
Capítulo 697
Meu Talento Se Chama Gerador
Não era idêntico, mas era próximo o suficiente para não restar dúvida. Os quatro demônios que eu tinha detectado carregavam vestígios daquela mesma assinatura distorcida. Era fraca, profundamente enterrada sob camadas de sua própria Essência e leis, mas estava ali.
O que significava uma coisa.
Eles eram os espias escondidos que eu procurava e, ao mesmo tempo, se tornariam o caminho para que eu infiltrasse no outro lado. Sorri internamente enquanto começava a observar os quatro demônios.
Não eram espias óbvios. Não agiam de forma estranha. Estavam perfeitamente integrados à estrutura de comando, um na logística, outro na coordenação, um nas projeções e um perto dos pisos estratégicos superiores.
Mas a questão permanecia.
Por que a presença deles fazia a Estrela de Origem tremer?
Parei, pairando perto da borda da base de comando, e repeti a sensação na minha mente. Não tinha sido medo. Também não foi rejeição. Parecia reconhecimento, como se a Estrela tivesse percebido algo familiar e perigoso ao mesmo tempo.
A resposta surgiu aos poucos.
Runas.
Eram runas carregando névoa mortal, gravadas diretamente em seus corpos e sustentadas por padrões de lei estrangeiros. Isso explicava a ressonância. Névoa mortal isolada não teria causado tal reação, mas névoa mortal estruturada por runas avançadas... isso era diferente.
Congelei a localização dos quatro demônios, então recuei minha percepção e me afastei da base de comando. Posicionei-me próximo à borda da segunda camada, esperando a chegada do Cavaleiro.
O Cavaleiro voltou sem fazer som.
Num instante, o vazio ao meu lado estava vazio, e no próximo, sua sombra se desprendeu do nada e tomou forma. Ele pousou suavemente na borda da plataforma, o capuz se acomodando ao redor dele como se nunca tivesse se movido.
"Você demorou," eu disse em tom baixo.
"Eu tinha que demorar," respondeu o Cavaleiro. Sua voz era baixa, mas consegui perceber o peso que carregava. "O que eu vi não era algo para se passar rápido."
Me virei para encará-lo completamente. "Conte."
Ele olhou além de mim, na direção do brilho distante da fenda, e depois voltou a olhar. "As perdas são piores do que o Dravon falou ou mesmo o que o Primus nos passou. Muito piores."
Não o interrompi.
"Tanto exército está sendo deslocado com menos da metade do número original," continuou. "Alguns batalhões nem se rotacionam mais. Simplesmente... desaparecem. Seus nomes permanecem na lista, mas os soldados não voltam."
Minha mandíbula se fechou com força.
"O moral está destruído," ele prosseguiu. "Não é com gritos ou rebeliões. É silencioso. Os soldados já sabem que a morte está próxima, então muitos nem procuram tratamento. Não perguntam quanto tempo leva a recuperação. Os medicos já não perguntam nomes. Apenas tratam quem estiver na frente."
Isso fazia sentido com o que eu tinha visto.
"E a fuga," acrescentou após uma pausa, "será impossível se toda a base se voltar contra nós. Cada camada está interligada. Todas as armas podem ser redirecionadas. Se decidirem apagar um alvo dentro da estrutura, não haverá onde correr."
"Esperava isso," disse eu. "Mais alguma coisa?"
Os olhos do Cavaleiro ficaram afiados. "Sim."
Ele se aproximou mais. "O demônio que atacou o Primus do lado de fora. Gorath."
Meus olhos se estreitaram. "E ele?"
"Ele pertence a uma facção ligada a um Transcendente Superior chamado Zerathul."
"…Zerathul," repeti lentamente.
O Cavaleiro assentiu. "Percebi Gorath na segunda camada, então o segui. Ele não voltou pelos canais de comando padrão. Movimentou-se por uma rota privada."
"E?"
"E ele contactou a Lana."
"Ela está aqui?" perguntei.
"Não fisicamente," disse o Cavaleiro. "Mas ela sabe. Gorath informou a ela nossa chegada à fenda. Sobre o Primus."
Por alguns segundos, permaneci em silêncio.
Lana. Zerathul. Transcendente Superior.
"E Zerathul?" perguntei.
"Marido novo da Lana," confirmou o Cavaleiro. "A conexão deles é forte. Política e pessoal."
Sorri lentamente, forçando meus pensamentos a manterem-se claros. Lana sempre foi perigosa, mas agora eu também sabia da ligação dela. Uma Transcendente Superior disposta a agir por ela.
"Isso muda as coisas," disse eu.
"Sim," respondeu o Cavaleiro. "Ela pode interferir aqui. Não de forma explícita. Mas pode pressionar, redirecionar forças. Criar 'acidentes'."
Assenti com a cabeça. "Ótimo. Precisava saber disso."
O Cavaleiro me observou por um momento. "Você não está com pressa."
"Estou," respondi calmamente.
Relevei a ele as quatro demônios que percebi anteriormente. Os que carregavam as mesmas flutuações estranhas que senti em Peanu. As runas. A névoa mortal.
O Cavaleiro escutou sem interromper.
"Traidores," ele comentou ao final.
"Ou ferramentas," respondi. "De qualquer forma, eles têm importância."
Ficamos ali em silêncio por um momento.
Então, o Cavaleiro perguntou: "Qual será o próximo passo?"
Olhei para a primeira camada.
"Seguimos adiante," disse eu. "Vamos dar uma olhada também na camada central. Saleos está lá."
O Cavaleiro assentiu. "Tudo bem. Mas lembre-se, você disse 'dar uma olhada', não 'começar uma guerra'. Vamos tentar improvisar conforme o plano."
Danei uma risada interna e segui em frente.
À medida que nos aproximávamos da primeira camada, minha percepção conseguiu finalmente alcançar o suficiente para cobrir a zona vazia onde o combate ainda ocorria. Deixei que toda a escala do campo de batalha entrasse em mim completamente.
Fileiras e mais fileiras de soldados demoníacos flutuavam em formação pelo vazio, seus corpos ancorados por suas leis e Essência. Escudos sobrepostos. Armas zumbindo.
Em frente a eles—
As aberrações vinham.
Não marchavam. Rolavam.
Uma maré viva de carne retorcida e lei corrompida avançava, liderada por Fantasmas altíssimos cujas formas dobravam o espaço ao redor deles. Seus rugidos ecoavam pelo vazio, carregados de ódio e, parecia, excitação.
Então, colidiram.
O campo de batalha explodiu em movimento.
A Essência ardeu. Leis se fragmentaram e se remontaram. Seções inteiras do espaço se dobraram sob o impacto de domínios se chocando. Transcendentes avançaram, seus domínios se abrindo como mundos que se desenrolam, entrando em confronto direto com os Fantasmas.
Acima e atrás das linhas demoníacas, as armas da camada central dispararam.
Feixes de lei condensada rasgaram o espaço. Fogo, relâmpagos, gelo e força atingiram as aberrações, abrindo buracos na maré. O vazio gritou sob a pressão.
Ainda assim, as aberrações continuavam vindo. Seus corpos eram dilacerados. Soldados demoníacos desapareciam em flashes de luz e silêncio. A vida estava sendo apagada aos milhares. Franzi os punhos, depois os relaxei com força.
Meu sangue queimava. Minhas marcas gritavam por movimento. Por avançar. Por acabar com aquilo. Mas não era a hora. Inspirei fundo e me acalmei. O Cavaleiro ficou ao meu lado, em silêncio.
A guerra não se importava que chegamos. Mas, em breve, ela também se importaria.