O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 858

O Ponto de Vista do Vilão

O Sem Nome retornou ao mundo material...

E, com isso, perdeu o calor das emoções mais uma vez.

Contudo, o que ele vira... o que ele vivera...

Permaneceu.

Um peso que nunca o abandonou.

Atormentado por isso, ele escolheu não decidir.

Ainda não.

Ele adiou tudo—

Até que sua existência estivesse completa... até que pudesse reconstruir seu eu fragmentado.

E, uma vez que recuperou seu poder...

Uma vez que se tornou inteiro novamente—

Ele decidiu.

Usando suas habilidades de Éter e seu controle avançado de aura...

Ele separou aquelas memórias de sua mente completamente.

Junto com seus poderes nascidos do Éter.

Mais tarde, ele as confiou a Gehrman—

Que as selou dentro do próprio corpo, tornando-as parte de si mesmo...

Carregando-as até o dia em que chegasse a hora de devolvê-las ao seu legítimo dono.

A razão pela qual ele selou seu poder como Escritor...

Foi porque ele compreendeu o que Agaroth realmente buscava.

O Rei Demônio desejava deixar o mundo material...

Para testemunhar o verdadeiro reino do Éter com seus próprios olhos.

Para alcançar isso, ele tentara, certa vez, devorar Frey por completo... junto com seu poder.

Ele falhou.

E, desde então... ele esperou.

Por outra oportunidade.

O Sem Nome sabia — sem sombra de dúvida —

Que um dia enfrentaria Agaroth.

E que provavelmente perderia.

Então, ele descartou seu poder... compreendendo que Agaroth não o devoraria se aquele poder já não existisse dentro dele.

Isso... foi o motivo pelo qual o Sem Nome pôde retornar mais tarde através de Frey...

E não ser vítima do monstro que tudo devora.

Isso também explicava por que o Rei Demônio manteve Frey vivo...

Permitindo que ele se tornasse mais forte com o passar do tempo.

Quebrar o selo era um dos motivos.

Mas, mais importante...

Era para restaurar o poder de Frey—

Para que ele pudesse devorá-lo.

O Sem Nome do passado nunca se importara com a guerra contra os demônios.

Nem com salvar o mundo.

Mas tudo mudou depois que ele soube a verdade.

A partir daquele dia, ele se tornou um verdadeiro líder da Seita das Sombras...

Construindo a organização aterrorizante conhecida em todo o mundo.

Ele abandonou sua natureza solitária.

Entrou na guerra.

Lutou contra os demônios.

E enfrentou Agaroth.

No fim... Ele o selou.

Ao custo de sua própria vida.

Mas antes de tudo isso...

Ele planejou um futuro distante...

Um futuro onde as peças perdidas de sua existência seriam reunidas...

E seu eu fragmentado, restaurado.

Uma tarefa que ele confiou a Gehrman... após testemunhar incontáveis futuros possíveis através de sua premonição.

Era uma missão impossível.

Uma que exigiu que Gehrman vagasse por mundos durante incontáveis anos...

Seguindo uma profecia deixada por seu mestre.

Uma profecia que o guiava na busca por um fragmento perdido...

Um fragmento de um ser ancestral... perdido desde o início dos tempos.

Aquela profecia nunca foi precisa.

Ela se ramificava em incontáveis caminhos...

Possibilidades infinitas.

A Terra nunca foi o único destino.

Apenas um... entre centenas.

Entre milhares.

No entanto, Gehrman perseguiu cada caminho... cada possibilidade — vagando pelo vasto cosmos em busca do que seu mestre previra.

O homem de olhos azuis falhou repetidas vezes, cada tentativa terminando em um beco sem saída.

Anos se passaram... e o tempo o desgastou.

A cada fracasso, seu receptáculo se fragmentava um pouco mais.

Seu poder definhou... diminuiu... até que o outrora grande Santo Gehrman perdeu seu brilho, tornando-se nada mais do que uma sombra antiga envolta em negro.

Um fantasma vagando pelo universo... testemunhando a ascensão de civilizações... e a queda de outras.

Ainda assim, ele perseverou.

Ele nunca perdeu a esperança...

Até que a profecia o levou... à Terra.

O planeta onde ele finalmente encontrou o que buscava.

O caminho que ele sabia, sem dúvida... ser o correto.

Desde o início, Frey e o Sem Nome eram fragmentos de um único todo.

Nenhum dos dois poderia realmente existir sem o outro.

Diferente do Recipiente Puro... cuja alma fora dividida, dando origem a seres separados...

Orsted e Snow — ambos capazes de existir simultaneamente.

Frey e o Sem Nome eram diferentes.

Apenas um poderia seguir em frente.

Porque ambos pertenciam a um ser que existia além das fronteiras do mundo material.

E assim, Gehrman buscou restaurar o Sem Nome... através de Frey.

Para alcançar isso, ambos tiveram que chegar aos seus limites absolutos... extraindo cada gota de poder dentro deles.

Foi por isso que ele pressionou Frey tão impiedosamente... forçando-o a sofrer repetidas vezes, até que ele se tornasse mais forte.

E na batalha final contra Agaroth...

Ele teve sucesso.

O corpo de Frey alcançou o estágio definitivo de SSS.

Ele até despertou seu poder como Escritor — queimando sua própria alma para fazê-lo.

Assim... a fusão tornou-se possível.

Finalmente, Gehrman fez seu movimento.

Ele levou Frey ao palco que preparara há muito tempo... e colocou cada peça onde ela deveria estar.

A armadura e a espada... contendo os remanescentes do poder do Sem Nome e suas memórias completas.

O corpo de Frey — despertado para o seu auge.

E a peça final...

A última memória selada dentro do próprio Gehrman... aquela que exigia sua morte para ser liberada.

Sem hesitação, ele a entregou.

E, ao fazê-lo... cumpriu sua missão perfeitamente.

De longe, Frey e o Sem Nome presente testemunharam tudo — percebendo que não tinham apenas recuperado suas próprias memórias...

...mas as de Gehrman também.

Seu poder.

Seu sofrimento.

Tudo aquilo... havia agora se tornado parte de Frey.

Através disso, eles passaram a entender — ainda que um pouco — o que aquele homem de olhos azuis havia suportado.

Eles viram toda a sua jornada...

Assim como viram a jornada do Sem Nome.

Eles viram tudo.

E enquanto o faziam, os dois conversaram... sobre tudo o que tinham vivido... tudo o que tinham sofrido.

Sobre a verdade do mundo.

A verdade de sua família.

E o que eles deviam fazer a partir daquele ponto.

Era complicado.

Frey descobrira que sua verdadeira família existia além... dentro do mundo do Éter.

Contudo, ao mesmo tempo...

Ele havia construído outra família dentro do mundo material.

Uma irmã por quem ele zelava.

Pessoas que ele desejava ver vivas... e bem.

Através dele e do Sem Nome...

Uma nova existência estava prestes a nascer.

A final.

Um ser além do qual nenhum outro surgiria.

O eu completo... da entidade conhecida como Frey.

Uma versão mais forte do que qualquer coisa que existira antes.

Um ser capaz de manejar tanto a aura... quanto o poder dos Escritores.

Um poder grande o suficiente para rivalizar com o do Rei Demônio, Agaroth.

Mas a questão mais importante permanecia...

Para qual propósito... tal poder seria usado?

Ele se tornaria a força que salva o mundo?

Ou aquela que o destrói?

O fardo era imenso.

Nenhum ser vivo carregaria tal peso voluntariamente.

E ainda assim...

No final...

Uma decisão precisava ser tomada.

Uma decisão difícil.

Mas inesperadamente...

Para Frey e o Sem Nome — era simples.

No momento em que saíram da luz...

Eles olharam um para o outro.

E o mesmo pensamento se refletiu nos olhos de ambos.

"Não há necessidade de pensar... não há necessidade de decidir."

"O caminho já foi traçado."

Frey falou, um traço de calma em sua voz, enquanto caminhava ao lado do Sem Nome através do que restava de seu mundo interior... seu santuário final.

O mar de sangue havia desaparecido.

Junto com ele... cada alma que se consumira na última batalha.

Todas, menos uma.

A alma imortal de Thanatos — ainda queimando silenciosamente no fim do mundo espiritual.

Nada mais restava.

Nada... exceto uma coisa.

Uma espada.

Uma lâmina negra, enterrada profundamente no solo.

Atrás dela estendia-se um caminho irregular e sinuoso...

Um caminho cheio de escuridão... e incontáveis provações.

Um caminho que eles escolheram juntos.

Há muito tempo.

"A resposta sempre esteve lá."

"A verdade deste mundo não muda nada."

"Ela apenas nos deu a força... para trilhar aquele caminho."

Mantendo-se firmes na estrada que haviam escolhido...

Frey e o Sem Nome fecharam os olhos.

Luz irrompeu de ambos ao mesmo tempo — iluminando seu mundo interior mais uma vez.

Suas formas começaram a desaparecer...

Preparando-se para o nascimento de seu eu completo e final.

O homem que percorreria o restante do caminho.

Aquele que traria tudo ao fim.

A tragédia do mundo material.

O Rei Demônio.

A Névoa.

O Primeiro Escritor.

Tudo... agora repousava sobre seus ombros.

E tanto Frey quanto o Sem Nome tinham certeza de uma coisa —

Ele não falharia.

Porque ele estava destinado...

A se tornar o mais forte de todos.

O homem que nunca caiu...

E nunca cairia.

Todos aqueles sacrifícios.

Todo aquele sofrimento...

Foram para o seu nascimento.

E assim...

A contagem regressiva final começou.

Frey... O Escritor mais talentoso entre todos eles.

O filho do Primeiro Escritor.

O homem que escreveu o mundo mais perfeito de todos.

O criador de Agaroth.

Aquele que deteve a Devastação Pálida.

Londor foi escolhido como o palco de seu retorno...

Aquele planeta morto... onde toda a vida havia perecido milhares de anos atrás.

Ele renasceu.

De dentro de um túmulo ancestral.

Debaixo daquele lago de escuridão...

Das profundezas do vazio absoluto.

Ele abriu os olhos.

E, finalmente...

Ele retornou.

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