
Capítulo 859
O Ponto de Vista do Vilão
Dentro do Túmulo das Trevas — o próprio jazigo onde uma grande alma pereceu e uma ainda maior renasceu...
O túmulo estremeceu, e a substância negra que havia engolido Frey começou a recuar, desaparecendo lentamente como se o próprio corpo dele a estivesse devorando.
A máscara de Nameless, outrora estilhaçada por Agaroth, reformou-se — desta vez mais forte, mais refinada, mais aterrorizante.
Olhos afiados como os de um falcão predatório, gravações profundas e irregulares ao longo de suas laterais... e sua cor permanecia como sempre foi... preta. A cor que tanto Nameless quanto Frey compartilhavam.
O cabelo branco de Frey começou a brilhar levemente, como se tivesse ganhado vontade própria.
Diante dos olhos cheios de lágrimas de Shiva, que ainda lamentava a morte de Gehrman, a forma de seu rei começou a emergir.
A Armadura do Pico da Noite envolveu-o como uma antiga relíquia de guerra, fazendo-o parecer um guerreiro nascido das profundezas da eternidade.
E a Espada do Domínio das Sombras agitou-se por conta própria, enrolando-se ao redor de sua mão como se ansiasse — não, implorasse — para ser empunhada mais uma vez.
Por fim, o cabelo de Frey mudou... tornando-se cinza-escuro, uma fusão perfeita entre o preto abissal de sua mãe e o branco radiante de seu pai.
Em questão de segundos, a substância negra desapareceu completamente, não deixando nada para trás.
Nada... exceto Frey, deitado silenciosamente sobre o chão de pedra fria do antigo túmulo.
Imóvel. Sereno. Mas inegavelmente presente.
Shiva aproximou-se devagar, cautelosa, com seu rosto envelhecido tomado por inquietação e descrença.
Ela não conseguia compreender o que estava testemunhando.
O rei havia realmente retornado, como Gehrman prometera? Ele teria conseguido?
Todo aquele sofrimento... a luta interminável e silenciosa do homem de olhos azuis... finalmente dera frutos?
Ela não sabia dizer.
Frey... não, Nameless, sob sua perspectiva — não emanava aura alguma... nenhuma pressão... absolutamente nada.
Ela sentia Wesker lá fora. Sentia Maskith. Sentia Alexander Ryback lutando com tudo o que tinha, contendo-os com uma força implacável.
Mas Frey... parecia nada. Como um homem comum, desprovido de presença.
Por um breve momento, o medo a dominou — de que tudo tivesse falhado.
Até que... aqueles olhos se abriram.
Por trás das fendas afiadas da máscara, olhos violeta emergiram... completamente diferentes do vazio escuro que um dia foram.
Olhos que contemplavam o mundo sob uma perspectiva totalmente nova.
Lentamente, Frey levantou-se, examinando seu corpo com uma intenção silenciosa.
Braços que haviam sido decepados... restaurados. Pernas... inteiras. Seu peito, seu rosto... tudo intacto.
Como se ele não passasse de uma alma errante por uma eternidade... perdido, sem rumo, sem forma.
Mas agora, ele havia retornado.
Retornado ao mundo que suas próprias mãos um dia escreveram.
Com passos pesados e deliberados, Frey avançou.
Shiva permaneceu paralisada, a mente em branco, o olhar fixo nele como se a própria realidade tivesse parado de funcionar.
Ela esperara por aquele momento por tanto tempo... desde o dia em que escolheu seguir Gehrman.
Desde o dia em que a Seita das Sombras foi despedaçada.
Ela imaginara isso inúmeras vezes — sua alegria, sua reação... o alívio avassalador.
No entanto, quando aconteceu... não foi nada como ela havia imaginado.
Ela estava feliz.
E ainda assim... profunda e dolorosamente triste.
Porque alguém havia partido. Para sempre.
Por fim, ela recuperou os sentidos quando Frey parou diante dela.
Sem hesitar, ela caiu de joelhos, baixando a cabeça, com o olhar fixo no chão.
"Meu rei... bem-vindo. Bem-vindo de volta."
Lágrimas escorriam por seu rosto enquanto ela se curvava, pronta para se prostrar completamente...
Mas Frey a impediu instantaneamente, segurando-a suavemente e ajudando-a a levantar.
"Erga a cabeça, minha querida. Seus joelhos não devem se curvar a ninguém... e esse rosto nunca deveria tocar o chão."
Sua mão repousou sobre a bochecha dela, enxugando suas lágrimas com uma ternura silenciosa.
Shiva o encarou em silêncio por alguns segundos... antes de apertar a mão dele com força, balançando a cabeça em sinal de concordância repetidas vezes.
Calor... algo que ela nunca havia sentido vindo dele antes.
O rei frio... havia mudado.
"Meu rei... nós esperamos por tanto tempo... por tanto, tanto tempo..." ela sussurrou, com a voz trêmula enquanto se segurava nele.
Frey assentiu suavemente.
"Eu sei, minha querida. Eu sei."
Sua voz era calma. Gentil. Diferente de tudo o que ela já tinha ouvido vindo dele.
"Eu sei que inúmeras vidas foram perdidas para o meu retorno... nós perdemos todos eles."
"E entre eles... nosso amigo de olhos azuis, talvez fosse o mais gentil... o mais leal."
"Não..." Frey pausou, fechando os olhos por um breve momento.
"Ele era o mais leal. Sem dúvida... mais do que eu jamais mereci."
Os olhos de Shiva avermelharam-se enquanto aquelas palavras a atingiam, suas emoções colidindo violentamente dentro do peito.
"Não... não há jeito de salvá-lo? Talvez... com o seu poder, meu rei—"
Ela se agarrou à esperança.
Mas Frey balançou a cabeça... extinguindo-a antes que pudesse crescer.
"Isso é impossível. Ele não existe mais... o que restou dele agora vive dentro de mim."
Gehrman havia dado tudo ao seu rei — cada último fragmento de sua existência.
Suas memórias. Sua luta. Seu poder.
Frey podia sentir.
A força de Gehrman... suas habilidades capazes de romper o mundo... tudo aquilo agora pertencia a ele.
Ele realmente lhe dera tudo.
"Ele se foi, Shiva... e mesmo que eu pudesse trazê-lo de volta—"
A voz de Frey tornou-se baixa... mas absoluta.
"Eu nunca faria isso."
"Ele sofreu... mais do que o suficiente. Ele suportou o que ninguém mais poderia, carregou um fardo que teria esmagado qualquer outro — e ele conquistou esse descanso... o direito de finalmente estar em paz, depois que eu o acorrentei a uma tarefa impossível."
Lentamente, Frey soltou seu braço do aperto de Shiva.
Uma luz cinza-carmesim brilhou ao redor de sua mão, expandindo-se em uma pulsação silenciosa que fez os olhos dela se arregalarem em choque.
"Eu não posso trazê-lo de volta... mas, ao menos, posso conceder-lhe isso."
Ele moveu a mão pelo ar como se pintasse a própria tela da existência.
Das profundezas do esquecimento, o espaço se torceu — deformou-se — até que uma fenda escura se abriu, irradiando uma luz dourada brilhante.
Uma luz dourada... refletindo o legado de um homem que deixara o mundo para trás.
Ele deixara tudo. Seus sonhos, sua força, sua vida...
Tudo confiado àquele em quem ele acreditava acima de todos os outros.
Aquele que era — e para sempre permaneceria — o Número Um dentro da Seita das Sombras...
Santo Gehrman.
De além daquele véu fraturado, Gehrman apareceu.
Ele abriu os olhos... não mais azuis, mas brilhando com um dourado radiante.
Shiva desatou a soluçar incontrolavelmente no momento em que o viu.
Quanto a Frey... ele removeu a máscara, recusando-se a encarar seu companheiro mais leal por trás do ferro frio.
Frey sorriu — abertamente, calorosamente — e Gehrman sorriu de volta.
"Eu sei que palavras não serão o suficiente, meu velho amigo..."
Frey falou com uma doçura gentil, seus olhos cheios de um respeito genuíno — um verdadeiro apreço.
Não havia traço de desprezo, nem sombra de ressentimento.
"Eu queria que você soubesse... você conseguiu. Você fez isso, Gehrman. Seu sacrifício não foi em vão... e nunca será."
"Eu carregarei tudo. Suas esperanças, seus sonhos... sua força."
"Eu os carregarei dentro de mim até o meu último dia."
"Então descanse agora... meu amigo. Descanse, e deixe sua alma encontrar a paz. Você já me deu mais do que eu jamais mereci."
Com seu novo poder, Frey curvou a própria realidade... concedendo a si mesmo alguns minutos fugazes com aquela alma leal.
Tempo suficiente... para dizer o que precisava ser dito.
Tempo suficiente... para lhe dar a única coisa que ele realmente buscava.
O sorriso de Gehrman se aprofundou.
Ele não podia falar naquela forma... mas seus olhos diziam tudo.
Lentamente, ele os fechou... seu espírito dissolvendo-se enfim, liberto... em paz.
E Frey, também, fechou os olhos, colocando a máscara de volta em seu rosto.
"Adeus... meu amigo."