dele. — Então... agora sou um ladrão? E o que são essas âncoras que ele falou? Além disso, sou só um Grande Mestre. Roubar de um Eterno, hein? — ele torceu o nariz. — Ou o Sistema enlouqueceu, ou realmente te odeia.
North balançou a cabeça levemente. — Odeio é palavra forte demais. Talvez manipulação se encaixe melhor. — Ela olhou para mim. — Ou tortura. Tortura através de nós.
Isso me fez pausar por um momento.
— Certo, — disse. — Chega de besteira. Vamos precisar de um plano.
Inclinei um pouco para trás, pensando adiante. O Sistema não estava mais jogando missões aleatórias. Estava nos empurrando para posições bem específicas, forçando contatos com coisas que jamais deveriam tocar tão cedo.
Roubar o método por trás dos Ancoradouros de Infiltração. Destruir a Ancoragem Eclipse.
Ambos apontavam direto ao coração do controle dos Eternos.
Não tinha certeza do que o Sistema realmente planejava agora. Mas uma coisa era clara:
Não estava pedindo. Estava colocando as peças no tabuleiro.