Meu Talento Se Chama Gerador

Capítulo 483

Meu Talento Se Chama Gerador

Respirei fundo lentamente, tentando recuperar o controle das minhas emoções. Deixei escapar uma tossida constrangedora e cocei a nuca.

— Ah, desculpe. Não sei exatamente o que aconteceu… De repente fiquei muito irritado. —

Saturno tossiu, sangue escorrendo de sua boca. Seu corpo inteiro estava coberto de hematomas, ossos dobrados de forma errada, e a luz que antes brilhava ao seu redor tinha desaparecido completamente. Ele não parecia nada com um grande mestre, nada com um imperador de um mundo. Parecia pequeno, despedaçado, humano.

— Por quê está fazendo isso? — ele perguntou, com a voz fraca.

Olhei para ele, um sorriso discreto surgindo nos lábios. — Eu te disse, sou de Vaythos. Somos inimigos, não somos? —

Ele baixou o olhar, mas eu não parei. Adei para perto, com as mãos nos bolsos, e deixei minha sombra cruzar seu corpo ajoelhado. As respirações dele eram curtas e pesadas, cada uma parecendo doer.

— De qualquer forma — continuei, inclinando a cabeça levemente — tenho uma pergunta para você.

Deixei o silêncio pairar por um instante antes de falar novamente.

— Ouvi falar de algo chamado núcleo do mundo. Pode me passar os detalhes? Você vê, o imperador de Vaythos não quer me contar nada. Mas, se você contar… talvez eu te deixe ir —

Saturno levantou a cabeça lentamente, os olhos bastante opacos, mas ainda tentando segurar alguma força. Ele me encarou, procurando alguma coisa no meu rosto.

Considerei que as engrenagens estavam girando dentro dele, através do olhar.

Ele demorou um pouco antes de responder, cada palavra saindo com dificuldade, como se fosse um esforço.

— Um Núcleo do Mundo é o coração de qualquer mundo — disse finalmente. — É uma coisa semi-consciente, nascida de Essence condensada. Com o tempo, ele desenvolve instintos, e às vezes até os primeiros vestígios de vontade… mas tudo isso está ligado a um único propósito: proteger e manter o planeta vivo. Peanu é um mundo fraco, então seu núcleo não é tão forte. A proteção que oferece é limitada, na melhor das hipóteses. —

Franzi a testa ao ouvir aquilo. — Então por que esconder os detalhes de todo mundo? Procurei até na Biblioteca Real de Vaythos e não encontrei nada. —

Os olhos de Saturno se arregalaram só um pouco antes de uma risada escapulir de seus lábios machucados.

— Então… você é ligado à família real Rayleigh, afinal de contas. Isso explica. Eles nunca vão te contar. Uma turma de loucos mesmo. Se importam demais com o Núcleo do Mundo para deixar seus segredos escaparem —

Inclinei-me mais perto, curioso apesar de mim mesmo. Ele tossiu e continuou, com a voz áspera, mas finalmente mais firme.

— Veja… um Núcleo do Mundo é naturalmente voraz. Seu instinto é crescer. Mas ele não consegue captar a Essence livre que flui pelo cosmos. Essa energia é selvagem demais, crua demais. Em vez disso, precisa de Essence refinada — cultivada, moldada ou voluntariamente oferecida. É por isso que civilizações constroem rituais, entram em guerras ou fazem sacrifícios ao redor dele. Alimentam seu Núcleo de qualquer jeito que puderem —

Sorriu de forma amarga.

— Os Rayleighs são piores ainda. Quando seus grandes mestres estão quase no fim da vida, eles não simplesmente desaparecem. Eles voluntariamente entram no Núcleo, despejam sua Essence nele e morrem nesse processo. Essa é a devoção da família deles. —

— Uau — murmurei, balançando a cabeça. — Não esperava por isso. —

Parei por um momento, refletindo. Então, um Núcleo do Mundo era… o quê? Um peso morto, de certo modo. Não conseguia nem absorver Essence por si só. Para ficar mais forte, dependia inteiramente de outros.

Olhei de volta para ele, ficando mais sério agora.

— Então me diga uma coisa — o que um Núcleo do Mundo realmente devolve? O que faz as pessoas quererem que ele seja forte em primeiro lugar? —

Ele levantou um dedo trêmulo, como se fosse anotando os itens.

— Primeiro… defesa. Um Núcleo forte protege um planeta. Repele tempestades espaciais, sela fendas, bloqueia tudo de fora que você não quer deixar entrar. —

Ele tossiu, cuspindo sangue na terra, e continuou.

— Segundo… controle. O Núcleo está ligado às leis do seu mundo. Quanto mais forte for o Núcleo, mais forte será a ligação dele com essas leis. E o imperador ou a pessoa mais poderosa reconhecida por ele ganha uma parte dessa autoridade. É assim que governantes moldam seus mundos à sua vontade. O trono não é só política, é respaldado pelo reconhecimento do Núcleo. —

Seu tom ficou mais baixo, quase relutante.

— E terceiro… não sei se é verdade ou só lenda. Mas dizem que, se um Núcleo do Mundo se tornar forte o suficiente — muito além do que Peanu já alcançou — ele pode conceder talentos. Talentos de verdade. Dádivas inscritas nos ossos de uma linhagem, ou habilidades que desafiam a ordem natural. É por isso que algumas famílias têm um culto ao seu Núcleo. Vêem nele o único caminho para a grandeza. —

Fiquei surpreso. A ideia de conceder talento e moldar as leis de um mundo, quem não gostaria desse poder?

— Onde posso encontrar um Núcleo do Mundo? — perguntei.

Ele cuspiu entre os dentes.

Pus uma risada curta, divertida.

— Velho, aqui você não tem muita escolha. Ou me conta o que quero saber, ou eu te arrasto comigo e procuro em todo o seu mundo até achar. —

— E depois o quê? Matar você? — ele retrucou, com raiva.

— Nada disso. — Mantive a voz calma. — Alguém pediu pra eu te manter vivo. —

— Deixa eu adivinhar. É seu imperador? — ele perguntou, com o olhar fixo em mim.

— Nada disso. É outra pessoa. — Observei-o balançar a cabeça, como se esse nome fosse menos importante que a verdade.

— Certo — disse ele após um longo momento. — Posso te contar. Mas preciso que me deixe me curar primeiro. Só assim poderei concentrar-me e me conectar ao Núcleo. —

Pirei o rosto, brincando com a ideia. — Ah, é seu plano para escapar daqui? —

— É isso aí, eu sabia o que você tentava fazer — disse com uma risada. Apontei um dedo para ele e disparei um feixe fino de vitalidade. A luz o atingiu no peito e percorreu seu corpo como água morna.

As feridas fecharam-se rapidamente. Cortes se selaram, hematomas desapareceram, membros alinhados. Em segundos, ele parecia novamente como antes — respiração firme, olhos claros, peso de novo nos ombros.

Eu esperava que tentasse fugir. Só queria ver o que ele faria. Ele estava dentro do meu domínio absoluto agora. Não havia nada que pudesse fazer que eu não pudesse impedir.

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