
Capítulo 518
Meu Talento Se Chama Gerador
[Ponto de vista de Xebec]
Pude perceber o nervosismo brilhando nos olhos dele, não importa o quanto ele tentasse esconder. Aquecida por um pequeno tremor, eu sabia tudo o que precisava saber.
Ah, como eu desejava realmente entender o que os Ferans planejavam, onde estavam movendo suas peças. Mas mesmo sem essa informação, eu tinha uma vantagem: ainda conseguia tocar o âmago desse homem.
Inclinei-me mais perto da câmera, deixando minhas escamas sobressair à luz de maneira perfeita. Minha voz abaixou, grave.
"Diga-me, Vaelix... você realmente acha que os Ferans podem ficar com tudo para eles? Vocë realmente acredita que pode escapar do nosso olhar, não é?"
Foi então que vi, no canto do olho dele, um pequeno espasmo. Ele tinha medo. Poderia esconder isso atrás de uma máscara, mas não de mim. Agora, eu tinha certeza.
Mesmo assim, manteve o tom neutro ao responder.
"O que quer dizer, Xebec? Todo mundo sabe que são vocês, Nagas, que tomam tudo. Nós só arrumamos as sobras que vocês deixam."
Escorri minha cabeça ligeiramente, concordando devagar.
"Boa resposta," eu disse. "Mas não é a que eu esperava. Você não vai escapar do meu olhar, Vaelix. Ouvi dizer que você encontrou algo. Estão te enviando para isso, não é?"
Ele bufou, tentando parecer entediado, mas a ponta em sua voz entregou-o.
"Não encontramos nada. Como disse, estou só indo fazer uma viagem para conseguir uma nova esposa para mim mesmo. Agora, se me permite, vou seguir minha jornada."
Sorri levemente, uma satisfação sorrateira surgindo nos lábios.
"Tudo bem, se é assim. Então, prometo visitar sua casa para conhecer sua sétima esposa. Diga a ela que mande meus cumprimentos."
Apipei minha mão na direção dele, dando uma ordem silenciosa à minha tripulação. Nosso navio se moveu, desviando o caminho para deixá-los passar.
O som ritmado de salto de salto ecoava atrás de mim. Nem precisei virar para saber quem era.
"Por que está deixando eles passarem?" perguntou minha assistente, Riya.
"Foi uma ordem," respondi, meus olhos sempre fixos na tela enquanto a nave deles desaparecia na escuridão. A imagem sumiu e a sala de repente ficou demais silenciosa. Meus pensamentos retornaram à conversa com Xeron.
As peças tinham nome agora: os Ferans. Eles estavam envolvidos num comércio sujo na região mais remota — escravos e informações roubadas vendidas ao maior lance. Xeron não tinha ouvido isso de segunda mão. A pista tinha vindo direto de Azaleia.
Azaleia. O nome caiu em meu peito como um soco. Ela fora brilhante, perigosa, aquela que eu costumava perseguir. Todos acreditávamos que ela tinha desaparecido de vez. Estávamos enganados.
Ela tinha voltado, mas não era quem era antes. Uma mulher com postura de mestre e o olhar vazio de alguém que tinha passado pelo triturador. Seus olhos estavam mais frios, o rosto marcado pelo que os Ferans tinham feito.
Ao ouvir aquilo, minha mandíbula se fechou forte. Senti meus dedos se contorcendo, duramente, até as juntas doerem. Tudo dentro de mim se concentrou numa única ideia. Não era mais uma questão de política — era algo pessoal.
"Vamos fazer eles pagarem," eu disse, baixo e firme. As palavras eram uma promessa que eu pretendia cumprir.
"Conecte-me ao Xeron," ordenei.
A tela piscou. Um cômodo cinza apareceu na transmissão, vazio no começo. Esperei. O zumbido da nave e o clique suave dos controles preencheram o silêncio.
Finalmente, uma figura atravessou o quadro. Uma mulher curvada entrou cambaleando, com o cabelo caindo como cortina sobre o rosto. Ela apoiava-se numa bengala e se movia como alguém puxado de um túmulo. Um som úmido saiu de sua garganta. Quando virou a cabeça, uma linha de saliva escapou de um canto da boca.
Quase recuei. Era uma visão errada, barata e feia de um jeito que me provocava calafrios na pele. Uma raiva ardente se acendeu, cortante.
"O que há de errado com você, Xeron? Com suas disfarces idiotas? Pelo amor de Deus, pelo menos use um decente," advoguei de forma mais dura do que pretendia.
Uma risada áspera respondeu, enquanto a mulher via a boca com a mão. Era a risada de Xeron — rouca, cheia de dentes quebrados.
"Você não gostou desse, né? Tinha servido melhor se eu fosse uma tola com um traseiro grande e seios maiores. Vocês, homens, são todos iguais, perseguindo corpos, sem nunca ver a alma."
"Você também é homem, seu idiota. Pode tentar um disfarce normal, uma vez na vida?" cortei.
"É normal," ele disse.
"Não é. Sua pele está tão enrugada que eu posso vomitar minhas entranhas," afirmei. Meu rosto devia ter demonstrado. Mesmo na transmissão, o nojo era claro.
Ele riu novamente, molhado e idiota. Já tinha dado o suficiente. "Corte o vídeo. Só o áudio." A tela ficou preta.
"Vi Vaelix e seu grupo passarem pela fronteira. Seguem para a região remota, como pensamos. Devo seguir?" perguntei.
"Não. Não vale a pena perder tempo," respondeu instantaneamente.
"Mas eles encontraram algo lá?" mantenho o tom controlado.
"Talvez," falou ele. "Mas não importa. Encontramos algo mais importante."
"O que vocês encontraram?" perguntei.
"Azaleia," respondeu. "A Matriarca diz que ela... pode cruzar o patamar."
As palavras caíram como um golpe inesperado. Por um instante, não me movi.
Depois, ri, o som rompendo a tensão.
"Se for verdade," falei, mais para mim do que para ele, "vou invadir as linhas de frente só para celebrar." A imagem de Azaleia viva e poderosa queimava fria e luminosa atrás dos meus olhos.
"Tudo bem, tudo bem, acalme-se. Tenho uma tarefa para você," disse a voz de Xeron pelo alto-falante.
A tela preta piscou, e uma imagem encheu a transmissão.
Um menino estava no centro do quadro, descalço e só de calças. O cabelo bagunçado, peitoral nu, salvo por uma tatuagem estranha que parecia engrenagem. Olhos verdes brilhavam na câmera, com um olhar selvagem e faminto. Uma aura intensa parecia escapar dele, perigosa e crua.
"Quem é ele?" perguntei.
"Azaleia pediu que, se algum dia víssemos ou ouvíssemos algo sobre essa criança, o trouxéssemos até ela," respondeu Xeron.
Minha expressão deve ter caído. O ar parecia mais frio. "Por quê?" perguntei.
"Ela chamou ele de o homem mais talentoso que já viu," disse Xeron. Sua entonação era neutra, mas havia algo como um sorrisinho por trás dela.