
Capítulo 153
Meu Talento Se Chama Gerador
O silêncio que seguiu as palavras de Arkas era pesado.
Ninguém se mexeu. Ninguém falou.
Alguns soldados cochicharam incredulidade. Vi Dio encarando o chão em branco. As mãos de Logan estavam cerradas, com os nós dos dedos brancos. Sarah, pela primeira vez, não deixou uma piada sarcástica. Steve ficava me olhando, esperando que eu dissesse alguma coisa. Mas eu não consegui.
Porque minha mente estava fixa em um nome.
Bruno Harold.
O comandante da Unidade 77. Um Grande Mestre.
Um único ataque. Um Único Fantasma. E tudo pelo que havíamos trabalhado foi apagado como se nunca tivesse existido.
Qual era o sentido de todo aquele treinamento, de todo esforço e luta, se podíamos ser eliminados tão facilmente? Era isso que nos aguardava, no final das contas?
Olhei para Arkas.
A voz dele era calma, mas havia algo em seus olhos. Raiva talvez. Ou culpa. Ou ambos. Ele tinha visto isso antes. Provavelmente já sabia que aquilo viria. E mesmo assim, aqui estávamos, ouvindo como uma surpresa cruel.
Exalando lentamente, percebi o quão frágeis éramos. Uma manhã ruim... e você vira apenas uma marca na história de alguém.
Senti algo se mexer no meu peito.
Determinação.
Se eu fosse morrer, não seria silenciosamente. E não seria de graça.
Se o mundo quisesse me destruir, teria que tentar muito mais.
Meus olhos encontraram os de Arkas, e dei minha resposta.
"Comandante, não sei se vou um dia ficar forte o suficiente para quebrar essa prisão. Mas prometo uma coisa — vou ficar forte o bastante para vingar a Unidade 77. É aí que começo."
Arkas, cujo rosto permaneceu sério o tempo todo, finalmente sorriu.
"Vingança é boa. Dá um propósito. Deixe a chama da vingança queimar dentro de você. Muitos de vocês perderam familiares. Não ter sequer coragem de buscar justiça por eles... isso é covardia."
Arkas respirou fundo e falou, com voz clara e forte.
"Tudo bem. Por causa da interferência de Billion Ironhart, seu ataque terminou prematuramente. Então, vamos partir para uma nova missão, desta vez, no Continente Leste."
Assim que ouvi isso, meus olhos se estreitaram. Instintivamente, estendi minha percepção e a fixei em King Holt, que estava em silêncio ao lado. Varri-o com o olhar.
Nível 24.
Isso foi uma surpresa. Ele costumava estar entre os dez melhores. Agora, ficara para trás, abaixo de alguns soldados que, no primeiro mês, não tinham níveis tão altos. Fiquei curioso para saber o que tinha acontecido com ele.
Arkas continuou falando.
"A região que vamos é fria. O ambiente é duro. Vocês vão ganhar experiência atuando em condições extremas, o que vai torná-los lutadores melhores."
Quase ri de mim mesmo. Era só Arkas tentando dar um toque grandioso à coisa. Ainda aqui no Continente Central, já existem lugares frios e difíceis. Ele claramente tentava empolgar a galera.
Depois, acrescentou:
"Dessa vez, vamos em grupos de vinte. Primeiro, os vinte melhores. Depois, o restante. O seu cronograma será entregue pela Vice-Comandante June."
Percebi que alguns olharam para mim ao ouvir "os vinte melhores". Não tinha dúvida de que eu estaria no primeiro grupo.
De repente, ouvi a voz de Arkas na minha orelha.
'Billion, estou te dando três dias para mexer com o Rei. Caso contrário, vamos precisar te dropar mais perto da base deles, e isso parecerá muito mais suspeito. Não volte a vacilar agora.'
Minha testa se franziu. Não era covardia. É que... eu nunca tinha atuado como vilão antes.
Respirei lentamente, tentando me acalmar. Se fosse passar na missão, precisava de reforços, ou pelo menos alguém para trocar ideias. E Steve já estava mergulhado nessa confusão comigo. Então, decidi conversar com ele assim que voltássemos à base.
Arkas falou mais um pouco, principalmente sobre como lutaríamos, o que deu certo, o que não deu. Depois, fomos dispensados e retornamos ao quartel.
Fui direto para o meu quarto, tomei banho, troquei por uma roupa confortável. Uma hoodie macia e um jogger, muito melhor do que o uniforme rígido da academia. Assim que terminei, caminhei até o quarto do Steve.
Para minha surpresa, ele já estava descansado. Cheguei até a esperar que estivesse deitado na cama, como um defunto, se recuperando da missão com snacks numa mão e reclamando na outra.
Sorri.
"Pois é... parece que a influência militar finalmente está fazendo bem pra você."
Ele fechou a porta atrás de mim e se jogou no sofá, exausto.
"Não foi a military," ele disse. "Foi o Arkas."
Levantei uma sobrancelha. "Como assim?"
Ele respirou fundo, encostou a cabeça no encosto e resumiu:
"Ele me submeteu a um tipo de treinamento diferente. Me quebrou. Cheguei a desistir uma hora dessas. Foi aí que percebi: eu também tenho ego. Nem sabia que tinha, na verdade. E ele odiava a ideia de falhar."
Ri baixinho.
"Tô só feliz que você saiu mais forte. Se tivesse desmoronado, minha relação com Arkas teria ido ladeira abaixo rapidinho."
Steve olhou pro teto, suspirou longo e pesado.
"Não é fácil pra ele também, sabe. Aquele cara carrega um peso enorme. Eu sentia isso."
Depois de falar sobre a Unidade 77... não sei, fiquei com uma sensação estranha de que, de algum jeito, aquilo também era minha culpa. Imagine só o que ele deve estar sentindo, depois de ver uma porção de 'Unidades 77' ao longo dos anos."
Fiquei quieto por um tempo. Não tinha realmente refletido sobre as coisas pelo ponto de vista dele. Na verdade, acho que não queria. Esse peso todo... esmagaria a maioria das pessoas.
Então mudei de assunto.
"Enfim," disse, "você entende o que está acontecendo com essa nova missão no Continente Leste, né? É só uma cortina de fumaça. Nós somos isca."
O rosto de Steve ficou sério. Ele assentiu devagar.
"Sim. Tudo isso é só uma estratégia pra nos fazerem capturar pelos Holts."
"Exatamente," concordei. "E, se não fizermos parecer convincente o suficiente, Arkas falou que vai simplesmente nos jogar bem na frente da base deles. Então… precisamos descobrir como fazer o King morder a isca durante a missão."
Steve olhou pra mim, sério como nunca.
"Você percebe que, se a gente irritar ele e acabar sendo capturado, eles não vão nos receber com uma cesta de frutas. Vai ser tortura. Inferno mesmo."
Sorri de leve.
"Sei. Mas tava pensando... deve ter maneiras mais fáceis de fazer isso, sem deixar o King de mal comigo."
Tenho uma sensação estranha… que Arkas e até o Edgar querem que a gente faça assim. Como se eles escondessem alguma coisa."
Steve coçou a barba, pensando.
"Agora que você falou,… realmente parece muito deliberado. Você acha que isso tem a ver com o King especificamente?"
Desviei os ombros.
"Não sei. As chances são baixas, mas não zero. De qualquer forma, tem mais coisa por trás das cenas do que nos contaram."
"Enfim," continuei, "já vencemos ele umas duas vezes, mas talvez não seja suficiente. O que mais podemos fazer?"
Steve coçou a cabeça, franzindo o testa.
"Já humilhamos ele na frente de todo mundo, então essa parte já foi. Não sei... a gente o derrota de novo? Ou, sei lá, o exibe nu por aí?"
Imediatamente, fiz cara de não concordar.
"De jeito nenhum. Nada de ficar pelado. E se ele fizer o mesmo com a gente quando nos captura? Isso não."'
Parei pra pensar.
"Hmm... talvez a gente o capture em troca. Bata nele um pouco. Insulte a família dele. Se ele for tão importante entre os Holts, isso deve bastar pra tirar uma reação dele."
Steve me olhou preocupado.
"Cara, essa história toda não me agrada nada. Fico pensando… o que impede eles de nos matar na hora, quando nos pegarem?"
Dei de ombros.
"Tenho certeza que o Arkas vai nos explicar antes de colocarem a gente na linha de fogo."
Ele respirou fundo também.
Eu fiz o mesmo.
E, como bons soldados responsáveis, pedimos comida para tirar a cabeça desse troço todo, desse teatro de vilão e tortura. Concordamos que, naquela noite, colocaríamos o plano em ação.