
Capítulo 148
Meu Talento Se Chama Gerador
Sentei-me dentro do que costumava ser a sala de missões da Unidade 77.
Era a única estrutura ainda de pé. Arkas tinha me contado que o comandante da unidade fez sua última resistência ali, segurando o inimigo tempo suficiente para que nove soldados escapassem pelo posto de teletransporte.
Eu lembrei dos corpos que vi. Da destruição. Soltei uma longa inspiração.
Essa era a realidade do nosso mundo. Apesar de todas as precauções que o Império tomava, ataques ainda aconteciam—implacáveis e brutais. E momentos como esse, em que o inimigo conseguiu atacar tão fundo no coração do Império, me lembravam o quão frágeis eram nossas condições.
Ouvi passos atrás de mim. Levantei-me e me virei.
Minha avó entrou, vestida com o uniforme. Podia sentir a tensão estampada em seu rosto, o cansaço nos olhos.
Mas quando seus olhos encontraram os meus, um sorriso surgiu nos lábios dela.
Já fazia mais de dois meses desde a última vez que a tinha visto.
Avancei um passo e a abracei.
"Vovó, senti sua falta."
Ela deu uma leve tapinha na minha cabeça.
"Também senti sua falta, querida."
Ela recuou e me observou de cima a baixo.
"Olha você... Quase na sua segunda evolução," ela disse, com uma voz calorosa. "Está tudo bem? Precisa de ajuda com alguma coisa?"
Eu sorri de lado.
"Não. Nenhuma ajuda necessária. E sei que você não ajudaria mesmo."
Ela balançou a cabeça, sorrindo com um quê de conhecimento, e foi se Sentar atrás da única mesa que ainda resistia na sala.
Eu me sentei em frente a ela.
Seu semblante voltou ao tom sério, firme, que eu conhecia tão bem.
"O que aconteceu aqui, vovó?" perguntei. "Como eles conseguiram atacar tão fundo no Império?"
Ela soltou um suspiro antes de responder.
"Ainda estamos investigando, então não posso dizer muito," disse. "Mas temos uma hipótese sobre por que esse pelotão foi alvo. Um de nossos... comandantes importantes está atualmente em uma missão crítica fora do Império. O neto dele foi designado aqui, um soldado de prova, como você."
Ficou pensativo. "Então o ataque foi direcionado ao comandante? Por meio do neto dele?"
Ela assentiu solenemente. "É isso que acreditamos. O objetivo talvez fosse matar ou capturar o garoto, para forçar o comandante a abandonar a missão."
Resopseu-me a tentar entender. "Mas por que ir tão longe? Por que usar uma criança como isca?"
Seu rosto endureceu.
"Porque esse comandante e o neto dele... são os últimos da família. Quem planejou isso provavelmente sabia disso. E sabia exatamente o que isso causaria a ele se o menino morresse enquanto ele estivesse fora, defendendo o Império."
"Então... conseguiram?" perguntei. "Pegaram o dele?"
"Não," ela respondeu. "Ele está vivo. Um dos nove que conseguiram escapar."
Senti uma inspiração que não tinha percebido que vinha prendendo.
Ela continuou, a voz mais fria agora.
"E é por isso que acreditamos que foi um trabalho interno. Quase ninguém sabia que ele existia, muito menos que tinha sido designado aqui. Só precisamos descobrir quem vazou essa informação. Assim que descobrirmos, tudo mais começará a fazer sentido."
Assenti lentamente, depois perguntei: "E os que morreram?"
Ela soltou um suspiro pesado.
"Informamos às famílias deles. Além disso... pouco mais podemos fazer. Exceto garantir que isso nunca aconteça novamente e prender o Fantasma responsável."
Fiquei olhando para a mesa, pensando em como tudo poderia ter sido evitado. Uma equipe inteira, quase completamente dizimada. Uma raiva silenciosa crescia no meu peito.
Toda vez que ouvia sobre mortes ou via de perto, isso me puxava de volta à lembrança dos meus pais. Toda a unidade deles também tinha sido perdida. Ninguém voltou daquela missão.
Minha avó nunca me contou os detalhes.
Na verdade, essa conversa nunca tinha rolado. Eu evitava perguntar. Não queria saber. Se fosse algo cruel, torturante, eu não tinha certeza se aguentaria.
Mas agora… eu queria saber. Para onde eles foram? Por que morreram? O que o Império fez em resposta? Ou será que foram simplesmente esquecidos?
Olhei para ela, pronto para finalmente perguntar, mas ela foi quem falou primeiro.
"Arkas me contou que você vai fazer uma missão secreta."
Eu pisquei, surpreendido. Mas fazia sentido. Quem ele queria compartilhar isso era a decisão dele, afinal.
"Você conhece os detalhes?" perguntei.
Ela assentiu.
"A maior parte. Ele veio até mim antes mesmo de contar a você, pediu minha permissão."
Isso me deixou ainda mais surpreendido.
"Ele fez? Eu nunca imaginei que o comandante Arkas fosse do tipo de pessoa que pede licença. Sempre achei que fosse mais do tipo 'faz, depois pede desculpas'."
Ela soltou uma risada suave.
"Ah, você conhece bem. Mas essa missão não é comum. Nenhum soldado de prova já foi designado para algo assim. Há muitas incertezas. Muitos riscos."
Ela fez uma pausa, a expressão séria de novo.
"Mas se você quer a chance de disputar essa habilidade de transformação dos Ferans, esse é o único caminho."
Assenti devagar.
Eu sabia que não tava pronto, nem de longe. Talvez até tivesse pessoas no nível Mestre mais aptas para isso. Se tivessem me colocando ali só porque eu evoluo rápido ou estou me saindo melhor do que o esperado... isso não bastaria por si só.
Olhei para ela, um sorriso pequeno surgindo nos lábios.
"E então, o que acha? Devo ir nessa missão?"
Eu brincava, curioso para ver como ela reagiria. Será que ela mesmo me deixaria entrar numa coisa tão perigosa?
Ela se recostou na cadeira, fechou os olhos brevemente e depois os abriu com uma expressão carregada, que eu não tinha percebido antes.
"Quando seu pai estava para partir na última missão dele," ela disse calmamente, "ele me fez uma pergunta parecida."
O sorriso desapareceu do meu rosto.
Me endireitei na cadeira, sem saber ao certo onde ela ia chegar com aquilo.
"Ele sabia dos riscos," ela continuou. "Sabia que talvez não voltasse. E mesmo assim... decidiu ir."
Olhei para o chão, minha voz mais baixa do que o normal. "Mas...ele tinha um filho, eu. Eu tava esperando que ele voltasse. Por que ele não pensou nisso?"
Minhas mãos fecharam os punhos no meu colo. Nunca tinha feito essa pergunta antes, nem em voz alta. Talvez eu tivesse medo da resposta. Talvez eu não quisesse ouvir o que já suspeitava.
O olhar da minha avó permaneceu firme. Sua voz tava calma, mas atrás dela havia uma dor, como se as palavras tivessem marcado ranhuras nela ao longo do tempo.
"Porque às vezes, o dever vem acima da família."
Balancei a cabeça uma vez. Não em desafio, só em dor.
"Para alguns homens," ela disse, "princípios e valores... eles importam mais. Seu pai acreditava no que defendia. Acreditava que proteger os outros valia o risco. Mesmo que isso significasse deixar o filho para trás."
Levantei-me.
Não dava mais para ficar ali sentado.
O peito apertava. Os pensamentos eram barulhentos, mas nenhum deles fazia sentido. Não queria discutir. Não queria chorar na frente dela. Apenas... precisava respirar.
Sem uma palavra, virei-me e caminhei em direção à saída da sala.
Ela não tentou me impedir.
Do lado de fora, o vento me atingiu como um golpe, frio e cortante. As ruínas da Unidade 77 se estendiam diante de mim, testemunhas silenciosas de tudo que havíamos perdido.