
Capítulo 294
Meu Talento Se Chama Gerador
Ao atravessar o portal, senti como se estivesse escorregando por um túnel feito de luz e pressão girando ao redor. Não havia chão, nem céu—apenas movimento. Em um piscar de olhos, não estava mais no reino.
Estava lá no alto do céu, cercado por nuvens e luz da lua.
Antes mesmo de cair, asas surgiram nas minhas costas com uma familiar energia pulsante. Estabilizei-me no ar e respirei fundo.
Minha percepção se expandiu instintivamente, espalhando-se como uma onda de pensamento pelo cenário ao meu redor. Observei tudo—terra, vento, movimento, Essência.
"Ah. Um deserto."
"Onde diabos estou agora?" murmurei.
Não senti nenhuma presença por perto—nenhum humano, nenhuma Abominação, nada se movendo além da própria areia.
Pensei nas possíveis regiões na minha cabeça. Havia dezenas de zonas desérticas no planeta, talvez mais. Algumas conhecidas por atividade de Abominações, outras por isolamento ou áreas de teste.
Fiz um gesto de ombros. Não valia a pena pensar demais.
"Bom... vamos apontar para uma direção."
Com um bater de asas, comecei a voar—alto, devagar e de forma constante.
Passaram-se alguns minutos até que de repente lembrei de algo importante.
Olhei para o anel de armazenamento no dedo, mergulhei a mão e puxei o colar. Assim que o coloquei ao redor do pescoço, um peso familiar voltou ao meu peito, trazendo também um pouco de conforto.
Continuei voando, escaneando o terreno enquanto o deserto se estendia sem fim sob mim. Nada além de dunas e rochas... até que, finalmente, algo chamou minha atenção.
Um posto militar.
Reducei a velocidade e desci um pouco, o suficiente para ter uma visão melhor. Não era grande, mas era firme, com cerca de 200 soldados dentro.
Fiquei pairando ali por um momento, esfregando o queixo enquanto pensava.
Devo parar e fazer perguntas? Ou continuar andando e procurar por uma cidade de verdade?
Encarei com mais atenção, observando do alto, permanecendo imóvel, com as asas abertas.
A noite já estava instalada, cobrindo tudo com tons de azul e sombras. O posto tinha luzes fracas, mas a atividade era suficiente para atrair meu olhar.
Alguns soldados estavam reunidos perto de uma área de descanso, comendo e conversando casualmente. Outros caminhavam em pequenos grupos, trocando brincadeiras ou rindo baixinho. Nas muralhas, algumas patrulhas se moviam em ritmo lento, treinado, mantendo vigilância sem pressa.
No escritório principal, um homem que parecia ser o comandante estava atolado em papelada, com os olhos fixos em uma tela brilhante. Pela sua aura calma e pelo jeito com que os outros evitavam incomodá-lo, dava pra perceber que era a pessoa mais forte do local.
Mesmo assim, nada parecia perigoso ou urgente.
Puxei ar e sacudi a cabeça.
"Hoje não. Vamos direto pra uma cidade."
Pousar lá traria muitas perguntas. Talvez até demais. De onde eu vim? Por que estou voando? Quem sou eu? Não estava no clima de ficar explicando pra um bando de oficiais curiosos.
Mas antes de partir, concentrei minha percepção e fiz uma varredura no posto inteiro, traçando cuidadosamente cada sinal, marca e rótulo que encontrasse.
E lá estava—gravado em uma caixa de suprimentos e impresso na tela de um log digital.
Continente Ocidental.
A maior cidade mais próxima? Caltech.
"Valeu pela informação, rapazes."
Sorrindo para mim mesmo, virei e segui na direção da cidade, minhas asas cortando silenciosamente o ar frio do deserto.
Quando ganhei altitude novamente, relaxei. As nuvens se moviam lentamente abaixo de mim, e as estrelas brilhavam acima como pedras preciosas espalhadas pelo céu. O vento tocava suavemente minha pele e, pela primeira vez, não tinha pressão nenhuma. Sem luta, sem ordens, só liberdade.
Um sorriso discreto surgiu nos meus lábios enquanto eu seguia em frente, numa velocidade menor agora. Não tinha pressa. Apenas voava... tranquilo, constante, cercado pelo céu noturno.
Decidi passar uma hora ou mais na cidade—andar por aí, ouvir o que se dizia, e ver que notícias tinham se espalhado enquanto eu ficava fora. Depois, entraria em contato com o Edgar ou o Arkas, dependendo do que encontrasse.
Olhei para os dois idiotas que carregava—Bruno e Grey, ainda inconscientes e completamente alheios ao quão sortudos eles eram por ainda estarem vivos. Com um suspiro, convidei Silver à minha mente.
A névoa carmesim saiu do meu peito, formando a silhueta do monstro gigante. Silver berrou levemente ao se formar sob mim. Pousei levemente em suas costas e joguei os dois sobre ele como se fossem sacos de lixo.
"Ei, Silver," eu falei, acomodando-me. "O que você acha da gente comer?"
Ele berrou de volta, respondendo pela nossa conexão mental.
Fiquei surpreso. Minha expressão se abriu em espanto.
"Ué—você realmente respondeu desta vez? Isso é novo."
Mas então cruzei os braços, franzindo a testa.
"Que diabo é aquilo? Nem sei que tipo de animal é esse."
Silver repetiu o nome mentalmente, mas eu ainda não fazia ideia. Parecia uma besta de algum mito antigo.
"Beleza, vou te propor uma coisa. Vou pegar qualquer coisa aleatória, e se você gostar, pode comer."
Ele berrou novamente, parecendo nervoso de mais, mas não pude evitar rir. Ainda não entendia como um ser feito de névoa carmesim conseguia comer, mas decidi deixar esse mistério pra depois.
Inclinei-me para trás, descansando as mãos atrás da cabeça, olhando para o céu estrelado. O murmúrio suave do vento e o voo tranquilo de Silver me consolavam quase como uma meditação. Por alguns minutos, relaxei meus pensamentos.
Até que Silver me avisou que via uma cidade à frente.
Sentei-me, alonguei-me e rolei os ombros.
"Ok, Silver. Você fica aqui com os dois. Vigie eles. Não vou demorar."
Ele concordou com um teste, e desceu em direção ao chão do deserto, pousando a uma boa distância da borda da cidade. Assim que começou a descer, consegui impulso, levantei voo e segui em direção ao centro urbano.
O lugar era enorme—muros altos cercavam tudo, soldados patrulhavam o perímetro e luzes brilhantes iluminavam as ruas internas. Estava vivo de movimento e barulho, mesmo tarde da noite.
Subi ainda mais no céu, pairando sobre o centro da cidade. Então, dobrei as asas levemente e deixei-me cair.
Quando me aproximei da linha de patrulha, bati forte as asas. Minha velocidade aumentou instantaneamente. Num piscar, passei por eles e voeis em direção a um arranha-céu perto dali. Um último bater de asas, e pousei suavemente no topo do prédio.
Sorri, satisfeito.
"Que estresse," murmurei, rindo de mim mesmo.
Dirigi-me até a borda do edifício e pulei sem hesitar. Com um único golpe de asas, desacelerei a queda e aterrissei suavemente no chão abaixo.
As ruas estavam cheias, com pessoas indo de um lado para o outro, veículos passando com buzinas e luzes piscando. A energia da cidade era barulhenta, caótica, e de um jeito estranho, reconfortante.
Olhei ao redor, com as mãos nos bolsos.
"E agora... o que devo comer?"
Passeei pelos calçadões descalço, tentando passar despercebido, mas o povo parecia que me olhava como quem não pertence a aquele lugar.
Foi aí que percebi. Ainda estava com as asas abertas.
Com um pensamento rápido, ascultei-as para trás. A névoa carmesim se fechou sobre si mesma e se sumiu de volta para dentro de mim.
"Muito melhor."
Ampliei minha percepção, deixando-a varrer toda a área. Fragmentos de conversas chegavam até mim—fofocas, discussões, negócios... e, enfim, algo que valia a pena.
Um grupo perto de mim falava animadamente sobre um restaurante. Aparentemente, era o melhor da cidade.
"Jona's Diner," disse alguém.
Era tudo o que precisava.
Segui na direção da dica e, poucos minutos depois, estava em frente ao local, observando a construção aconchegante com suas luzes quentes e janelas polidas.
"Jona's Diner," eu li em voz alta.