
Capítulo 174
Meu Talento Se Chama Gerador
Como muitas pessoas, eu já tinha imaginado várias vezes voltar no tempo, revisitar memórias, reviver bons momentos, talvez até consertar alguns arrependimentos.
Mas imaginar era uma coisa. Viver de verdade... era completamente diferente.
Aquelas enormes olhos verdes que eu vi na escuridão não eram de um monstro nem de um estranho.
Eram do meu pai.
E antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, me encontrei nos braços dele—enxuto, leve e quentinho. De algum modo, tinha caído em uma das minhas lembranças de infância.
Olhei para as minhas mãos, pequenas e rechonchudas. Mal conseguia fazer um punho decente. Minhas pernas balançavam no ar. Devia ter uns dois anos, talvez menos.
O mundo ao meu redor era mais claro, mais suave. Ao mesmo tempo que era familiar, parecia distante. Reconhecia as cores das paredes, o cheiro do cômodo. A casa onde eu tinha morado quando criança. Meu lar.
Meu pai olhou para mim, seus olhos verdes piscando lentamente antes de um sorriso largo surgir no rosto dele. Ele apertou delicadamente meu nariz e, com a voz cheia de orgulho, disse:
"Billion, me diga—seu pai é um homem forte?"
Com uma voz infantil, respondi sem vacilar: "Sim."
Ele riu, alto e cheio de vida.
"Sim! Seu pai é o mais forte! E você também será forte, igual a mim. Mas ainda não entendo por que sua mãe não valoriza seu pai forte."
Inclinei a cabeça para ele, confuso. Minha versão criança não entendia o que ele quis dizer. Mas a minha versão mais velha, enterrada lá dentro, sabia.
Meu pai era alguém que buscava força, impulsivo, teimoso, sempre querendo poder. Gostava de fogo. Barulhento, energético e apaixonado por tudo o que fazia.
Minha mãe, por outro lado, era calma e fria, segundo a vovó. Gostava de silêncio. Paz. Ordem.
Eles nunca concordaram quando se tratava de me criar. Minha mãe queria um filho educado, gentil. Meu pai? Queria um brutamontes selvagem, cheio de fogo, que enfrentasse a vida de punhos fechados.
Ele ajustou sua pegada em mim e começou a caminhar em direção à porta da frente.
Eu observei tudo ao meu redor—a casa, os móveis, a forma como a luz do sol tocava o chão de tábuas.
Então a porta se abriu, e saímos para o jardim da frente.
Meus olhos caíram na parte de trás de uma mulher sentada no meio do jardim. Seu cabelo longo fluía atrás dela, balançando suavemente com a brisa.
Ela estava concentrada, completamente absorvida no que fazia, esboçando algo em uma grande tela que se estendia diante dela.
O som de nossos passos deve ter chegado até ela, porque ela se virou. Assim que seus olhos me encontraram, um sorriso caloroso iluminou seu rosto.
Não consegui me controlar. Estendi meus bracinhos pequenos na direção dela e gritei: "Mamãe!"
Ela colocou de lado os pincéis sem hesitar e se levantou, com os braços já estendidos em minha direção.
"Meu bebê," ela disse rindo, "por que você acordou tão cedo hoje?"
Não respondi, apenas sorri de volta.
Ela se aproximou e me tirou delicadamente dos braços do meu pai, levantando-me como se eu fosse leve como uma pena. Seus lábios tocaram minha bochecha, e depois ela encostou o rosto no meu. O toque dela era suave, a calor dela, familiar.
Depois, ela se recostou e falou: "Venha, deixe a mamãe te mostrar o que vem desenhando."
Enquanto ainda me segurava, ela virou e levou a direção do cavalete.
À medida que nos aproximávamos, consegui ver claramente.
O esboço era de um menino, talvez com uns seis ou sete anos. Tinha cabelo comprido, olhos verdes e um sorriso brincalhão. Suas mãos estavam casualmente enfiadas nos bolsos. O menino parecia confiante, feliz.
Ela olhou novamente para mim e disse: "Você sabe quem é isso? É você quando crescer e ficar um rapaz bonito."
Olhei para o desenho. Não entendia completamente, mas reconhecia os olhos verdes. Percebi o sorriso, que combinava com aquele que os outros sempre diziam que eu tinha.
Meu pai se aproximou ao nosso lado e esfregou o queixo pensativamente.
"Talvez você devesse dar a ele uma arma. Um martelo grande numa mão. E tirar a camisa, deixar o peito à mostra. Ficaria ainda melhor."
Minha mãe bufou, meio divertida, meio irritada. "Você pode desenhar isso sozinho. Não estrague minha pintura do nosso bonito gentlemanzinho."
Gargalhei de novo, segura nos braços dela.
Por um momento, tudo estava calmo e lindo.
Então um trovão rasgou o céu, quebrando a paz como um grito.
O céu ficou vermelho—completamente vermelho—como se alguém tivesse colocado fogo nele. Outro estrondo seguiu, mais alto e profundo, rolando pelas nuvens. Ecoou repetidas vezes, até parecer que o próprio mundo estava segurando a respiração.
Os braços da minha mãe se apertaram ao meu redor. Senti o peito dela se elevar enquanto ela ergueu a cabeça para olhar para o céu. Meu pai deu um passo à frente, se colocou na nossa frente, protegendo a gente sem uma palavra.
Então, das nuvens vermelhas, uma figura começou a descer. Outro trovão ribombou enquanto ela aparecia, alta, pálida, calma.
Naquela época, eu não sabia quem era. Meus olhinhos de bebê não conseguiam entender.
Mas o eu que assiste agora... eu sabia exatamente quem era.
Senhora Vermelha.
A mesma mulher que me enviou para essa lembrança.
Ela desceu lentamente, ainda vestindo o mesmo vestido de flores que tinha visto antes. Em uma mão, ela segurava uma maçã vermelha. Ela deu uma mordida enquanto aterrissava alguns passos na frente dos meus pais.
Seus olhos pretos fixaram-se na minha forma minúscula, ainda aconchegada nos braços da minha mãe.
"Então esses são seus pais," ela disse, sorrindo. "Posso ver de onde você herdou essa beleza."
Meu pai imediatamente se colocou na nossa frente, bloqueando sua visão de mim.
Sua voz era calma, mas fria. "Quem é você?"
Ela balançou a mão de lado, sorrindo. "Só uma visitante, passeando. Fazendo um pouco de trabalho. Mas não me importaria se você me presenteasse com seu bebê."
Ouvi meu pai responder sem hesitar.
"Está maluca, mulher?"
Ela riu, alegre.
"Talvez."
Foi suficiente.
No instante seguinte, meu pai desapareceu de onde estava. O vento uivou ao seu redor enquanto ele se movia, e um estrondo alto rasgou o ar. Seu punho atingiu o peito dela numa velocidade impressionante.
Estrondo.
O corpo dela explodiu. Uma chuva de sangue caiu pelo jardim, e não sobraram nada além de gotas dispersas.
Minha mãe balançou a cabeça.
"Você pelo menos podia ter ouvido ela."
Meu pai não respondeu. Só ficou olhando para o sangue, imóvel e tenso.
"Ela invadiu," ele disse com a voz plana. "Propriedade privada."
Minhas vistas focaram nas costas dele. A energia emanava dele em ondas. Era quase difícil de respirar perto dele.
Minha mãe falou novamente, numa voz mais suave.
"Você está assustando o Billion—"
Mas ela não terminou.
As gotas de sangue dispersas tremeram, depois se juntaram. Reconstituíram-se—ossos, carne, pele.
Senhora Vermelha apareceu novamente, escovando o pó do vestido.
"Você é um homem tão grosseiro, Sr. Pai," ela disse alegremente. "Apenas vim me apresentar."
Não consegui ver o rosto do meu pai, mas o ar ficou pesado, tão pesado que as árvores pararam de balançar e os pássaros silenciaram.
Então, mais uma explosão.
Estrondo.
A terra ao redor dele rachou, deformada pelo poder dele. O chão se elevou sob a Senhora Vermelha, agarrando suas pernas, seu corpo, seu pescoço—tudo, exceto o rosto dela.
A terra se cristalizou, prendendo-a no lugar.
Ela riu.
"Ahhh, você é forte. Não é?"
Meu pai juntou as mãos. O cristal ao redor dela se comprimiu, apertando até parecer sua própria pele. As pernas dela afundaram no chão, enterradas até os joelhos.
Depois, ele levantou um dedo.
E sua cabeça explodiu.
O mundo voltou ao silêncio.
O sangue escorreu pela prisão de diamante. Mas nem isso durou.
O sangue se reuniu, reconstituiu—e o rosto dela voltou, sorrindo.
Ela estalou o pescoço para os lados, depois olhou direto nos meus olhos.
"Agora é minha vez," ela sussurrou.
Meu coração caiu.
Minha versão bebê assistia curiosa, sem perceber o perigo. Mas eu sabia. Eu sabia que uma coisa terrível ia acontecer. Era só uma lembrança. Aqui, ela é imortal. Minha família não é.
De repente, o corpo do meu pai congelou.
Ele flutuou para cima, braços abertos.
Então, boom.
Um raio caiu do céu, atingindo-o diretamente. Seu corpo explodiu em chuva.
Ouvi minha mãe gritar, sua voz rasgando o jardim.
"Nãããão!"
Ela ergueu uma mão em direção à Senhora Vermelha, e o espaço próprio se abriu. Uma rajada de energia cortou o ar e acertou a cabeça de Red, despedaçando-a.
Mas minha mãe não parou para assistir.
Ela me abraçou forte contra o peito e pulou por cima do muro do jardim.
Porém, minha mente ficou presa lá atrás—toda em choque ao ver o corpo do meu pai explodindo em pedaços.
Eu queria gritar. Queria chorar, berrar, implorar.
Mas nenhum som saiu.
A boca abriu e fechou de forma desesperada, como se estivesse se afogando em silêncio.
Minha mãe correu com uma velocidade assustadora, com os braços apertados ao redor de mim enquanto corríamos pela rua. O vento uivava forte, mas ela não parou—até não haver mais escolha.
Em frente, bloqueando nosso caminho, estava a Senhora Vermelha.