Meu Talento Se Chama Gerador

Capítulo 399

Meu Talento Se Chama Gerador

Estávamos de volta ao escritório particular do Imperador. O sussurro suave da chaleira preenchia o silêncio entre nós, o vapor se desenrolando sob a luz do lampião. Ele despejou o chá sem pedir, deslizando a xícara delicada em minha direção.

Ficamos assim por um tempo, bebendo. Sem falar de estratégia, sem discursos sobre destino, apenas o som tênue do tilintar das xícaras e o calor da bebida nas minhas mãos.

A batida na porta quebrou o silêncio.

"Entre", disse o Imperador.

Cassian Dorey entrou. O general de todo o Exército Imperial não precisava de apresentação, nem para mim. Tínhamos lutado lado a lado com os Holt na capital. Eu o via despachar uma dúzia de inimigos com movimentos tão pesados e precisos que pareciam assistir a uma avalanche em movimento.

O homem parecia igual de sempre, velho, sim, mas no mesmo modo que uma montanha é antiga. Construiu-se do zero, todo músculo sob o uniforme, sua presença pressionando a sala como uma gravidade extra.

"Vossa Majestade", ele disse com uma rápida reverência antes de lançar um olhar para mim. "Ironhart."

"General Cassian", saudei, recostando-me um pouco.

Um pequeno sorriso se formou em seus lábios enquanto ele se sentava do lado oposto. O Imperador despejou chá nele sem dizer uma palavra. Cassian levantou a xícara, bebeu e expirou como se o calor tivesse chegado até os ossos.

"Progresso?" perguntou o Imperador.

Cassian colocou a xícara na mesa e apoiou seus braços robustos sobre ela.

"Silêncio, por enquanto. Nossa mobilização está sob o disfarce de exercícios rotineiros. O público pensa que estamos apenas rotacionando regimentos. Quando os Peanu perceberem o que está acontecendo, teremos metade do exército no lugar."

"Ótimo", disse o Imperador.

Ouvi enquanto eles conversavam, detalhes sobre deslocamento de tropas, linhas de abastecimento disfarçadas de remessas humanitárias, o timing do primeiro golpe. Não era conversa fiada. Cada palavra era planejada e calculada.

Quando o chá acabou, Cassian se levantou. "Devemos ir. O tempo está passando."

Eu também me levantei, fazendo uma reverência para o Imperador. "Até a próxima."

A caminhada pelos corredores do palácio foi inicialmente silenciosa, os pisos de mármore brilhando sob as luzes altas. As botas de Cassian eram pesadas, cada passo uma lembrança da presença imponente do homem. Quando chegamos aos portões exteriores, ele finalmente quebrou o silêncio.

"Você fez um bom trabalho, Ironhart. A guerra contra os Holt, sem você, poderia ter terminado de forma diferente."

"Equipe unida", respondi.

"Talvez. Mas seu potencial…" Ele balançou a cabeça lentamente. "Isso me assusta. Estou há mais tempo em campos de batalha do que você vive. Já vi homens crescerem rápido demais. A maioria queima rápido. Você é diferente. Tenho orgulho de ter você ao meu lado."

Não soube como responder, então continuei caminhando.

Cassian deu um olhar de relance para mim. "Por isso estou te levando a algum lugar. Você tem essa missão pela frente. Zonas perigosas, aberrações — aquelas que destroem cidades se ficarem soltas. Eu vou te acompanhar por tudo isso."

"Obrigado pela ajuda", disse.

"Sou seu seguro. Se aparecer um de nível Grande Mestre, eu mato antes que ele te toque. Mas não podemos perder tempo. Você precisa agir rápido, eliminar tudo que puder. Sem hesitar."

Da forma que falou, não deixou margem para discussão.

Quando chegamos ao quartel-general militar, o céu já estava se preparando para o fim da tarde. Passamos pela segurança, sendo cumprimentados pelos guardas que mal piscavam ao nos ver.

Cassian me levou direto ao centro de teletransporte. O operador na cabine nem perguntou o destino. Cassian apenas gritou: "Continente Ocidental, fortaleza militar", e a plataforma se acendeu.

Pisamos na luz. Uma tontura breve se aproveitou no meu estômago, a sensação estranha de queda nos meus ouvidos, e então—


Estávamos de pé sob um céu mais brilhante. O ar aqui era mais agudo, com o leve aroma metálico de armas. Fileiras de alojamentos de concreto e campos de treinamento se espalhavam ao nosso redor, soldados praticando em rotações apertadas. A bandeira imperial tremulava acima.

No começo, ninguém notou. Então um soldado perto do portão parou no meio do passo. Seus olhos me prenderam, arregalaram-se, e a boca se abriu.

"General Cassian!"

"Comandante Ironhart!"

As cabeças se viraram. As palavras se espalharam pela base como uma corrente. Em segundos, estávamos cercados, uniformes de várias tonalidades, botas batendo contra a terra compactada enquanto homens e mulheres se aproximavam.

"Senhor, é uma honra!" um deles disparou, endireitando-se como se estivesse em inspeção.

"Ouvi dizer o que você fez na capital — caramba, você é real", disse outro, com os olhos bem abertos, como se ainda duvidasse que eu não fosse algum mito envolto em carne.

"Você derrotou os Holt como se fossem nada!" acrescentou um terceiro, numa mistura de admiração e incredulidade.

Eles não estavam lá na guerra. Tudo que tinham eram rumores — histórias passadas de boca em boca nos acampamentos e tavernas, crescendo a cada relato. Uma versão provavelmente dizia que eu derrubei a fortaleza Holt com um só golpe. Outra poderia imaginar que eu atravessei fogo, ileso.

Mas agora, em frente a eles, eu via como esses feitos tinham se enraizado. Alguns me olhavam como se estivessem na presença de uma arma viva. Outros, como se estivessem diante do homem que faz o impossível acontecer.

Não os corrigi. Não adiantava. Soldados precisavam de lendas, algo em quem acreditar quando as ordens eram suicídio e o ar cheirava a sangue. Se eles quisessem acreditar que eu tinha enfrentado o exército Holt de mãos nuas… talvez essa crença os sustentasse nas próprias batalhas.

Cassian observava à margem da multidão, com os braços cruzados, sem dizer uma palavra. Mas percebi um leve sorriso ghostando sob sua expressão severa.

"Certo", disse ele após um momento, sua voz pesada como um tiro. "Podem olhar tudo depois. Agora, temos trabalho a fazer."

Os soldados recuaram, dando espaço relutantemente, mas seus olhos nunca me deixaram. Sentia o peso disso — não a pressão de expectativas, mas o lembrete do que o Imperador havia dito antes. A vida é frágil. Esses homens e mulheres estavam me olhando como se eu pudesse protegê-la, como se eu pudesse ficar entre eles e a ameaça que se aproxima.

Passei por entre as fileiras dos soldados, os uniformes reluzentes refletindo a luz, e parei ao lado de Cassian.

"Já dei ordens ao comandante desta base", disse Cassian, com a voz calma mas firme. "Eles estarão em alerta máximo enquanto você estiver caçando. Vamos nos encontrar com ele."

Fiz um pequeno gesto de cabeça em concordância.

Caminhamos juntos rumo à sala central, os passos ecoando no piso de pedra. Cassian nem se deu ao trabalho de bater, abriu a porta e entrou.

Um homem de meia-idade, com um moicano curto, sentava-se a uma mesa empilhada com papéis organizados com cuidado. Quando seus olhos encontraram os de Cassian, ele se levantou de repente, arrastando a cadeira no chão. Ficou de pé, em postura militar, e saudou com a mão.

"General."

"Como você está, Leo? Espero que tenha recebido minhas ordens?" perguntou Cassian.

Leo relaxou um pouco os ombros ao responder. "Sim, General. Recebi tudo e estamos completamente preparados."

Cassian assentiu, então se voltou para mim. "Ótimo. Deixe-me apresentar-lhe o comandante Ironhart."

Leo olhou para mim, e seus olhos se arregalaram como se não tivesse acreditado no nome até agora.

Reservei um momento para avaliá-lo.

[Leo Jordan – Nível 196]

"Comandante Ironhart", disse, com uma nota de respeito genuíno na voz. "É uma honra conhecê-lo."

Devolvi o sorriso e fiz uma leve reverência. "Obrigado pelo serviço, Senhor Leo."

Ele riu suavemente. "Lamento não estar na capital na guerra. Mas agora… vou finalmente vê-lo em ação pessoalmente."

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