
Capítulo 293
Meu Talento Se Chama Gerador
Olhei nos olhos dela e falei calmamente.
"Bom trabalho lá fora. Sério. Brutal, eficaz… talvez um pouco demais."
Ela ficou me encarando, imóvel como uma estátua.
"Agora, deixa comigo a bagunça que você deixou. Mas precisamos trabalhar na sua educação — você não pode sair por aí transformando mortos em… esculturas. Criativo, sim. Aceitável? De jeito nenhum."
Ela ainda não reagiu. Mas então, pela primeira vez, ela deu um pequeno aceno de cabeça.
Minhas sobrancelhas se levantaram de surpresa, e soltei uma risada curta.
"Hum? Olha só. Você tá aprendendo rápido."
Olhei para os corpos inconscientes de Grey e Bruno, depois falei em voz alta.
"Você consegue amarrá-los com alguma coisa resistente? Quero evitar que fiquem pulando por aí como bagagem."
Lyrate inclinou levemente a cabeça, seu olhar mudando para o duo. Um instante depois, o solo tremeu sob nossos pés. Raízes negras e espessas brotaram da terra, deslizando como serpentes com propósito.
Elas se enrolaram firmemente ao redor de Grey e Bruno, levantando-os um pouco do chão enquanto envolviam seus membros e torsos. Em segundos, ambos estavam presos em camadas de raízes — cada uma do tamanho do meu antebraço.
Eu assobiei suavemente.
"Eficiente. Sinistro, mas eficiente."
Inclinei um pouco para frente, batendo com os nós dos dedos em uma das raízes. Ela não se moveu.
"Pois é… não vão sair dessa tão cedo." Me endireitei e assenti satisfeito.
Com isso, desfiz o feitiço que a dizia e a enviei de volta para o núcleo.
Assim que ela desapareceu, voltei minha atenção para os dois corpos abandonados ali perto. Dei uma respiração profunda.
"Acho que fomos longe demais."
Primeiro, agachei ao lado do Bruno e queimei seus ombros, selando cuidadosamente os ferimentos para parar o sangramento. Depois, invoquei Silver. Sem perder tempo, levantei os corpos e coloquei nas costas dele. Ele rosnou baixinho, mas não reclamou.
Enquanto atravessávamos o bosque voando, estiquei a mão e peguei os anéis de armazenamento deles. Ao checar um deles, parei. Algo chamou minha atenção… uma pequena lembrança.[1]
Parecia diferente. Tinha ondas suaves de energia espacial ao redor, quase imperceptíveis a menos que você soubesse exatamente onde olhar.
"Isso é um daqueles tokens que o Marcus falou? Aquele usado pra acessar onde eles estão escondendo os Ferans?"
Virei o token na minha mão. Era marrom, gasta, e tinha uma letra 'H' gravada na superfície.
Sorri de leve.
Não sobraram Ferans para esconder, mas se ainda carregavam esses tokens, então eles estavam escondendo algo mais.
Silver e eu continuamos, voando baixo entre as árvores. Voltamos a cada ponto onde a Lyrate tinha matado alguém. Um por um, queimei os corpos e destruí qualquer coisa que pudesse ter sobrado. Não tentei limpar tudo; só os corpos e itens óbvios.
Não queria que ficássemos com uma cena arrumadinha. Queria caos. Que eles encontrem o que sobrou e fiquem se perguntando o que realmente aconteceu. Sem cadáveres. Sem armas. Apenas perguntas.
Fiquei quieto nas costas de Silver enquanto subíamos em direção à ilha flutuante. O vento batia no meu rosto, frio e cortante, mas eu não me importei. Minha mente estava tranquila. Pela primeira vez, não havia pressa, caos… só silêncio e uma sensação de missão cumprida.
Olhei para o chão lá embaixo, a extensão das cadeias montanhosas e a base do Holt ao longe.
Entrei nesse reino como parte de um teste e uma missão. Mas agora, parecia mais o começo de algo maior.
Minha prova ainda não tinha acabado, e mesmo assim… já estava quase atingindo o limite do Grande Mestre.
A barreira que antes parecia distante agora parecia uma folha de papel finíssima.
Quando a prova acabar, tinha certeza de que estaria de pé como um Grande Mestre de verdade. E talvez—apenas talvez—eu fosse além.
O pensamento me fez sorrir.
Fiquei exalando lentamente, sentindo aquela faísca rara de excitação no peito. Aquele sentimento que surge quando o futuro não é mais um mistério, mas uma promessa.
Silver continuou voando mais alto até chegarmos à ilha flutuante. Ele pousou suavemente ali perto do castelo, as asas agitadas gentilmente ao tocar o chão.
Desci das costas dele, preparado para entrar, mas antes que pudesse dar um passo, Azalea apareceu bem na minha frente.
Ela sorriu.
"Parece que você terminou seu trabalho."
Assenti para ela, encontrando seu olhar.
Ela tinha me dito que tinha dois dias antes de desaparecer. Mas eu não tinha certeza se algo inesperado poderia me obrigar a ficar mais tempo lá na rua. Era uma chance — uma oportunidade de ouro — de atacar forte os Holt, talvez até destruir toda a casa deles. Não queria perder essa chance.
"Em que você está pensando?" ela perguntou, observando-me atentamente.
Sorri de leve.
"Nada. Só umas ideias aleatórias."
Parei por um momento, depois acrescentei:
"Então… dois dias, né?"
Ela confirmou com a cabeça.
Minhas sobrancelhas se franziram enquanto eu começava a pensar. Havia alguma chance de dar tempo de fazer tudo em apenas dois dias?
Ela soltou uma risadinha.
"Por que essa cara de preocupado? Mesmo se eu for embora, você pode trazer um Grande Mestre de fora pra segurar o Grande Mestre do Holt."
Eu encolhi os ombros.
"Sim, essa é uma opção. Mas os Grandes Mestres do Império não se mexem a menos que o Imperador mande. Não sei quais planos eles têm em andamento."
Azalea inclinou a cabeça um pouco.
"Por isso mesmo, para de pensar demais. Vai lá fora e descubra o que realmente está acontecendo."
Respirei fundo e exalei lentamente. Então assenti.
"Certo, Azalea. Mesmo que o plano ainda não esteja 100% pronto, eu vou passar aí pra te ver."
Ela me deu um sorriso suave e assentiu.
"Vou ficar de olho no reino por você."
Assenti e perguntei:
"Então, como faço pra sair daqui? E pra onde vou?"
Ela respondeu:
"Apenas conecte com o núcleo e queira. Uma portal vai se abrir pra você. Quanto ao destino… será aleatório."
"Aleatório?" repeti.
"Sim, aleatório. Mas vai te deixar em um lugar desolado. Não deve haver cidades grandes ou multidões por perto."
"Isso é bom de saber," disse.
Balancei a mão e desfiz o feitiço, enviando Silver de volta ao núcleo. Depois, peguei os dois Holt, um em cada mão, e me voltei pra Azalea.
"Até logo, Azalea."
"Você também, Bilion. Cuide-se."
Enviei minha vontade ao núcleo. A gravação na minha mão brilhou suavemente, e um portal giratório se abriu ao meu lado. Sem hesitar, atravessei.
Depois de um tempo, deixei o reino para trás.