Meu Talento Se Chama Gerador

Capítulo 442

Meu Talento Se Chama Gerador

Dante recostou na cadeira, com seu disfarce de velho frágil ainda grudado nele. Ele assobiou uma melodia enquanto se acomodava ali.

Fiquei em pé perto da janela frontal, observando as estrelas se alongar em riscas de luz, o vasto vazio nos envolvendo por completo.

"Você está incomumente quieto", murmurou Dante, mexendo algumas runas holográficas na mesa de controle. "A maioria das pessoas que transporte neste navio não consegue parar de admirá-lo."

"Eu não sou a maioria", respondi simplesmente, embora meus olhos nunca tivessem saído do rio de estrelas lá fora. "Ainda assim… vou admitir, é estranho. Não esperava embarcar numa viagem assim tão cedo."

Isso lhe arrancou um leve som de diversão. "Milagre. No começo, achei que era loucura. Não achava que me acostumaria a viajar desse jeito." Ele tocou na mesa e o navio deu uma suave pulsação de aceleração. "Mas… sobreviver faz você se adaptar a qualquer coisa."

Olhei de lado para ele. "Quer dizer quando você estava fugindo?"

Dante deu uma risadinha baixa.

"Fugindo, escondendo, lutando. Pode chamar do que quiser. Já fiz tudo isso mais vezes do que gostaria de contar." Sua voz ficou mais baixa, firme, mas carregada de memória. "Tive um encontro com um mundo por puro acaso, vale dizer. Pensei que fosse um planeta deserto. Mas, na verdade, era um lugar onde as formigas dominavam tudo."

Isso fez eu levantar uma sobrancelha. "Formigas?"

"Sim, formigas", disse Dante secamente, recostando-se com os braços cruzados.

"Não aquelas pestes que você pisa sem pensar. Essas eram tão altas quanto um homem, com uma inteligência coletiva. Tinha cidades, hierarquias, guerras com outras raças de insetos. Eu praticamente não conseguia sair sem ser notado. Aquilo podre achava que eu era uma espécie de operário deformado."

Franzi o rosto, depois dei uma risada. "E o que você fez?"

"O que poderia fazer? Fingi que era um deles, mantive a cabeça baixa e esperei uma corrente espacial abrir uma oportunidade. Quase fui arrastado para dentro de uma de suas câmaras de reprodução uma vez." Ele me olhou sério. "Você não tem ideia de quão perto estive de ser transformado em uma cobaia para reprodução."

Isso me fez rir mais forte do que queria, o som ecoando na cabine. "Você, o grande Dante, quase escravizado por formigas gigantes. Essa é uma história que vale a pena lembrar."

Ele sorriu levemente, as linhas de cansaço em seu rosto suavizando um pouco.

"Pode zombar de mim, menino. Eu sobrevivi. E é isso que importa." Seu olhar se perdeu além da janela, distante. "Depois, descobri outro mundo. Sem formigas dessa vez, só elementais. Seres puramente feitos de fogo, água, vento e terra. Nada com carne ou osso durou muito lá. Eles viam como… uma infecção."

Minha diversão desapareceu diante do peso de seu tom. "Você lutou contra eles?"

"Lutei. Escondi. Fugi. Repeti tudo isso por meio ano." Seus olhos endureceram, recordando. "Todo dia era questão de sobrevivência. Uma faísca de calor no lugar errado e um elemental de fogo rasgava o chão sob meus pés. Entrava na brisa errada, e um elemental de vento me despedaçava em pedaços. Eles não dormiam, não descansavam, não perdoavam. Tive que aprender a me tornar invisível, a mascarar cada traço de força vital. Se não…"

Ele parou, e eu quase pude ver aquilo: seu corpo pressionado contra uma rocha jagged, esperando dias intermináveis, a Essência tão suprimida que até seus batimentos pareciam silenciosos.

"Foi aí que seu domínio do espaço cresceu, não foi?" perguntei em tom baixo.

Dante assentiu. "Parte disso. O verdadeiro ponto de virada veio mais tarde. Depois que os elementais, acabei perdido em um asteróide. Não pude sair por meses. E aquele cinturão…" Ele sorriu sem humor. "Estava cheio de monstros espaciais. Gigantes que nadavam na escuridão, criaturas com corpos feitos de estrelas fraturadas, outros que viviam nas dobras entre o próprio espaço. Assustadores… mas também mestres."

Inclinei a cabeça. "Mestres?"

"Sempre que atacavam, torciam o espaço ao redor. Distorciam, dobravam, devoravam. Eu era presa, mas uma presa que aprendia." Ele levantou a mão, enrolando os dedos lentamente.

O espaço ao seu redor ondulou suavemente, como uma vibração fraca. "Estudei seus instintos. Seus movimentos. Roubei seus padrões e fiz deles os meus. Cada cicatriz que ganhei lá tornou-se uma lição. Cada luta, uma página de um livro que eu nunca poderia ler em outro lugar."

Silêncio tomou conta da cabine. Desta vez, não ri. Apenas o observei, contemplando o brilho fraco das runas do espaço dançando em seus nós, e pensando no peso que existe na simples ação de me contar tudo aquilo.

"Você viveu centenas de vidas em uma só", finalmente disse.

Ele me olhou longamente, depois sorriu cansado. "E mesmo assim, estou aqui, levando outro tolo ao perigo."

Foi então que o console do navio tocou, interrompendo qualquer resposta que eu pudesse ter. Dante piscou seu pulso e o rio de estrelas lá fora começou a se contrair. A luz se curvou, torceu-se, e então, com um estalo silencioso, estamos em outro lugar completamente diferente.

O visor encheu-se de rochas irregulares e detritos flutuantes. Asteróides giravam no escuro, colidindo suavemente entre si, alguns brilhando fracamente devido às veias minerais. Ao longe, o espaço parecia cintilar com tempestades leves de luz.

Nós passamos entre as rochas titânicas até que uma se destacou mais do que as demais, uma montanha de pedra negra com cavernas por toda parte.

Dante guiou o navio até uma grande cavidade escavada em sua superfície, um túnel grande o suficiente para engolir dez naves de guerra.

O navio estacionou em uma plataforma de pouso lisa, cortada diretamente no interior do asteroide.

O zumbido da máquina diminuiu, deixando apenas o silêncio. Olhei para a base oculta e murmurei, quase para mim mesmo: "Então é aqui que tudo começa."

Dante se levantou de seu assento, com sua aura fraca, mas firme. "Bem-vindo ao nosso lar temporário, Bilion. A partir de agora, o verdadeiro trabalho começa."

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