
Capítulo 283
Meu Talento Se Chama Gerador
A visão voltou a cambalear.
Ela estava mais velha agora.
Vestida com vestes verdes escuras entrelaçadas com vinhas douradas, ela caminhava lentamente por um grande corredor esculpido de madeira viva e cristal branco.
Elfos se ajoelhavam ao longo do caminho, com a cabeça curvada, os corpos tremendo. Nenhuma palavra era dita enquanto ela passava, apenas o som dos seus passos ecoando no silêncio.
No final do corredor, portas imensas se abriram, revelando uma galeria suspensa no céu. Ela saiu, o vento tocando suas vestes enquanto olhava para a cidade lá embaixo—sua cidade.
Ela se estendia longe em todas as direções, um espetáculo de beleza e simetria élficas. Jardins flutuantes, torres altas, pontes de luz—tudo sob o suave tom dourado de um pôr-do-sol.
Então o céu se rasgou.
Uma fenda se abriu no espaço acima da cidade. Névoa-de-morte se agitava como uma ferida sangrando no mundo. Pulsava, girava—e então algo saiu de dentro dela. Um Fantasma.
Seus olhos se estreitaram.
O vento se enroscou ao redor de seus tornozelos enquanto ela lentamente se elevava ao ar. Ela levantou um braço acima da cabeça.
O espaço atrás dela se deformou, e então criou-se—verde e enorme, um dedo translúcido esculpido de essência pura. Ele pairou por um instante.
Depois, avançou em direção a ela.
Mas antes que pudesse ser revelado o resultado, a visão piscou.
E mudou.
Agora, a cidade estava em ruínas.
Torre após torre havia sido quebrada. Os jardins flutuantes haviam desaparecido—restava apenas terra queimada, rachaduras profundas na terra, e a névoa-de-morte cobrindo tudo como uma névoa sufocante.
Edifícios desmoronados em montanhas de destroços. Sangue manchava as ruas. Fogueiras ainda faiscavam.
No centro de tudo, entre os escombros de sua antiga grande sala, ela jazia destruída.
Metade do corpo sumira—queimado, rasgado, como se tivesse sido apagado da existência. O restante dela estava retorcido pela corrupção. Veias negras pareciam rachaduras através de uma carne uma vez vibrante e viva. Sua mão tremia, apenas uma vez, alcançando fracamente o céu.
Depois, ficou imóvel.
Seus olhos dourados—aqueles mesmos que antes brilhavam com calor, depois com determinação feroz—esmaeceram lentamente. Como a última luz do crepúsculo desaparecendo na noite.
E assim se encerrou a visão.
A escuridão voltou a envolver-me.
Mas não estava vazia.
Uma enxurrada de informações invadiu minha mente, uma tempestade de pensamentos, impressões, fragmentos de compreensão—e tudo estava ligado à Lei da Criação.
No começo, nem sabia onde estava. Não havia chão sob meus pés, nem céu acima de mim. Apenas uma escuridão infinita. Então, solteiro. Parei de resistir e permiti que o conhecimento chegasse. E, aos poucos, comecei a entender.
Junto com mais memórias dela, vieram insights—pedaços de conhecimento que Lyrate acumulou ao longo de sua vida longa e trágica. Seus pensamentos, suas realizações, suas verdades.
Ela começou sua jornada com uma afinidade por madeira, pela vida, pela natureza. Era ali que seu coração estava. Gentil. Vivo. Crescendo.
Mas ela não parou por aí.
Conforme sua compreensão aprofundava-se, ela foi além dessas raízes. Começou a tocar em conceitos maiores—criação em sua forma mais primal. Nascimento, transformação, evolução, a própria formação da realidade.
Na sua vida, ela alcançou o auge do nível Mestre na lei da criação.
E ainda assim… não foi o suficiente.
Ela morreu lutando contra o Fantasma. Mesmo com todo seu domínio, ela caiu. Não porque sua vontade fosse fraca—mas porque seu caminho se tornou vazio no final.
O fluxo de conhecimento extraído de sua vida—memórias, insights, o peso de sua experiência com a criação—fluiu através de mim sem pausas, e eu o absorvi tudo.
Quando finalmente terminou, fiquei imóvel.
Agora a conhecia—não apenas sua força ou domínio sobre a criação, mas a profundidade de sua tristeza, o peso de suas escolhas, a solidão que a acompanhou em cada passo.
Vi mais de sua vida do que até seus confidantes mais próximos. Parecia que tinha vivido ao lado dela—testemunhando suas vitórias silenciosas, suportando cada perda que esculpia pedaços de sua alma.
Senti o amor dela por sua irmã—inquebrável, protetora, a única família que ela tinha. Senti a fúria ao falhar em protegê-la. E, antes de morrer, seu último pensamento—gentil, quase grato—como se, por um segundo, ela acreditasse que poderia vê-la novamente.
Meus olhos se abriram lentamente.
A visão se desfez, substituída por um céu azul suave acima. Exalei devagar enquanto minha percepção se estendia para o mundo ao redor.
Estava de volta. Mas minha mente ainda não.
Ainda ecoava as lembranças de sua vida—sua força, sua queda, seu último suspiro.
Fechei os olhos, respirei fundo e me levantei.
"Fico feliz que você esteja bem."
Virei para ver Azalea flutuando a uma curta distância, com uma expressão de alívio e animação no rosto.
Porém, ao olhar para ela, não consegui impedir que a imagem de Lyrate passasse por minha mente.
Ambas haviam suportado a devastação. Ambas ficaram sozinhas à beira da ruína. Mas Azalea sobreviveu—de algum modo. Lyrate não. A alma dela nunca encontrou paz; foi retorcida, corrompida, transformada em um Fantasma.
Sorri levemente. "Sim. Quanto tempo estive desacordado?"
"Dois dias," ela respondeu.
Assenti silenciosamente, minha atenção mudando para dentro enquanto sentia as mudanças sutis no núcleo gerador.
No centro, o núcleo branco—Null Heart—flutuava quieto. Agora, orbitando ao redor dele, dois núcleos distintos giravam em rotação lenta. Um era de Silver. O outro pulsava com uma tonalidade mais escura—o recém-adquirido núcleo de Fantasma.
Uma parte de mim queria invocá-lo, ver que traço físico eu ganharia com ele. Mas segurei a curiosidade, reprimindo o desejo enquanto ouvia Azalea falar ao meu lado.
Ela prosseguiu: "Durante as noites, não houve surtos de Névoa-de-morte. Os humanos que gerenciam este reino perceberam a mudança. Estão planejando investigar hoje à noite."
Me encolhi, sentindo uma rigidez difusa. Fisicamente, estava bem, mas minha mente ainda se sentia esticada ao limite.
"Eu faria o mesmo," murmurou.
Ela apontou para os escombros flutuantes. "Vamos até o meu castelo. Ainda temos assuntos pendentes lá."
"Você tem um banho?" perguntei.
"Não," ela respondeu, sorrindo. "Mas posso criar um para você."
Sorri também. "Isso serve."
Convidei Silver. Partimos ao céu, indo direto para os escombros. Não me importava se os Holts me vissem. Não estava no clima de me importar. Seja pela visão ou por outra coisa, só queria causar alguma destruição, e os Holts estavam no topo da lista.
*****
Todos nós ficamos diante do castelo em ruínas. Dissipei Silver com um pensamento e voltei minha atenção para Azalea.
"Então… você morava aqui? Sozinha?"
Ela assentiu.
"Sim."
Houve uma pausa antes que ela falasse novamente, mais suave desta vez.
"Eu não queria que ninguém visse o quão desesperada eu estava. Eu havia falhado… e queria esconder isso. Queria que me lembrassem como uma grande guerreira Naga, não como alguém que desapareceu."
Concordei com um pequeno gesto de cabeça.
Azalea avançou, passando pelo grande arco até o interior vazio do castelo.
"Venha. Temos muito a conversar antes de eu partir. Como prometido, entregarei este reino a você—e, claro, seu banho também."
Segui-a pelo corredor principal, o som dos meus passos se perdendo no silêncio do lugar.
As paredes tinham rachaduras e marcas de queimaduras desbotadas, mas mesmo em seu estado de ruína, o local mantinha uma estranha dignidade.
Padrões régios ainda decoravam as colunas, e entalhes detalhados se estendiam pelos lados do corredor—imagens de guerreiros Naga em batalha contra Abominações, Fantasmas… e até Eternos.
Fiquei mais devagar, os olhos presos na figura de uma Naga atacando um Eterno envolto em energia dourada.
"Você já chegou a lutar contra um?" perguntei em silêncio.
Ela não respondeu imediatamente.
Então, finalmente, disse: "Sim. Uma vez. Quando ainda era uma nova Mestre."
"E?"
"Perdi," ela respondeu simplista.
"Por quê?"
Sua voz era calma.
"Ele era mais forte. Muito mais forte do que eu… e mais novo, também."
Ela não soava amarga—apenas honesta. Não havia vergonha na sua voz.