
Capítulo 212
Meu Talento Se Chama Gerador
A cintilação vermelha subiu até minha testa como uma onda de fogo sem calor.
Não tive nem tempo de cambalear.
O mundo desapareceu.
E outro tomou o seu lugar.
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Vento. Céu sem fim. Montanhas que atravessavam as nuvens como lanças ancestrais.
Eu surfei.
Mas não era eu — nem de verdade.
Era ele.
O Falcão de Aço Prateado.
Orgulhoso e poderoso. As asas cortavam o céu com facilidade. As penas pareciam prata sob o sol. O vento não estava só ao redor dele — movia-se junto com ele, como um amigo. Ele não apenas voava pelo ar. Controlava-o.
Abaixo, seus territórios de caça se estendiam por quilômetros. Manadas de criaturas se movimentavam como rios, sem perceber que estavam sendo observadas. Mas ele não matava. Ainda não. Não havia fome em seu voo, apenas liberdade. Alegria. Consciência.
Senti tudo. Todas as emoções que o falcão estava sentindo.
A emoção de estar em movimento. O pulso da magia pelos músculos. A paz da solidão nas alturas.
Ele era inteligente. Não humano, mas consciente. Vivo. Orgulhoso.
E então algo aconteceu.
Uma ondulação, como um som sem som de sino se rompeu, e uma mancha rasgou as nuvens. Uma linha vermelha, deixando fogo e memória para trás.
O falcão grasnou, girando no ar. Eu podia sentir a mudança em seus instintos — o que fora serenidade virou terror.
A mancha atingiu.
A dor floresceu.
Uma colisão de Essência, vontade e pensamento.
Não era só físico.
Algo entrou nele.
Outra mente. Outra alma.
****
O mundo mudou de novo.
Escuridão. Gritos.
Agora eu era o falcão — não mais apenas observando. Preso.
Senti uma segunda consciência pressionar contra a minha, torcendo, arranhando, exigindo domínio. Uma voz que não falava com palavras — mas com força. Fria. Dominadora. Desesperada.
Eu lutei.
O falcão lutou.
Não sei quanto tempo durou. Talvez segundos. Talvez séculos.
As asas agitavam-se desesperadamente. A mente se despedaçava e se reformava. Senti pensamentos se desfiando como penas numa tempestade.
E então — desfecho.
O Falcão de Aço Prateado emitiu um último grito. Um uivo de desafio, ecoado no silêncio.
Ele foi vencido.
Senti sua consciência desabar como uma estrela se compactando sobre si mesma. O que restou foi acorrentado, puxado para baixo, moldado à força.
Mas mesmo enquanto a alma do falcão era atada, vi a memória do intruso surgir, atravessando as fissuras daquela união violenta.
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Um céu diferente.
Não azul.
Amarelo.
E abaixo — uma cidade feita de túneis. Pedra escavada, colunas escavadas. Luzes tênues e bioluminescentes. Criaturas se movimentavam, bípede, mas com jeito de inseto.
E ele estava entre elas.
A alma que se impôs ao falcão.
Ele era jovem. Magro. A pele cinza, segmentada, com uma armadura leve nos braços e tórax. Antenas se mexiam suavemente sobre sua cabeça, lendo o ar como dedos.
Ele não era um monstro.
Era só uma pessoa.
Um menino num mundo estruturado.
Ele caminhava pelos túneis com outros como ele — alguns maiores, outros mais velhos, todos com um propósito. Viviam por uma ordem rígida, como formigas. Ele não falava, mas os pensamentos passavam entre eles por mudanças sutis nas antenas e pulsações psíquicas leves.
Ele ria — embora fosse silêncio. Senti sua alegria ao compartilhar comida com um pequeno grupo de irmãos. Vi o olhar que tinha para um mentor, um soldado enorme, com casca negra reluzente e orgulho silencioso.
Ele queria crescer.
Provar seu valor.
E quando a oportunidade surgiu, quando a guerra lá em cima alcançou seus túneis, ele se ofereceu.
A memória ficou turva.
Ele estava correndo.
Então... escuridão. Dor. Um golpe agudo.
Nem viu o que o matou.
Num instante, ele estava vivo — com os pés batendo no chão do túnel de sua colônia, o coração acelerado, os pulmões ardendo. No próximo, tudo estava frio. Vazio. Silêncio.
Depois veio a puxada.
De volta ao céu.
O corpo do falcão, ainda convulsionando de dor. Agora maior. Distorcido. As penas mais opacas. Os olhos errados.
A alma do menino inseto se impôs dentro dele.
E gritou.
Não de vitória.
De agonia.
A fusão não foi limpa. Não total. As almas não se uniram tranquilamente, lutaram enquanto se fundiam.
A alma do menino foi corrompida, os únicos pensamentos em sua mente eram fome e destruição.
E o que saiu foi algo quebrado. Rasgado. Mutado.
Senti o horror do menino ao seu corpo se distorcer. Quando as asas se estenderam de maneiras que não pareciam certas. Quando o bico e a garra responderam não como ferramentas — mas como armas de dor. Ele tentou voar, recuperar a alegria que uma vez sentiu.
Não conseguiu.
O céu o rejeitou.
Os instintos do falcão se desencadearam toda vez que seus pensamentos surgiam. E o menino, por sua vez, torcia esses instintos com sua Essência, até que o falcão fosse pouco mais que uma marionete, e ele, um prisioneiro atrás de seus olhos.
A corrupção não nasceu, foi forjada.
Ambas as almas, fundidas, reduzidas a destroços.
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Senti tudo.
A dor do Falcão de Aço Prateado, cuja última lembrança foi o céu.
A desesperação do menino inseto, que só queria sobreviver.
E a dor que ambos compartilharam ao se tornarem algo que nenhum reconhecia.
A memória piscou.
E acabou.
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Eu respirei fundo e dei um passo cambaleante, caindo de joelhos na floresta.
A última cintilação vermelha desapareceu da minha visão.
Acima de mim, os galhos balançavam. O Falcão de Aço Prateado tinha desaparecido. Assim como o gelo.
Somente o leve crepitar da Essência se dissipando persistia.
Mas no meu peito, senti o núcleo — vermelho, orbitando o Coração Nulo branco. A corrente etérea brilhava fracamente, pulsando com um peso que eu agora entendia.
A memória veio de ambos — do falcão e da alma que tomou seu corpo. Tive as mãos cerradas, mandíbula apertada. Uma coisa era saber que os Eternals estavam corrompendo almas e forçando-as a virar bestas… outra era viver isso? Sentir isso? Isso era algo completamente diferente.
Olhei para o céu e soltei um rugido, cru e trêmulo.
"AAHHHHHHHHHHH."
O pânico do falcão. A confusão do menino inseto. A dor deles enquanto suas almas colidiam e se desfiavam. Senti tudo isso.
Ainda conseguia perceber a mente do falcão se partir, seus instintos dominados, seu espírito esmagado. Podia sentir a alma do menino se torcendo, as últimas peças de sua identidade se dissolvendo em algo monstruoso.
Minhas unhas cravaram nas palmas das mãos enquanto tentava estabilizar minha respiração. A memória voltava novamente, e eu me forcava a suportá-la. A compreendê-la.
Não era só corrupção. Não era só controle.
Isto era apagamento.
E o que mais me assustava… era pensar que meus pais poderiam ter passado pela mesma tortura. Que suas almas poderiam ter sido dilaceradas e fundidas em bestas assim — despidas de identidade, afogadas na agonia.
Respirei fundo e forcei meu pulso a diminuir. Minhas mãos ainda tremiam, mas eu não deixaria que elas me controlassem.
A raiva fervia no meu peito, quente e constante. Meu ódio pelos Eternals se aprofundava, esculpindo uma nova camada na minha determinação.
Pus uma mão sobre o meu coração.
"Venha", murmurei.