
Capítulo 845
O Ponto de Vista do Vilão
A voz de Nameless soou calma... mas carregada de algo mais profundo.
"Eu não consegui."
"Eu não pude queimar sua alma completamente... porque no momento em que ela se incendiou—
no momento em que obtive aquele poder..."
"...outra chama se acendeu dentro de mim."
Ele fez uma pausa.
"Eu estava enfurecido. Dominado pela raiva e pela tristeza... a ponto de não querer nada além de destruir Agaroth."
"Mas..."
"No momento em que o atingi com as presas da sua alma em fúria..."
"...minha própria alma começou a queimar também."
Ele olhou para mim.
E eu vi...
a verdade refletida em seus olhos.
"Quando você queimou... eu também queimei."
"Quando você morre, Frey... eu também morro."
Eu estava atordoado.
Nós... vivíamos juntos.
E também morreríamos juntos.
"Quando minha alma se incendiou", ele continuou, com a voz tremendo levemente,
"o aspecto da morte da minha habilidade parou de funcionar... e a queimação cessou junto com ele."
"É por isso que... você pôde abrir seus olhos novamente."
Sua voz oscilava...
revelando emoções que eram inteiramente dele.
"Eu não conseguia manter aquele poder."
"Eu só podia desferir um único golpe."
Ele pausou... então falou novamente.
"Mas Frey..."
Naquele momento—
Nameless removeu sua máscara.
Revelando seu rosto.
Fiquei chocado com o que vi...
Mas ainda mais com a expressão que ele trazia.
Um sorriso.
Um sorriso gentil—cheio de alívio... e algo próximo da salvação.
"Eu estava... feliz."
"Fiquei feliz por não ter precisado queimar sua alma completamente."
"Porque... eu também queria te salvar. Mais do que qualquer outra pessoa."
"Senti-me em paz."
"E de alguma forma... não tenho arrependimentos."
Nameless falou mais do que eu jamais o ouvira falar antes.
Cada palavra carregava peso...
viva com emoções que lhe faltaram por tantos anos.
E eu me senti comovido também.
Aqueles mesmos sentimentos agitaram-se dentro de mim.
Eu não podia culpá-lo.
Tudo o que pude fazer...
foi sorrir.
"Eu entendo."
Assenti levemente.
E juntos, caminhamos para o mais profundo da escuridão.
Passo a passo—
até que uma luz fraca apareceu à distância.
Sem hesitar, seguimos em direção a ela—
fazendo dela nosso único guia.
E em poucos minutos...
a alcançamos.
Uma pequena e suave chama.
Um fogo morno...
a única fonte de luz naquele mundo infinito.
Uma simples fogueira queimava—familiar, silenciosa—
seu calor suave envolvendo o espaço em uma sensação de segurança e calma.
Ao redor dela, sentava-se um grupo de figuras familiares, reunidas, buscando força em seu calor.
As chamas dançavam suavemente sobre seus rostos, iluminando expressões moldadas por vidas diferentes... mas ligadas pelo mesmo núcleo.
No momento em que Nameless e eu chegamos, todos se viraram de uma vez.
Cada olhar carregava uma emoção diferente...
mas nenhum deles continha hostilidade.
Apenas compreensão.
Apenas aceitação.
Apenas... nós.
Todos nós compartilhávamos o mesmo rosto.
Éramos fragmentos da mesma existência...
versões de mim mesmo espalhadas pelo tempo, cada uma forjada por uma luta diferente, um capítulo diferente.
"Então... até o Nameless, e o nosso eu mais forte de todos... acabaram aqui no final."
Disse uma versão—de cabelos brancos, com traços pesados de um desespero silencioso.
"Não foi o suficiente... todo aquele sofrimento, toda aquela luta... ainda não foi o suficiente."
Outro respondeu—cabelos negros longos, olhos ainda vivos com desafio.
"Não havia nada que pudéssemos fazer. Desta vez... o muro era alto demais. Estamos falando do Rei Demônio."
Todos assentiram.
"Era impossível prever a chegada de Agaroth", disse a versão de mim que um dia fora um escritor, virando-se para Nameless.
"Você era o mais próximo. Tão perto de derrotá-lo... todo aquele poder não foi suficiente? Todos aqueles sacrifícios não foram o suficiente?"
Nameless balançou a cabeça.
"Eu ataquei com tudo o que pude reunir... e pela primeira vez..."
"Eu o superei."
Ele fez uma pausa.
"Mas aquele nível de poder... não foi suficiente para matá-lo."
"O que teria acontecido se você estivesse completo?", outro perguntou. "O resultado teria sido diferente?"
"Eu... não sei."
Nameless fechou o punho levemente.
"Eu dei tudo o que tinha... mas não pude dar tudo o que Frey tinha."
Ele se virou para mim enquanto falava.
"A queimação parou... e com ela, o fluxo daquele poder."
"...Talvez se nossas almas tivessem queimado até o fim—"
Ele se interrompeu.
"Não... não importaria. Agaroth também não tinha revelado tudo."
"Então... este é o fim?", um deles perguntou.
Desta vez, eu respondi.
"Não."
Olhei para o fogo silencioso—
observando suas chamas refletirem em meus olhos.
"Estes olhos... abrirão novamente."
"Ainda há muito mais nesta história."
Naquele momento, cada versão de mim olhou de volta...
Nameless inclusive.
Então, sem dizer mais uma palavra, todos nós nos sentamos ao redor da fogueira.
E esperamos.
Esperamos o próximo capítulo começar...
para a próxima versão aparecer.
Uma mais forte.
Uma melhor.
Uma versão na qual pudéssemos depositar nossos fardos... nossas esperanças... nossos sonhos.
Um outro eu...
que trilharia o caminho que esculpimos com nossas próprias mãos.
Até que esse momento chegasse—
Frey Starlight não cairia.
Ele continuaria seguindo em frente.
Assim como sempre fizera.
…
…
…
A batalha entre Nameless e Agaroth chegou ao fim.
Eles colidiram com tudo o que tinham...
e, ao fazê-lo, abalaram os próprios alicerces do universo e do mundo material, lembrando a todos os seres vivos... quem estava no topo.
De alguma forma—
tudo terminou onde começou.
De volta à Terra.
Aquele mesmo planeta onde todos os seres vivos já haviam perecido...
Agaroth apareceu primeiro.
Seus seguidores permaneciam por perto, observando à distância...
cautelosos, tremendo, incapazes de se aproximar.
Seus rostos estavam cheios de choque.
De medo.
De algo mais profundo.
Por causa do que viam.
O Rei Demônio...
o tirano que nunca havia perdido sua presença avassaladora...
estava diante deles—
quebrado.
Suas sombras haviam diminuído.
Sua aura... não era mais tão sufocante quanto antes.
Seu peito estava aberto.
Seu abdômen estraçalhado.
Metade de seu rosto estava destruída.
O Olho do Rei...
destruído.
Perdido.
E o ferimento—
não se curava.
Não importava quantas vezes ele tentasse, continuava a sangrar... infinitamente.
Um ferimento violeta—irradiando um brilho violento—
banhado em sangue negro e fragmentos de aura sombria.
Ele estava destroçado.
Mais do que jamais estivera.
E ainda assim... seu olho restante...
e seu rosto arruinado...
tinham uma expressão que desafiava tudo o mais.
Satisfação.
Como se ele tivesse finalmente se saciado—
uma refeição que ele nunca mais provaria em sua vida.
Um sorriso se abriu em seu rosto... largo, genuíno...
o sorriso de alguém cujo vazio... finalmente fora preenchido.
Diante dele... Nameless estava deitado no chão.
Braços decepados.
Pernas perdidas.
Seu peito estava tão profundamente aberto... que seu coração estava exposto.
Metade de sua máscara havia se estilhaçado—
apenas um fragmento distorcido e quebrado permanecia.
No lado exposto—
o rosto de Frey.
No lado escondido—
Nameless.
Agaroth olhou para ele... e falou.
"Obrigado."
"Nunca esquecerei este dia... enquanto eu viver."
"Não esquecerei, Frey... eu não esquecerei."
Ele estendeu a mão.
"Nunca esquecerei você."