
Capítulo 251
Meu Talento Se Chama Gerador
A expressão de Lily escureceu, o orgulho na sua voz lentamente cedendo lugar a algo mais pesado.
"Mas… nenhum caminho fica livre para sempre," ela disse. "Nem mesmo o de Azalea."
Eu me inclinei um pouco para frente.
"Ela atingiu o Nível 283. Esse número a assombrava. Não importava quantas Abominações ela destruísse, nem quantos Fantasmas ela despedaçasse… ela não conseguia passar disso. A barra de progresso parou de avançar. Completamente."
Lily olhou para o chão como se estivesse observando o peso do tempo pressionar o piso de madeira.
"No começo, ela achou que era só um obstáculo temporário. Que ela iria superar se continuasse se esforçando mais. Dobrou seus treinos. Enfrentou lutas mais arriscadas. Se esforçou ao máximo, até o limite da exaustão, de novo e de novo."
"Mas nada deu certo?"
Lily balançou a cabeça. "Nada. Sua classe, essa classe incrível, poderosa, da qual ela tanto se orgulhava — virou sua prisão. Mas havia um requisito, algo que precisava ser cumprido para ela avançar de nível. E era algo que ela simplesmente não conseguia alcançar."
Furei a testa.
"Ela tentou de tudo," Lily respondeu.
"Procurou relíquias, rituais, técnicas proibidas. Mas, já passados anos. Ela não era mais jovem. Seu corpo, sua Essência, até sua vontade… tudo começava a desmoronar."
Você precisa entender — Azalea não sabia como desacelerar. Ela só sabia avançar. Isso que fazia dela grega… e o que a cegava."
Lily fez uma pausa, virou a cabeça e olhou nos meus olhos.
"E quanto mais ela ficava presa, mais desesperada se tornava. Essa desesperança foi o começo do fim. Não só para ela… mas para este reino também."
A voz de Lily abaixou enquanto ela continuava.
"Depois de anos tentando de tudo o que podia, Azalea fechou completamente o reino. Eliminou todos os visitantes e trancou os portões. Ela não queria que mais ninguém entrasse. Precisava de tempo e espaço para suas experiências."
Eu assenti, sentindo o quanto aquilo era sério.
"Ela ficou sozinha em todo o reino depois disso. Sem amigos, sem estudantes, nada além de ela mesma e seu trabalho."
Os olhos de Lily mudaram como se estivesse lembrando da vazio. "Ela começou a capturar fantasmas e abominações, enchendo todo o reino com eles. Não para lutar, mas para estudar e experimentar. Utilizava-os para aprender a se expor mais, a romper a parede daquele nível que não conseguia atravessar."
Eu podia sentir o peso daquele silêncio — o reino se transformando numa jaula.
"Assim se passaram os anos. Ela tentou de tudo. Mas então, preparou uma última experiência — sua esperança final."
Espero quieto.
"Decidiu fundir uma parte de um Fantasma consigo mesma. Uma parte que acreditava que lhe daria o poder de ultrapassar o limite de nível."
Engoli em seco.
E o único pensamento que passou pela minha cabeça foi… Azalea era insana.
Quem, em sã consciência, tocaria num Fantasma, quanto mais tentaria fundir-se com um?
Até então, eu tinha assumido que eram os Holts ou talvez os Contratantes por trás das abominações e de todas essas experiências malucas. Mas isso? Isso ia muito além de tudo que eu imaginava.
Lily continuava falando, com tom calmo, quase distante.
"Mas ela não era louca. Azalea planejou tudo até o menor detalhe. Ela não entrou sem preparação. Realizou centenas de simulações, ajustou sua pesquisa e conseguiu aumentar a porcentagem de sucesso da fusão de dez para sessenta e cinco por cento."
Sessenta e cinco. Isso era assustadoramente alto para algo que nunca deveria ter sido tentado em primeiro lugar.
"Ela até se esforçou para capturar um Fantasma único — aquele que tinha habilidades compatíveis com sua classe. Levou anos e muito esforço, mas conseguiu. Acreditava que esse era o segredo."
Lily parou de falar após isso.
Por um minuto inteiro, o hall ficou silencioso. Um silêncio que parece pressionar seus ombros.
Depois, ela continuou, em voz baixa.
"Mas sua busca não passou despercebida. Houve pessoas que começaram a suspeitar do que ela estava fazendo. E, no dia exato em que começou sua última experiência, esses indivíduos invadiram o reino."
Meus olhos se arregalaram ao ouvir isso.
"Eles não atacaram de imediato. Esperaram pacientemente, como caçadores. E, quando Azalea estava mais fraca — na metade da fusão — eles atacaram."
Mal consigo imaginar como deve ter sido essa sensação.
"Ela quase não sobreviveu. A fusão falhou. Algo deu errado durante o processo. O poder do Fantasma não se misturou corretamente com o dela."
Um peso caiu no meu peito. Não era justo. Ela tentou de tudo.
"Furiosa, ela se defendeu. Seu castelo flutuante — este lugar — foi destruído na batalha. Ela foi ferida, superada em número, mas, com raiva demais para cair quietamente. Então, ela liberou a fusão incompleta. Qualquer parte do Fantasma que ela tinha dentro… ela a libertou."
Segurei a respiração.
"Havia nove atacantes. Ela matou sete deles. Apenas dois escaparam, gravemente feridos. Mas conseguiram roubar sua pesquisa. Não tudo… só o suficiente."
Os olhos de Lily lentamente se moveram e se fixaram nos de Ana.
"Usaram a pesquisa roubada para criar um método que poderia conceder uma segunda transformação àqueles que nunca deveriam tê-la tido."
Fiquei paralisado.
Até Steve murmurou: "O quê?"
A mão de Ana foi até a boca, chocada.
Lily não vacilou. Seguiu em frente, como se fosse algo que precisávamos ouvir — gostando ou não.
"Os nove atacantes eram todos Ferans. São eles que pegaram o trabalho roubado de Azalea e transformaram na técnica que agora é famosa por toda a galáxia."
Fechei os olhos, atordoado.
O motivo pelo qual vim para esse reino amaldito… era para encontrar os Ferans. Para pedir uma transformação. E agora descubro que o método que eles oferecem — o mesmo que eu buscava — nasceu aqui… roubado de uma mulher que tentaram matar.
Por fim, Lily desviou o olhar de Ana e continuou, com a voz firme.
"Quando a batalha terminou e a poeira assentou, Azalea percebeu que seu tempo estava acabando. A parte do Fantasma dentro dela… não era estável. Começava a consumi-la por dentro."
Ela fez uma pausa por um momento, e depois prosseguiu.
"Então, ela tomou uma decisão. Uma decisão desesperada."
"Dividiu sua alma em quatro fragmentos e criou quatro chaves para manter-se selada neste reino. Foi sua última esperança — quem sabe, um dia, de algum jeito, ela pudesse aprender a controlar o Fantasma dentro dela."
O olhar de Lily se desviou levemente enquanto dizia a próxima parte.
"E, para guardar essas chaves, ela criou nós: Lily, Dália, Íris e Rosa."
O silêncio que seguiu às palavras de Lily foi pesado, denso.
Olhei fixamente para ela, lutando para processar tudo que tinha acabado de ouvir.
"Você… é uma das guardas?" perguntei, minha voz baixa, incerta.
Lily assentiu suavemente. "Sim. Uma pequena fração da alma de Azalea reside em cada uma de nós. Nosso dever é garantir que ninguém interfira na luta dela contra o Fantasma."
Olhei para Ana e Steve.
Ana tinha os lábios entreabertos, os olhos arregalados de incredulidade. "Então vocês não são apenas uma marionete… vocês realmente… fazem parte dela?"
Steve piscou rápido, esfregando a nuca, como se tivesse levado um choque forte.
"Espera… pera aí. Azalea fez quatro guardas para se prender… e você é um deles. Isso quer dizer que Dahlia é outra?"
Lily confirmou com um leve som de concordância. "Sim. Dahlia guarda uma das chaves."
Mas algo mais insistia na minha cabeça, e eu fiz a pergunta que não me soltava:
"Se Azalea conseguiu trancar as partes do Fantasma… então por que tem Deathmist nesse ilha flutuante? E na floresta lá embaixo?"
A cabeça de Lily abaixou levemente, com expressão carregada de tristeza.
"Porque os dois fragmentos da alma dela, que eram guardados por Íris e Rosa… foram derrotados. O Fantasma os consumiu ambos — e, depois, consumiu Íris e Rosa também. E com isso, ele ficou muito mais forte."
A Dália desceu até lá embaixo para parar o Deathmist e eu fiquei aqui, confinando uma parte dele na ilha."