
Capítulo 857
O Ponto de Vista do Vilão
Nos braços da mãe, o Sem-Nome descobriu a verdade oculta por trás de seu mundo. Frey fez o mesmo... vendo tudo com os próprios olhos, ouvindo cada palavra que sua mãe dizia com os próprios ouvidos.
O Sem-Nome do passado parecia despedaçado após descobrir a verdade. Era pesado demais — mesmo para alguém como ele — e mal conseguia suportar o peso de tudo aquilo.
Seus olhos tremiam, marejados, antes de se erguerem para ela.
"...Você... você foi a responsável por criar os demônios?"
Seres sombrios e vis... responsáveis pela morte de um número astronômico de criaturas vivas desde que apareceram pela primeira vez.
Quantos planetas... quantas civilizações... quantas raças haviam sido exterminadas por causa deles?
A raça dos Krat era apenas uma entre milhares que haviam desaparecido sem deixar vestígios.
E não seria exagero dizer... que a mulher diante dele era a causa direta de tudo aquilo.
O fardo daquelas incontáveis almas — seus pecados, seu peso... repousavam sobre os ombros dela.
E, ainda assim... ela não se importava nem um pouco.
"Não me diga que você se importa com eles?", sussurrou ela friamente.
"Eles não passam de construções nascidas de nossas penas... seres que podem ser substituídos a qualquer momento."
Suas palavras carregavam um peso antinatural... que dobrava a vontade de qualquer um que as ouvisse.
Até mesmo o próprio Sem-Nome... foi afetado.
Não... mais do que qualquer outro.
Porque ele era seu filho.
Porque ele havia sido criado por ela.
Clea estava preparada para exterminar cada alma viva dentro do mundo de Terra da Sobrevivência [1], se necessário... apenas para resgatar sua família, alcançar aquele monstro conhecido como Agaroth, matá-lo... e recuperar o objeto escondido dentro dele.
[1] - *Land of Survival*: Mundo onde se passa a história principal.
Ela parecia desprovida de emoções — sua presença era avassaladora, sua aura sufocante.
Havia uma certa dignidade nela... uma gravidade esmagadora que tornava quase impossível sustentar seu olhar cor de rubi.
Até o Sem-Nome abaixava a cabeça sempre que seus olhares se cruzavam.
E, no entanto... apesar daquela frieza...
Clea realmente se importava com sua família.
Com seu filho mais velho.
Com seu marido, que também estava preso dentro daquele mundo.
Ela nunca demonstrava abertamente... mas o sentimento estava lá.
Ela era uma mulher resoluta — alguém que compreendia seu dever e o papel imenso imposto a ela como portadora do título de Primeira Escritora.
Essa responsabilidade, por si só, a mantinha presa ao mundo de Aether, onde sua presença era essencial para conter as criaturas da Névoa.
Se não fosse por esse fardo...
Ela teria entrado no mundo de Terra da Sobrevivência há muito tempo.
Ela esperou.
E esperou.
Por tempo demais.
O que eles presenciavam agora... era meramente o passado.
Porque o futuro... já havia mudado.
Clea atingira seu limite.
E então... ela fez algo insano.
Ela forçou os mundos a se sobreporem — fundindo o mundo de Aether com o mundo de Terra da Sobrevivência.
Assim, ela tornou-se capaz de existir em ambos os reinos ao mesmo tempo.
Mas, ao fazer isso... ela também abriu o portão.
Um portão pelo qual os horrores de Aether podiam entrar naquele mundo — através do misterioso continente que surgira do nada.
Aquele exato continente... onde os mais fortes de Terra da Sobrevivência lutavam agora, sem saber que o solo sob seus pés não passava de uma porta de entrada...
...para um reino repleto de terrores além da compreensão.
A Primeira Escritora havia chegado.
Com apenas dois objetivos.
Resgatar sua família...
...e matar o monstro conhecido como Agaroth.
Mas isso era o presente.
E esta memória pertencia ao passado.
Naquela época, Clea ainda estava disposta a esperar mais... colocando o peso da tarefa sobre os ombros do filho.
E assim, ela sussurrou para o Sem-Nome — suas palavras carregadas de influência, buscando convencê-lo da insignificância dos seres dentro de seu mundo.
Então, quando sentiu a hesitação dele...
Ela se inclinou perto de seu ouvido.
E sussurrou suavemente...
"Você mesmo já matou muitos deles... não matou?"
A pergunta atingiu profundamente.
Uma verdade sensível.
O Sem-Nome... e sua jornada.
Seus experimentos — responsáveis pela morte de inúmeros seres vivos, através de incontáveis raças.
"Você os matou com suas próprias mãos... tantos deles", continuou ela.
"Talvez eu tenha causado a morte de um número muito maior... mas, diferentemente de você, minhas mãos nunca foram manchadas com o sangue deles."
"Foi fácil, não foi?"
"Tão muito fácil..."
"Você não sentiu nada ao tirar a vida deles. Para você, eles não passavam de ferramentas... meios para um fim."
"E você não estava errado."
"Eles foram criados para servir à vontade de seu criador. Esse é o propósito deles."
"Portanto, não hesite, meu querido filho."
"Siga em frente... mate o quanto for necessário."
"Cumpra a tarefa que lhe foi confiada... e retorne para mim."
Sua voz infiltrou-se em cada célula do corpo do Sem-Nome...
E no de Frey também.
Parecia que cada fragmento de sua alma ansiava por obedecê-la — por satisfazê-la.
Como se isso, por si só... fosse o propósito de sua existência.
"Mãe... eu..."
O Sem-Nome tremia levemente dentro do abraço dela.
Ele não resistiu.
Porque sentiu... um conforto desconhecido nos braços dela.
A razão era simples.
Ela era sua mãe.
E, apesar de tudo — apesar de sua frieza, apesar de sua lógica distorcida —
Ela realmente o amava.
Não importa o quão cruel ela parecesse... não importa o quão diferentes fossem suas crenças...
Ele não sentia nenhum desejo real de se opor a ela.
Ele queria permanecer ali.
Ficar dentro daquele abraço para sempre.
Ser o filho obediente... que nunca desafiou sua mãe.
E, no entanto...
Ao mesmo tempo...
Bilhões de vozes gritavam em sua mente.
Ele podia ouvi-las claramente.
Desde que tocou naquele livro negro...
Aquele único toque abalara tanto sua mente quanto sua alma — revelando a verdade oculta de seu mundo... e dos seres que viviam dentro dele.
Eles estavam vivos.
Não eram marionetes.
Não eram ferramentas.
Eram criaturas vivas... seres que evoluíram por conta própria, tornando-se o que eram.
Alguns deles...
Haviam alcançado um nível de poder que poderia rivalizar com a existência real... caso pisassem no mundo verdadeiro de Aether.
O Sem-Nome, que há muito lutava com uma crise existencial...
Agora enfrentava algo muito pior.
Uma compreensão mais profunda e devastadora...
Sobre as vidas que haviam nascido...
...através dele.
Ganhar emoções apenas tornava tudo pior.
O peso que ele carregava após aprender a verdade... e a pressão de sua mãe, cujo veneno se infiltrara em sua mente no momento em que ele entendeu tudo.
O Sem-Nome do passado sentia como se sua cabeça fosse se partir. E, na época, ele ainda era uma existência incompleta — incapaz até de manejar adequadamente seu próprio poder.
Apenas alguns minutos se passaram antes que seu mundo começasse a puxá-lo de volta, à medida que o reino de Aether o rejeitava naquele estado.
Seu corpo verdadeiro permanecia lá fora... mas sua alma estava agora presa dentro... ao lado de seu pai aprisionado.
Respirando fundo, o Sem-Nome levantou a cabeça e encarou sua mãe com resolução — olhos idênticos aos de Frey.
"Mãe... eu sou seu filho."
Ele falou com firmeza, mesmo quando sua existência começou a desaparecer de Aether.
"Eu sou seu filho... então, por favor, confie em mim."
"Eu consertarei tudo. De alguma forma, eu consertarei... então, por favor — não interfira no meu mundo novamente."
"Não mexa com os seres que escrevi com minhas próprias mãos..."
"Eu lhe imploro..."
Seu corpo se fragmentou como vidro, despedaçando-se enquanto ele se curvava diante dela... suplicando, temendo que ela pudesse criar algo pior que demônios.
Ou pior ainda...
Reescrever aqueles que já existiam dentro do mundo de Terra da Sobrevivência... e mudá-los completamente.
Naquela época, o Sem-Nome ainda estava perdido — sem saber o que deveria fazer.
Ele precisava de tempo.
E não podia permitir que seu mundo fosse alterado ainda mais.
Os demônios já eram o bastante.
Clea era poderosíssima... e o Sem-Nome entendia isso muito bem após aprender a verdade.
Ele sabia que ela era mais do que capaz de interferir novamente.
E isso... era algo que ele não podia permitir.
Naquele momento, ele não entendeu o porquê.
Teria sido a visão de seu filho se quebrando diante dela... o filho que ela observara por anos, imóvel... sem emoções?
Ou seria saudade... despertada por seu estado lamentável?
Ele não sabia.
Mas Clea atendeu ao seu pedido.
Ela não interferiu mais em seu mundo.
Embora não dissesse nada, ela confiou nele... e esperou.
Por um tempo muito longo.
Mesmo quando ela não conseguiu mais suportar a espera...
Ela entrou no mundo de Terra da Sobrevivência —
No entanto, ela não o alterou novamente.
Não criou novas abominações.
Não reescreveu nenhum ser vivo.
Desta vez... ela veio pessoalmente.
Para acabar com tudo.
Como se lhe concedesse uma última chance.
O Sem-Nome deixou o mundo de Aether pouco depois...
E, com ele, tanto Frey quanto o Sem-Nome do presente foram puxados de volta.
Enquanto eram atraídos, Frey só conseguia olhar para sua mãe de longe — a amargura corroendo seu peito.
E, mais uma vez...
Clea olhou para ele.
Como se ela realmente o visse.
Ela não disse nada.
No entanto, seus olhos cor de obsidiana encontraram os dele diretamente... e transmitiram tudo.
Como se confiasse a tarefa a ele também...
Assim como havia confiado ao outro fragmento de seu ser.
Frey ainda sabia pouco sobre o mundo de Aether.
Mas, em troca... ele agora entendia tudo sobre o seu próprio.
O mundo de Terra da Sobrevivência.