
Capítulo 846
O Ponto de Vista do Vilão
"Eu nunca vou me esquecer de você... enquanto eu viver."
O Rei estendeu a mão.
Diante dos olhos de seus seguidores, ele estava prestes a pôr um fim à única existência que havia ameaçado sua vida mais do que qualquer outra. As testemunhas mais próximas eram Wesker, Maskith... e o assassino Vex, que observava das sombras.
Wesker há muito havia perdido a compostura.
Tendo testemunhado aquela batalha com seus próprios olhos — uma batalha que superava até mesmo sua imaginação mais desenfreada —, ele não sentia nada além de impotência. Uma impotência absoluta e esmagadora diante de tamanha tirania e poder avassalador.
Vex, por outro lado, nem sequer ousou revelar sua presença.
Ele temia que aqueles monstros pudessem matá-lo por acidente... uma morte sem sentido, apagado sem propósito. Então, quando viram Agaroth prestes a acabar com o Sem Nome, nenhum deles se moveu.
Eles esperaram.
Em silêncio... pelo fim.
O único perturbado por aquela conclusão —
era, inesperadamente... Maskith.
O velho homem permanecia tenso, seus olhos trêmulos, o aperto em sua bengala tornando-se inconscientemente mais forte.
'Mais uma vez... vai terminar do mesmo jeito?'
'Devo testemunhar aquela humilhação novamente...?'
Seus pensamentos ferviam dentro dele, em um contraste gritante com a máscara de calma que mantinha exteriormente.
Agaroth havia alcançado seu objetivo.
Suas restrições haviam enfraquecido ao ponto de ele poder quebrá-las a qualquer momento. Ele levara seu oponente ao limite absoluto... drenara-o completamente, até que nada restasse.
E assim... o Rei Demônio declarou-se.
O mais forte absoluto.
O vencedor final deste jogo.
Seu fim seria selado com a morte daquele que fora levado à beira do abismo.
Ele estendeu a mão —
e estava prestes a golpear.
Foi quando —
todos os olhos se arregalaram em choque.
O jogo... não tinha acabado.
Com um único olho, Agaroth franziu a testa — seu olhar travando no homem que surgira do nada, segurando sua mão.
"Desta vez não... Agaroth!"
Do nada, Gehrman apareceu — ignorando completamente os sentidos do Rei Demônio, bem diante dos olhos de todos os seus seguidores.
Agaroth congelou por um breve momento.
Ele não conseguia compreender como aquele homem de olhos azuis havia deslizado para trás dele sem ser detectado.
Mas Gehrman não lhe deu tempo para pensar.
Seus olhos incendiaram-se — seu poder emergiu — e ele liberou uma de suas habilidades mais fortes.
"Guilhotina do Cronos!!"
Usando seu domínio sobre o tempo, Gehrman congelou o fluxo temporal da perspectiva de Agaroth, imobilizando-o.
Suportando a imensa pressão da técnica, Gehrman moveu-se instantaneamente — levantando o corpo quebrado de Frey em seus braços e recuando sem hesitação.
Mas o congelamento não durou.
Nem três segundos...
antes de se estilhaçar.
Agaroth libertou-se e voltou ao normal.
Gehrman sentiu uma onda de terror.
A última vez que usara essa habilidade em Agaroth, ela durara dez segundos inteiros... mas agora —
'Mesmo após estar completamente drenado da batalha... ele quebrou em menos de três segundos...'
O medo o dominou.
Como o Sem Nome e Frey conseguiram levar esse monstro a tal estado?
Mas Gehrman não parou.
Apesar do terror que arranhava sua mente, ele avançou com tudo o que tinha. Ele sabia...
aquele era o momento.
O momento pelo qual ele esperava... há muito tempo.
Um momento muito além do destino.
Mas ele não percebeu —
que o Rei Demônio já estava atrás dele.
Agaroth encurtara a distância instantaneamente.
"Eu sempre me perguntei o que você estava planejando... Gehrman."
"Se essa é sua aposta final... então tudo o que posso dizer é — patético."
Gehrman virou a cabeça levemente, ainda segurando Frey firmemente em seus braços.
"Sugiro que olhe para cima", disse ele calmamente, inabalável diante do Rei.
"Não sou eu quem você deveria estar visando."
Agaroth franziu a testa — mas obedeceu.
E quando ele olhou para cima —
ele viu.
Uma criatura massiva estendia suas asas diretamente acima dele.
Um pássaro monstruoso, suas penas negras como carvão, seu rosto assemelhando-se ao de um corvo ancestral.
Um dos Grandes [1]...
O Devorador do Caos havia descido.
Ele colidiu com o Rei Demônio com força total, jogando-o contra o solo em uma explosão violenta que espalhou poeira e destruição por toda a terra.
Mas Agaroth emergiu quase instantaneamente.
Atrás dele jazia o cadáver sem vida do Devorador — perfurado por dezenas de sombras que brilhavam com fogo negro.
O Rei ergueu o olhar mais uma vez.
Acima dele...
centenas de corvos colossais preenchiam o céu.
Pássaros massivos, banhados em sangue, que eclipsavam os próprios céus, mergulhando em direção a ele sem hesitação.
Pela primeira vez...
Agaroth não entendia o que estava acontecendo.
'Como eles estão contornando minhas defesas tão facilmente...?'
'E por que um Grande ajudaria ele...?'
Por um breve momento, ele reconsiderou tudo — imaginando se o próprio Odin estaria por trás daquilo.
Mas então —
o som de passos atrás dele estilhaçou esse pensamento.
"Aqui, Rei Demônio... Eu sou a resposta para suas perguntas."
Uma voz humana falou.
Agaroth virou-se.
Atrás dele estava um humano — de cabelos negros e olhos vermelhos.
Insignificante... à primeira vista.
"Quem é você?", perguntou o Rei Demônio, já ciente de que aquela forma não passava de uma fachada.
Aquele diante dele —
era alguém que ele já tinha visto antes.
Um dos humanos que sempre rondavam Frey.
Um estudante de elite fraco.
Dawn Polaris.
Mas aquele que falava...
não era Dawn.
Seu corpo tremeu —
e diante dos olhos de Agaroth —
ele se transformou.
Ele cresceu... muito mais alto.
Sua pele tornou-se cinza-pálida.
Seus olhos afundaram na escuridão.
Longos cabelos cinzas caíram atrás dele.
E sua presença —
mudou completamente.
Avassaladora.
Dominante.
Suficiente...
para se colocar diante do próprio Rei Demônio.
Ele o reconheceu imediatamente.
"O Grande da Terra..."
"Exatamente."
Uma aura esmagadora reuniu-se ao redor do Grande e, no instante seguinte, os Devoradores do Caos desceram — enxameando de todas as direções, cercando o Rei Demônio inteiramente em suas fileiras.
"Esta é a primeira vez que nos encontramos", disse o Grande calmamente, "mas perdoe-me... não tenho tempo para palavras."
Ele atacou sem hesitação, isolando o Rei de tudo ao seu redor.
"Você não vai a lugar nenhum. Você permanecerá aqui — comigo — no próprio planeta que você destruiu com suas próprias mãos."
Em um espetáculo brutal e estrondoso, o Rei Demônio foi enterrado sob centenas de bestas aladas colossais que haviam surgido do nada.
Criaturas colocadas sob o controle do Grande por algum meio desconhecido — um exército liberado unicamente para suprimi-lo.
Aquela intervenção concedeu a Gehrman a abertura que ele precisava.
Enquanto ascendia ao céu, ele trocou um breve olhar com o Grande... um entendimento silencioso passando entre eles.
'Cumpra sua parte do trato... Gehrman. O destino de uma raça inteira repousa sobre você.'
Enquanto o Grande continha Agaroth, Gehrman já havia fugido para longe.
De dentro de seu manto, ele sacou um dispositivo estranho que parecia uma bússola. Estendendo a mão, ele o ativou — desencadeando um feixe de luz branca que rasgou uma passagem pelo espaço e tempo.
Sem hesitação, Gehrman atravessou.
E deixou a Terra para trás.
Enquanto isso, Agaroth permanecia envolto sob o ataque implacável dos Devoradores do Caos e do Grande, combinados.
Exausto de sua batalha contra o Sem Nome, ele não conseguia responder com sua velocidade habitual... forçando-o, pela primeira vez, a dar ordens aos seus subordinados.
"Sigam-no."
Sua voz ecoou diretamente dentro da mente deles.
Todos se moveram instantaneamente — mas apenas três foram rápidos o suficiente para passar pelo portal que se fechava:
Maskith.
Wesker.
E o Duque do Inferno, Vex.
Eles emergiram do outro lado...
em um mundo completamente diferente.
Um céu carmesim.
Um terreno baldio, árido e sem vida.
Um planeta estranho e sufocante que irradiava uma atmosfera opressora.
Esta... era a antiga Londor.
[1] - Explicação: Em contextos de fantasia, "Grandes" ou "Great Ones" costumam se referir a entidades cósmicas ou seres ancestrais de poder inimaginável.