
Capítulo 595
Meu Talento Se Chama Gerador
A risada cessou. Os sorrisos desapareceram. Pela primeira vez desde que essa loucura começou, os três ficaram imóveis. A tensão no ar era sufocante, carregada com uma Energia que eu estava liberando.
"Quem sou eu?" A voz de Steve quebrou o silêncio, calma, mas estranha. Era o tom dele, porém diferente. Seus olhos carmesim piscavam levemente, sinal de que não era mais Steve quem falava.
"Não existe uma única linha, ou mesmo um único livro, que consiga explicar quem eu sou," ele disse lentamente. "Mas você vai descobrir. Pouco a pouco. Vou deixar que veja minha vida, minha história, e então poderá decidir por si mesmo quem eu sou."
Seu olhar se fixou no meu, firme, penetrante, quase humano. Por um momento, esqueci que o corpo dele estava sendo controlado pelo meu amigo.
"Quanto à sua classe," continuou, "sim… ela está ligada a mim. Por design. Por destino. Em toda existência, só eu posso conceder essa classe. E, por agora, você é quem escolhi para portá-la."
"Quando isso aconteceu?" perguntei de repente.
"Quando você acordou."
A resposta me atingiu como um golpe no peito. Desde o início.
Minha mente girou, raiva e confusão se chocando.
Ele não parou. "Vamos só dizer que o Sistema tem seus planos. E eu tenho os meus. O Núcleo Nulo que você segura é uma parte de algo muito maior. Você ainda não começou a entender. Aquele negócio me levou mais tempo para criar do que o seu mundo inteiro existe. E o custo..." Ele sorriu de leve, mas não tinha calor algum na expressão. "...foi bem maior do que você abrir mão de algumas memórias e emoções em uma provação."
Palavras dele cortaram mais fundo do que eu quis admitir. O Núcleo Nulo… não era algo natural? Não vinha do Sistema? Era uma criação dele? Então, o que isso me fazia?
Fiquei encarando, tentando detectar qualquer pista de engano, mas tudo que vi foi uma certeza silenciosa.
"Eu criei este reino," continuou, "para testar quem portaria minha classe. Para ver se você era digno de herdar meu legado. Essa não é a última provação, também. Haverão outras, cada vez mais difíceis, cada uma mais próxima da verdade."
Minha mandíbula se apertou. "Você matou meus amigos nos seus testes."
"Eu não matei ninguém," disse, com um toque de diversão na voz. "O reino só reflete o que já existe dentro de você. As escolhas, os julgamentos, os sacrifícios, você fez tudo isso. Você decidiu quem ficava e quem ia embora."
Minha mão tremeu, a raiva ameaçando explodir, mas então suas próximas palavras paralisaram-me.
"Sei que você está procurando seus pais."
Todo som do mundo parecia desaparecer. "O que você disse?" perguntei, numa voz baixa.
"Eu sei," ele disse simplesmente. "Sei onde estão as almas deles. Sei o que aconteceu com elas, se foram corrompidas em Fantasmas ou transformadas em aberrações."
Meu sangue gelou. "Você... sabe alguma coisa sobre eles?"
"Sim," ele respondeu, com um sorriso suave. "E posso garantir que eles permanecem seguros."
Meu coração acelerou forte no peito. Dei um passo à frente, com os punhos tremendo. "Como?"
"Isso," ele disse, levantando um dedo, "é minha arma de negociação."
Queria arrancar aquela expressão de superioridade do rosto dele, mas me forcei a respirar fundo. "Você espera que eu acredite em você? Como confiar em alguma coisa que você diga?"
"Você precisa," ele respondeu calmamente. "Porque não há mais ninguém que possa fazer o que eu faço. Nem seu Sistema consegue rastrear as almas deles. Não consegue protegê-los dos Eternals. Só eu posso. Então, é simples, você terá que decidir. Confie em mim, ou não. Outra prova para o seu cérebro pequeno."
As palavras dele ficaram como veneno, dourando minha mente com dúvidas. Pensei em todas as possibilidades, em cada mentira, cada verdade que tinha visto. Se ele estava certo, se realmente podia protegê-los… então não podia ignorar. Mas, se estivesse mentindo, estaria jogando no jogo dele.
Devo ter percebido minha hesitação, porque ele ergueu a mão novamente antes que eu pudesse falar.
"Chega," ele disse. "Acompanhei sua jornada desde o dia que você acordou. Vi suas lutas, suas escolhas, suas pequenas revoltas. Você cresceu… e estou satisfeito."
Ele fez uma pausa, seu sorriso retornando — mais frio desta vez. "Mas não demais."
O brilho carmesim ao redor deles diminuiu, o ar vibrando com energia.
"Além daquela porta," continuou, apontando atrás de mim, "está o Espelho. E as recompensas que deixei para quem conseguir passar por ele. Você deveria estar orgulhoso, Executor. Você é o segundo a chegar tão longe."
Meu olhar voltou para Steve ou, melhor dizendo, para a coisa que estava em seu corpo como um recipiente. "E o primeiro?" perguntei baixinho.
Um sorriso leve se formou nos lábios dele, um que não parecia ser de Steve. "Morto," disse, quase casualmente. "Deve estar lá embaixo... na horda infinita."
Franzi as sobrancelhas, as palavras demorando a se encaixar na minha cabeça. "O quê?"
A cabeça de Steve inclinado levemente, aquele movimento artificial, deliberado, que me arrepios. O brilho carmesim nos olhos dele pulsou uma vez. "Sim. Ela está lá, presa pelas correntes. Igual às outras. Até os amigos que você perdeu na prova, vão permanecer aqui para sempre."
Meu coração torceu. "Quer dizer que estão presos?"
Ele deu de ombros, a expressão de sorriso desaparecendo, substituída por uma calma quase pensativa. "Talvez. Quem sabe? Você pode libertá-los um dia, se sobreviver tempo suficiente para descobrir como."
A ideia de que todos que não passaram na prova ainda estavam ali, enclausurados em algum tormento invisível, me atingiu como uma lâmina fria. Pensei nas inúmeras vítimas e silhuetas acorrentadas na vastidão escura deste reino. Seriam todos eles como eu? Guerreiros, buscadores, tolos tentando provar seu valor?
"O que são essas correntes?" perguntei finalmente.
A expressão de Steve ficou mais dura, o brilho nos olhos apagando por um momento. Quando falou, sua voz carregava um eco, como se múltiplas vozes sussurrando a mesma palavra por ele.
"Isso você terá que descobrir por si próprio."
Plana. Final.
As correntes carmesim pulsaram uma última vez, como um batimento cardíaco, e a risada voltou, baixa e distante, ecoando pelo reino enquanto os corpos lentamente ficavam imóveis, as cabeças caindo para frente como marionetes sem vida.
Por um momento, fiquei parado ali, no silêncio, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. As correntes que os seguravam começaram a se retrair, deslizando de volta para o abismo abaixo.