
Capítulo 856
O Ponto de Vista do Vilão
Sem Nome recuou instantaneamente, arrancando a mão e cambaleando para trás, com o medo estampado no rosto.
Ele tropeçou até suas costas atingirem as prateleiras... livros espalhando-se abertos ao seu redor.
Deles irromperam vozes... gritos, sussurros, risos, tristeza, fúria, alegria, ódio.
Uma cacofonia de emoções que se abriu diante dele... revelando mundos inteiros.
Lágrimas brotaram em seus olhos.
Ele desabou no chão, agarrando a cabeça.
— O que... o que é isso... — ele ofegou, lutando para respirar.
Pela primeira vez em sua vida...
Ele chorou.
Ele chorou violentamente, seus olhos avermelhando, pulsando com uma vida que nunca haviam conhecido antes.
Seu corpo tremia...
Até que ela deu um passo à frente e segurou seu rosto, o toque dela enviando um frio cortante através dele.
Naquele momento... ele entendeu.
Ele estava completamente à mercê dela.
E, ainda assim... ele não resistiu ao toque dela.
— Você entende agora... não entende? — ela perguntou suavemente.
Sem Nome respondeu com a voz trêmula.
— Este lugar... isto é... o Éter... não...
— ...o mundo real.
Seu corpo sacudiu enquanto a verdade se assentava dentro dele.
— O mundo material... eu...
— Isso mesmo — ela disse, acenando gentilmente enquanto o puxava para um abraço calmo.
— Aquele não é o mundo material.
— É o seu mundo... aquele que suas mãos escreveram para a existência.
— Você é um Escritor... assim como eu... e como seu pai tolo parado ali.
— Você é um ser muito maior... muito superior a qualquer outra criatura.
Frey... era um Escritor.
Abraham... também era um.
E a mulher diante dele...
Era sua mãe.
A Primeira Escritora.
O título de Primeira Escritora nunca esteve vinculado a um único indivíduo... era um manto, concedido ao mais forte entre eles. Não era único, nem eterno.
E isso... era o que Sem Nome passou a entender.
Assim como a mulher que portava aquele título dissera, os Escritores estavam acima de todos os outros seres.
Eles possuíam a habilidade de criar mundos inteiros — contidos em recipientes que se assemelhavam a livros, conhecidos como Codex [1].
Eles podiam moldar esses mundos... entrar neles livremente... e até mesmo viver dentro deles, caso escolhessem.
E frequentemente faziam isso. Os incontáveis livros espalhados ao redor deles eram prova suficiente dessa verdade.
No entanto, nem todos os mundos eram iguais. Alguns eram simples, quase triviais... como contos infantis.
Outros... eram muito mais complexos.
Como aquele que Frey havia criado.
— Você viveu dentro do seu mundo por tempo demais... a ponto de se tornar parte dele — a mulher disse, segurando Sem Nome em seu domínio.
Escritores podiam entrar em suas próprias criações, sim, mas permanecer nelas por tempo demais tinha um preço.
Suas identidades se desgastariam... até que se tornassem indistinguíveis do próprio mundo.
E isso... foi exatamente o que aconteceu com Frey.
— Sua existência está fragmentada... seu eu, incompleto. Você não pode permanecer no mundo real por muito tempo nesse estado. Seu mundo logo o puxará de volta.
— Então, ouça com atenção o que vou lhe dizer.
A voz dela o congelou no lugar, como se algo dentro dele exigisse obediência absoluta.
— Seu mundo... foi escolhido como o campo de batalha para a grande guerra contra os Senhores da Névoa.
— É também onde escondemos a Ferramenta da Criação.
— A mesma ferramenta que você usou — sem permissão — para criar aquela abominação...
— ...a criatura que você nomeou como Agaroth.
Agaroth... havia sido criado com um propósito.
Destruir Odin.
Acabar com ele.
No entanto, ele traiu seu criador — voltando-se contra Frey, tentando devorá-lo... para escapar do mundo material e se manifestar no real.
Ele falhou.
Mas aquele ato, por si só... tornou-se a fundação para tudo o que se seguiu.
Após a traição, após a guerra contra a Calamidade Pálida... a existência de Frey estilhaçou-se completamente.
Ele ficou preso ao mundo material — vivendo-o repetidas vezes sob nomes diferentes... identidades diferentes.
— Quando um Escritor morre dentro de seu mundo, ele não perece verdadeiramente — ela continuou, com a voz firme.
— Ele desperta no mundo real.
— Mas você... nunca retornou. Não importa quantas vezes tenha morrido.
— Porque sua alma se tornou ligada... àquele mundo... e aos seus habitantes.
Ela se virou ligeiramente para o homem atrás dela... para Abraham.
— Depois que você ficou preso lá dentro, seu pai entrou em seu mundo para resgatá-lo... e recuperar a Ferramenta da Criação.
— Mas ele falhou... e também ficou preso.
— Seus irmãos seguiram.
— E aquela criatura miserável... matou a todos eles. Expulsou-os.
Agaroth havia massacrado cada criança que entrou.
Devorou-as.
No entanto, ele não podia realmente matá-las — elas simplesmente despertavam de volta no mundo real.
Isso... era o motivo pelo qual Seth havia aparecido diante de Frey.
O irmão mais novo fora quem chegara mais perto... quem mais tentara salvá-lo.
Mesmo na derrota, ele deixou algo para trás.
O Sistema.
Um guia... destinado a levar Frey adiante.
O pai falhou.
Os filhos falharam.
E a mãe... foi forçada a permanecer.
Para resistir aos horrores da Névoa.
Para preservar o equilíbrio.
— Escritores não podem interferir nos mundos uns dos outros — ela disse.
— Mas você e eu... sempre fomos exceções.
— Estamos acima dos outros.
— Então eu intervi.
— Eu criei os demônios... seres que se alimentam unicamente da própria vida.
— Criaturas nascidas para trazer a morte... para erradicar tudo o que vive.
Esse era o propósito deles.
Destruir o mundo... e forçar Frey a deixá-lo.
Assim, o primeiro demônio nasceu — Manus.
— Mas aquela abominação entendeu minhas intenções imediatamente — ela continuou, sua voz se tornando mais cortante.
— Ele tomou o controle... coroou-se rei deles... e dobrou-os à sua vontade.
Agaroth nunca foi um demônio.
Ele era algo inteiramente diferente.
Algo mais sombrio.
Algo mais forte.
Forte o suficiente... para dominar a todos eles.
— Enviei meus seguidores atrás disso.
— Ordenei a Audrey que o encontrasse, mas aquela garota inútil perdeu o caminho e tornou-se prisioneira.
— O outro... embora capaz... não fez nada além de observar de longe.
— Ele demorou tempo demais... mas, pelo menos... deixou para trás os rastros que levaram você até aqui.
O aperto dela em Sem Nome se intensificou.
— Eu preciso de você aqui, Frey.
— Preciso que esteja comigo.
— Preciso que cumpra o que estava destinado a se tornar.
— Você é o único capaz de alcançar meu nível.
— E cada segundo que você permanece naquele mundo inútil... me causa dor.
Sua voz baixou.
— Minha paciência está se esgotando, Frey.
— Ela já atingiu o limite.
— Retorne... e acabe com o monstro que você criou.
— Ou eu farei isso eu mesma.
Sem Nome ouviu tudo.
Cada palavra.
Cada fragmento de loucura.
E através dele... Frey também ouviu.
E o Sem Nome do presente também.
A ameaça dela ecoou em suas mentes.
E com ela... a percepção surgiu.
— O continente misterioso que apareceu do nada...
A paciência dela havia acabado.
Então ela escolheu descer pessoalmente.
O futuro caíra no caos.
E, finalmente... a verdade por trás de tudo foi revelada.
Abraham havia feito o impossível — entrando no mundo material repetidas vezes, toda vez que Frey aparecia... tornando-se seu pai em cada vida.
Quanto à sua família...
Eles não passavam de réplicas.
Cópias que Frey havia criado sem saber — baseadas em sua mãe real... seus irmãos reais.
Era por isso que eles se assemelhavam a eles tão perfeitamente.
Eles não eram reais.
Apenas Abraham era.
O único que persistia.
O único que reencarnava... repetidas vezes.
Cada catástrofe.
Cada desastre que abalou o mundo.
Até mesmo os demônios.
Até mesmo Agaroth.
Tudo isso...
Tudo isso... originou-se de uma única família.
E que família era aquela.
No fim...
Sempre fora sobre família.
E a mais aterrorizante de todas...
Estava prestes a descer.
A mãe...
Clea.
[1] - *Codex*: Termo geralmente usado para designar manuscritos antigos ou livros em formato de volume, aqui utilizado como o recipiente físico que guarda a criação de um mundo.