
Capítulo 784
O Ponto de Vista do Vilão
Frey não demonstrou qualquer reação.
Em vez disso, ele se levantou de seu assento e caminhou em direção a Gehrman com passos lentos e pesados.
"Se eu te odeio ou não, isso não importa agora. E te matar não me traria ganho algum."
Ele parou na frente de Gehrman, encarando-o de cima.
"Me diga, Gehrman. Você conhece o futuro — mas não todo ele. Não é verdade?"
O sorriso desapareceu lentamente do rosto de Gehrman.
Ao ver isso, Frey continuou.
"Venho pensando nisso há algum tempo. Você conhece o futuro, ou pelo menos partes dele... mas, ao mesmo tempo, lhe faltam inúmeros detalhes."
"Você não sabia sobre Vex, dos Duques do Inferno. Você não sabia sobre Amon, dos Altos Demônios. Só isso já prova o meu ponto."
"O que você vê são mais como grandes eventos — pontos-chave que definem um certo caminho. Pontos isolados que moldam a rota pela qual você quer chegar. Mas tudo entre esses pontos está em branco... obscuro. Você tenta conectá-los sem alterar o próprio caminho."
Isso significava caminhar através de uma incerteza sem fim.
E, ainda assim, Gehrman sempre fizera exatamente isso.
O homem de olhos azuis ficou em silêncio por um longo momento, encontrando o olhar de Frey. Então, ele fechou os olhos... e sorriu novamente.
"Você tem razão. É exatamente assim."
Sua confirmação fez com que Frey se sentasse calmamente no chão à sua frente.
"Responda-me isto", disse Frey em voz baixa.
"Você não me contou sobre minha conexão com o Sem Nome [1]. Você não me contou sobre o futuro que está tentando desesperadamente alcançar. Não porque não quisesse... mas porque não podia."
"Estou certo?"
[1] - Sem Nome: Entidade ou figura enigmática com quem o protagonista compartilha uma conexão profunda e misteriosa.
Gehrman ficou momentaneamente atordoado com o quanto Frey havia deduzido.
Ele não mentiu.
Ele assentiu.
"Se eu te contasse a verdade, tudo colapsaria. Como uma peça pequena derrubando uma maior... que derruba outra, e mais outra, até que todas caiam e tudo seja destruído."
Gehrman estava planejando algo enorme.
Algo que envolvia tanto Frey quanto o Sem Nome.
Frey Starlight carregava peso demais ultimamente... sua identidade fraturada, sua conexão com o Sem Nome, o Mundo Éter, os Escribas da História, o Rei Demônio Agaroth...
E, além de tudo isso, Audrey — cujo paradeiro ele sequer sabia, mas que claramente possuía as respostas que ele precisava desesperadamente.
Sua mente nunca descansava.
O fato de ele ainda conseguir manter a sanidade era notável.
Olhando para ele, Gehrman percebeu algo.
O jovem à sua frente não podia mais ser quebrado.
Mesmo que todos ao seu redor morressem, ele continuaria seguindo em frente.
Em algum momento ao longo do caminho, Frey havia obtido algo mais profundo do que uma simples fúria.
Um propósito.
Um caminho que apenas ele escolhera.
Um caminho que só ele — e o Sem Nome — conheciam de verdade.
Frey permaneceu em silêncio por um longo tempo.
Então, ele olhou de volta para Gehrman.
"Só tenho uma pergunta", disse ele.
"E eu quero que você a responda."
"Isso depende da pergunta", respondeu Gehrman calmamente.
Frey assentiu.
"A julgar por tudo que suportei até agora... o que vem a seguir provavelmente será ainda pior. É provável que eu afunde mais profundamente na escuridão do que já estou."
"Entendo que tudo isso seja necessário para alcançar o futuro que você almeja."
"Mas me diga apenas uma coisa."
"Quando este caminho terminar — quando o futuro que você deseja finalmente se concretizar — eu o obterei?"
"O poder. O poder para romper os limites do mundo."
"Um poder igual a... ou maior do que o que o Sem Nome um dia teve."
"Depois de todos esses sacrifícios... todo esse sofrimento..."
"Eu alcançarei o poder verdadeiro?"
"O tipo de poder que poderia destruir este mundo inteiro, se necessário?"
Enquanto Frey falava, sua expressão se contorceu em algo aterrorizante.
Seus olhos escuros estavam bem abertos... sede pela resposta...
Aquela sede...
era o que fazia Gehrman, pela primeira vez desde o início da conversa, sentir-se inquieto.
O choque estava estampado claramente em seu rosto. Ele não esperava uma pergunta como aquela.
E, pelo tom de voz de Frey... pelo seu olhar, pela maneira como falava... Gehrman sabia que recusar-se a responder não era uma opção.
Então, lentamente... após respirar fundo, Gehrman assentiu.
Frey viu aquilo.
Ele soltou um suspiro silencioso de alívio.
"Entendo... isso é o bastante, então."
Frey se levantou, virando as costas para Gehrman.
"Ainda não consigo consertar seu receptáculo, mesmo tendo alcançado o sexto estágio da Adaptação das Sombras. Mas isso não significa que você não será útil no campo de batalha. Preserve-se o máximo que puder — você também lutará."
Com isso, Frey começou a se retirar.
"Para onde você vai?", perguntou Gehrman.
Frey acenou com a mão sem se virar.
"Para onde meu pai... e minha irmã estão."
Diante dessas palavras, Gehrman não disse mais nada.
Frey desapareceu de sua vista.
Enquanto se afastava, passo a passo, o mesmo brilho frio ainda queimava nos olhos escuros de Frey.
"Tudo bem... Mesmo que algo aconteça comigo ao fim do futuro que Gehrman está preparando... mesmo que o Sem Nome assuma o controle do meu corpo... ele continuará seguindo o mesmo caminho, mesmo que eu não o faça."
Frey fechou os olhos.
Bem dentro dele... dentro daquela zona segura interior que se tornara carmesim devido a inúmeras almas e oceanos de sangue — a espada que ele um dia cravara no chão ainda permanecia ali, fincada em um mar vermelho.
Ao lado dela estavam Frey... e o Sem Nome.
Ambos trilhando o mesmo caminho.
"Mesmo que um de nós caia,"
disseram em uníssono,
"o outro seguirá em frente."
Não importava o que acontecesse...
não importava o que os aguardasse...
nada mudaria daquele ponto em diante.
Frey renovou sua determinação...
e logo chegou ao local onde seu pai e sua irmã estavam.
Em uma parte isolada da Seita das Sombras, nas profundezas de uma floresta escura,
erguia-se uma pequena cabana... uma que Gehrman havia construído recentemente para Frey e sua família.
Era um lugar isolado, escondido longe de olhares curiosos... muito mais adequado ao estado atual de Frey.
Ao chegar, ele encontrou seu pai já de pé, tendo batalhado contra a maldição de Thanatos por muito tempo.
"Pai...", disse Frey, apressando-se em sua direção.
"Bem-vindo de volta, meu filho", Abraham o recebeu calorosamente.
"Você está realmente bem para se mover?", perguntou Frey. "Aquela maldição estava te prendendo de forma severa..."
Abraham sorriu e moveu a mão pelo ar, cortando-o como se se movesse à velocidade da luz.
"Sem problemas. Já expurguei completamente os resquícios do poder daquele monstro imundo."
Ao ouvir isso, Frey ativou seus Olhos do Vazio e examinou o corpo de seu pai.