
Capítulo 400
Meu Talento Se Chama Gerador
Cassian colocou as mãos nas costas e olhou para Leo.
"Faça o relatório," ele ordenou. "Tudo que ele precisa saber sobre as aberrações deste setor."
Leo assentiu com a cabeça, caminhando até um console fixado na parede. Ele digitou uma sequência no painel, e, em poucos momentos, um grande holograma de um mapa apareceu cintilando acima da mesa. Um leve brilho azul tomou conta da sala, projetando sombras agudas no rosto de Cassian.
"Isso," começou Leo, com voz calma e precisa, "é o setor de defesa oeste do Continente Ocidental. Nossa base fica aqui." Ele apontou para uma marca brilhante no centro do mapa. "Daqui, realizamos patrulhas e caças em três zonas distintas de aberrações — designadas Alfa, Beta e Gama."
Ele fez um zoom, e cada zona expandiu-se em detalhes sobrepostos.
"A Alfa é a zona de menor ameaça, mas não se deixe enganar pelo nome. Está dividida em cinco camadas. A primeira começa com aberrações de nível mortal, pouco mais que animais deformados pela Tinta da Lei, mas quanto mais fundo você for, mais perigosas elas ficam. Na quinta camada, você vai enfrentar inimigos fortes o suficiente para rivalizar com mestres de nível mais baixo."
Ele mudou a visão. "A Zona Beta é menor, mas muito mais perigosa. Apenas duas camadas, sem escalada gradual. A primeira começa onde a terceira da Alfa termina. A segunda… aí a coisa fica séria. Mesmo nossas equipes de caça mais experientes raramente entram sem reforço."
O holograma virou novamente, e o terreno passou a exibir detalhes sombrios, com manchas vermelhas vibrantes em destaque.
"Zona Gama," disse Leo com ar sombrio. "A ameaça de nível mais alto. Também duas camadas. A primeira já é bastante brutal. A segunda… é o lar de aberrações de nível mestrão. Se você entrar lá sem preparação, não volta."
Fiquei com os olhos fixos no mapa, memorizando o terreno enquanto ele falava.
Leo continuou: "Alfa e Beta são onde passamos a maior parte do tempo, controlando suas populações para aliviar a pressão sobre a base. Mas às vezes… as coisas escapam."
Olhei para ele. "De Gama?"
Ele confirmou com a cabeça. "Às vezes, os habitantes de Gama avançam para Beta, ou até mesmo para Alfa. E quando isso acontece, tudo muda. Eles não apenas caçam a gente, eles mobilizam os menores. Se não tomarmos cuidado, vai ser uma horda invadindo nossas muralhas."
O mapa girou lentamente, destacando detalhes do terreno. Áreas densas de verde representavam florestas. Massa acinzentada e irregular sinalizava montanhas. Linhas finas de prata traçavam dois rios serpenteantes.
"O terreno é principalmente floresta e cadeias de montanhas," explicou Leo. "Bastante denso para esconder ninhos inteiros. Dois rios atravessam as zonas, com correntes perigosas, ainda piores dentro d’água. Temos aberrações aquáticas que podem puxar um homem para baixo em segundos. Você não consegue lutar contra o que não enxerga debaixo d'água."
Estudei com atenção os rios. "Níveis?"
"O mais alto registrado foi 279," respondeu Leo sem hesitar. "Alguns entre 200 e 250. Mas a maioria que você vai encontrar estará entre 150 e 200."
Assenti lentamente. "Não é impossível."
"Não é impossível," concordou Leo. "Mas não pode vacilar aqui."
Cassian avançou, encerrando a apresentação com um aceno breve. "Chega de papo. Vamos começar pela Alfa."
Leo desligou o holograma, e o brilho na sala desapareceu. O ar ficou mais escuro sem ele.
Trocamos despedidas.
"Comandante Ironhart," disse Leo, apertando minha mão com firmeza, "estou ansioso para ouvir suas histórias quando voltar."
"Tomara que eu traga mais do que histórias," respondi com um sorriso discreto.
Então, Cassian e eu deixamos o edifício central, entrando ao ar livre.
Cassian parou e olhou para mim. "Vamos lá."
Ele deu um passo à frente, e então o mundo pareceu mudar enquanto ele alçava voo, sua estrutura gigante voando com uma naturalidade impressionante.
Alonguei os ombros, depois destranquei minhas asas rubras. O calor familiar tomou conta das minhas costas enquanto as penas se acendiam, refletindo a luz com um brilho vermelho-sangue profundo. Com um único batimento, levantei voo, acompanhando sua altitude.
A base encolheu rapidamente abaixo de nós, edifícios e quadras de treino se misturando com a borda da floresta.
A voz de Cassian se propagou facilmente pelo vento. "A Zona Alfa começa logo além daquela serra." Ele apontou para uma linha irregular de montanhas que se erguiam como dentes contra o horizonte. "Entraremos na primeira camada e avançaremos para o interior. Seja rápido, ataque mais rápido ainda. Não temos tempo a perder."
O ar ficou mais rarefeito enquanto subíamos, e o mundo abaixo virou um mosaico em constante mudança de verdes e marrons. Logo, a serra ficou para trás, revelando o começo da Zona Alfa.
Era uma extensão vasta — florestas que se estendiam por quilômetros, rios cintilando como serpentes de prata pelos vales, e, aqui e ali, clareiras que pareciam desproporcionalmente vazias.
Pousamos na linha invisível que marca o limite entre o território patrulhado pela base e o meio selvagem. O ar aqui era mais pesado, com um leve cheiro fétido de aberrações.
Fechei os olhos e expandi minha percepção para fora.
O mundo se abriu na minha mente, três camadas completas de Alfa se revelando com uma nitidez impressionante. E elas estavam infestadas de aberrações.
Formas se mexiam no mato, algumas do tamanho de lobos, outras do tamanho de casas. As asas batiam no canopy acima. Algo enorme se movia lentamente nas profundezas do rio.
Uma dúzia de instintos predatórios se aproximaram da minha consciência — alguns curiosos, outros hostis, alguns simplesmente esperando o momento certo para atacar.
Abri os olhos. "Está cheio."
A boca de Cassian se contorceu numa expressão quase de sorriso. "Bom. Assim não precisaremos procurar."
Ele virou o olhar afiado para mim. "Não duvido da sua força… mas me diga, você será capaz de lidar com tantos?"
Parei por alguns segundos, deixando o peso da pergunta pairar entre nós. Então, lentamente, sorri.
"Eu não estou sozinho, General."
Procurei dentro de mim, sentindo o ritmo familiar do meu núcleo. Na próxima inspiração, liberei tudo.
Uma onda de névoa vermelha saiu do meu coração, girando em ondas espessas até preencher o ar ao meu redor — à minha frente, atrás, à esquerda e à direita.
Cassian recuou instinctivamente.
O som de grandes asas cortou a névoa enquanto Silver emergia atrás de mim, penas brilhando como luz da lua afiada.
Um rosnado profundo veio logo depois, Knight surgiu ao meu lado, olhos como brasas.
E então a névoa se enroscou à minha frente, torcendo-se, condensando-se até Lyrate aparecer, imponente e serena, flutuando com facilidade, como se o chão fosse irrelevante.
Encarei os olhos de Cassian, minha voz firme.
"Sou um exército."