
Capítulo 173
Meu Talento Se Chama Gerador
Treinamos sem parar por cinco, talvez seis horas. A intensidade nunca diminuiu.
Steve não estava sangrando, mas eu tinha deixado a maior parte do corpo dele vermelha de tanto impacto. As lâminas de vento deixavam marcas — mesmo que não cortassem, picavam pra caramba. Mas ele não se queixava. Só continuava tentando.
Ele estava evoluindo. Devagar, sim, mas definitivamente evoluindo. Agora, ele conseguia desviar de duas ou três lâminas seguidas, se eu mantivesse o timing firme. Depois disso, o corpo dele ficava um pouco atrasado em relação ao movimento. Mesmo assim, era um progresso real.
Finalmente, fizemos uma pausa. Só nos sentamos encostados na parede gelada, respirando em silêncio.
Então senti isso.
Alguém estava chegando. Quatro pessoas, desta vez. Seus passos eram silenciosos, mas minha percepção captou facilmente. Me apoiei em Steve e sussurrei, "Eles estão de volta."
Levantamos e ficamos prontos.
Os passos vieram e pararam do lado de fora da nossa cela, e nosso anfitrião voltou a caminhar pra dentro — o Rei. Desta vez, ele não estava sozinho. Dois daqueles capangas de antes o acompanharam, e com eles veio uma mulher alta.
Todos eles usavam aquelas gafas ridículas.
O Rei começou a bater palmas assim que entrou. "Ora, ora, olhem só. Vocês estão indo muito bem."
Dei uma risadinha. "Claro. Seus pequenos escravos não têm força suficiente pra nos derrotar."
Ele pigarreou e sorriu: "Vou anotando isso. Feedback sempre bem-vindo."
Depois, ele fez um gesto para a mulher. "Agora, trouxe um presente para vocês. Conheçam a Senhorita Vermelha."
Eu não olhei pra ela, mas minha percepção travou nela instantaneamente.
Ela tinha quase dois metros de altura, parecida com uma torre. Pele pálida, olhos negros, cabelo curto que chegava até o pescoço. Vestia um vestido bem colorido, como se estivesse de férias, e tinha um sorriso selvagem estampado no rosto, como uma criança prestes a brincar com seus brinquedos.
O Rei sorriu mais ainda.
"A Senhorita Vermelha aqui tem uma habilidade muito especial. É bem conhecida no território de Holt. Até o Império tem ela na lista dos mais procurados."
E então ele riu.
"Consegue acreditar? O seu Império a baniram, ao invés de usá-la. Que piada."
Ele virou-se para ela.
"Senhorita Vermelha, esses são os que mencionei. Dê a eles... digamos, um tratamento completo de um dia?"
A mulher riu, voz suave mas distorcida.
"Um dia inteiro? Isso vai custar mais, garoto."
O Rei assentiu, orgulhoso.
"Claro. Eu pago mais que isso pra você."
A mulher sorriu com uma expressão de aprovação. "Então, por favor, vá em frente."
O Rei deu uma risadinha, claramente se divertindo, e virou-se para seus dois homens. "Comecem."
Ambos avançaram, olhos fixos em nós, e, num piscar de olhos, a tortura recomeçou.
Continuei ativando o [Motor de Essência], concentrado em absorver o máximo de força possível. Cada soco, cada chute—meu corpo recebia tudo, mas minha essência puxava a energia por trás de cada golpe.
Quando usavam vento contra mim, absorvia a força.
Quando me jogavam na parede, absorvia o impacto.
Não bloqueava. Não resistia.
Deixava acontecer, entregando-me à dor para estudá-la.
Minha mente entrava em uma espécie de zona — calma, focada. Minha Psinocepção se intensificava, e entrava num estado quase de transe.
O tempo desacelerava. Eu observava a força sendo criada nos corpos deles, sentia a energia fluir por mim e desaparecer nos canais escavados em meu núcleo.
Não lutava. Ficava lá, absorvendo tudo.
Eles perceberam, claro. Minha falta de reação só fazia eles atacarem com mais ferocidade. Os golpes ficaram mais violentos. Ouvi ossos estalarem. Meus músculos rasgarem. Sangue escorrendo livremente.
Mas eu não parava.
Porque algo estava acontecendo.
Quanto mais eu resistia, mais entendia. Sentia uma mudança — algo profundo. Como se uma porta estivesse se abrindo dentro de mim. Uma porta para algo muito maior que a dor.
Um mundo de energia e força.
Um mundo de pura criação e destruição.
Vi um deles dobrar a perna levemente.
Naquele momento, percebi: a energia se acumulando nos músculos dele, condensando, girando pelo corpo como fogo líquido. Então ele se moveu. Rápido. Girou, e a energia que tinha se acumulado explodiu pelo corpo, toda canalizada numa única chute que atingiu meu peito.
bum.
O mundo ao meu redor desapareceu.
Na minha percepção, tudo virou branco, cegante, um branco infinito. Flutuava ali, leve como uma pluma, cercado de silêncio e luz.
Senti que, se conseguisse estender a mão, tocar aquele branco, ganharia algo... algo poderoso. Algo importante.
Mas não tive a chance.
A transe quebrou.
Meu corpo bateu na parede com um baque desagradável, depois escorregou até o chão, mole e destruído.
Mas mesmo ao tocar o chão, eu estava sorrindo.
sangue escorria pelos lábios, mas não conseguia impedir o sorriso que se formava no meu rosto. Aproveitei cada segundo do que tinha passado.
Honestamente, mal percebi a dor. Minha mente estava em outro lugar — bem além desta cela.
O Rei bateu palmas, lentamente e com teatralidade.
"Excelente trabalho. Espero que tenha ficado satisfeito, Bilhão."
Não respondi.
Ele virou-se para a mulher alta ao lado dele.
"Agora é sua vez, Senhorita Vermelha. Lembre-se, um dia completo."
Ela apenas assentiu com a cabeça e, de forma casual, perguntou: "Quem vai primeiro?"
O Rei apontou direto para mim. "Esse aqui."
A Senhorita Vermelha deu um passo adiante com uma graça lenta, quase preguiçosa. Então, ela se ajoelhou na minha frente, com os olhos fixos nos meus enquanto eu ainda tentava recuperar o fôlego, encostado na parede.
Ela se inclinou e sorriu.
"Nada pessoal, garoto. Todos temos nossas paixões. E essa é uma delas."
Não entendia o que ela queria dizer. O tom dela era calmo, quase amistoso, mas algo na presença dela tornava o ar mais pesado.
Ela continuou.
"Vou fazer algo bem simples. Vou fazer você reviver boas lembranças... coisas que te deixam feliz. Você vai gostar, eu pego minha recompensa, e ambos seguimos nossos caminhos. Tudo limpo e tranquilo."
Meu coração pulou uma batida.
Ela ia ler minhas memórias?
Isso não podia ser real. Nenhuma habilidade assim tinha sido confirmada — nem mesmo como rumor. Mas, mesmo assim... era possível.
Meus pensamentos aceleraram.
Se ela descobrisse do que eu era capaz, se notasse minha habilidade, tudo acabaria. Não haveria mais esconder. Não sairia vivo daqui.
Tentei pensar em uma saída. Uma medida de defesa. Algum jeito de resistir. Mas, antes que podesse imaginar algo, a voz dela interrompeu meu pânico.
"Tudo bem," ela sussurrou suavemente, "vou começar."
Ela ergueu a mão direita e, calmamente, colocou-a sobre minha cabeça.
Esperei alguns segundos. Nada aconteceu.
Mas a mulher manteve aquele sorriso estranho no rosto, calmo e inquietante.
Então, de repente, um choque agudo atravessou meu cérebro.
A minha percepção, que até então cobria tudo ao redor em modo tranquilo, ficou completamente escura num instante. Como se alguém tivesse puxado uma cortina sobre meus sentidos.
Porém, tão rápido quanto a escuridão chegou, ela começou a se retirar — puxada por algo muito mais forte do que eu.
Dois enormes círculos verdes se abriram na escuridão diante de mim, brilhando com uma luz sobrenatural.
Franzi os olhos, tentando entender o que via.
Então percebi.
Não eram apenas círculos.
Era olhos.
Dois olhos esmeralda, do tamanho de um planeta, me encarando de além da escuridão.