
Capítulo 700
O Ponto de Vista do Vilão
Isto… é confuso.
Frey murmurou, sem conseguir compreender tudo ao seu redor.
Então, quase automaticamente, ele liberou uma leve onda de aura... sondando sua presença.
Foi quando ele entendeu.
"Sua força atual te permite perceber isso, Frey. Você não é idiota... consegue notar que isso não passa de uma projeção, um fragmento da minha consciência."
A voz de Audrey estava calma enquanto ela se aproximava.
"Então essa não é seu corpo verdadeiro…"
"Não", ela admitiu suavemente.
O que estava diante dele era apenas uma manifestação temporária... uma borboleta que escapou de Helmund, carregando um fragmento de sua consciência.
Seu verdadeiro corpo nem sequer tinha ideia de que esse encontro estava acontecendo.
Na realidade, a verdade é que Audrey estava destruída... presa em tormento infinito, usada pelos demônios como uma fonte eterna de Aura.
Ela já não sabia mais o que era real... nem que tinha salvado Frey e Snow de alguma ameaça.
Anos de sofrimento haviam destroçado sua mente.
E agora, esse único fragmento... essa borboleta
… era tudo que restava daquela mulher que um dia foi a Santa Carmesim.
Seu corpo estava profanado e despedaçado... mas sua mente... sua própria consciência... era muito pior.
Naturalmente, Frey não tinha ideia de tudo isso.
Mas, ao perceber que aquela mulher diante dele era apenas um fragmento... uma projeção, isso facilitou seu entendimento sobre por que Audrey parecia tão diferente daquela que ele conhecia.
No entanto, algo mais permanecia em seus pensamentos.
"Já nos encontramos antes? Você parece... familiar."
E você salvou minha vida... minha e de Snow. Te devo muito por isso."
O tom de Frey era incerto, como se estivesse inseguro sobre como falar com ela ou sobre o que pensar em relação ao calor estranho que sentia por essa mulher.
Audrey balançou a cabeça suavemente.
"Sim, já nos encontramos antes.
E você não precisa me agradecer... porque você me salvou inúmeras vezes também.
De tantas que perdi a conta."
Ela sorriu suavemente enquanto se aproximava.
A confusão de Frey só aumentava.
Ele não se lembrava de nada disso.
"Tenho tantas coisas para te contar... coisas que preciso dizer… mas meu tempo está acabando.
Já entreguei força demais a você e Snow só para permanecer aqui."
Até manter sua forma temporária estava se tornando insuportável; sua energia se esvaía rapidamente.
"Então, com o pouco tempo que me resta, vou dizer isto, Frey... o selo de Agaroth está enfraquecendo.
Se as coisas continuarem assim, o Rei Demônio se libertará bem antes de você recuperar todo o seu poder."
Sua voz era urgente e firme. A expressão de Frey escureceu instantaneamente.
"Do que você está falando?"
E assim, Audrey contou tudo a ele.
A verdade que quebrou o silêncio entre eles.
Quanto mais forte Frey ficava, mais fraco o selo se tornava.
O poder de Agaroth era tão avassalador que ele não precisaria esperar Frey virar o novo Nameless. Ele poderia escapar ainda antes.
Esse foi o primeiro aviso de Audrey.
Mas antes que Frey pudesse processar, ela falou novamente... mais rápido, mais desesperada.
"Tenha cuidado, Frey. O Rei Demônio não é o único que você deve temer.
Outro ser... igualmente perigoso... está tentando retornar ao nosso mundo.
Um que todos nós sacrificamos tudo para destruir."
Ela estendeu as mãos, segurando o rosto de Frey com ambas.
"Fique atento ao Odin, Frey.
Não o confronte. Ainda não. Até você alcançar o Sétimo Estágio de Rank SSS... até sua verdadeira força retornar."
Seu corpo começou a piscar, fragmentos de sua luz rubra dispersando-se ao vento, mas ela continuou falando, apesar disso.
Frey tentou acompanhar suas palavras; sua mente rodava.
A revelação sobre o Rei Demônio já era pesada o suficiente... agora, um inimigo desconhecido, que ele nem tinha ouvido falar?
"Odin criou os Grandes. São apenas ferramentas... extensões de sua vontade... projetadas para preparar este mundo para seu retorno.
Há muito tempo, ele perdeu sua forma física numa guerra tão antiga que foi apagada da memória.
Os guerreiros mais poderosos daquela era uniram forças para destruí-lo... e conseguimos — ou assim pensávamos.
Mas Odin não morreu.
Sua essência persistiu... uma presença espiritual além do alcance de qualquer um."
Sua voz tremia agora, não de medo, mas de lembrança.
Audrey estivera lá. Lutou contra Odin... ela mesma... ao lado de Agaroth, de todas as criaturas.
"Você não pode fazer nada a respeito dele agora, Frey. Apenas... esteja atento.
Lembre-se de que ele existe."
Odin... um monstro que o mundo já esqueceu.
A calamidade cujo nome um dia destruiu civilizações inteiras.
Se ele algum dia retornar, somente o Rei Demônio será forte o suficiente para enfrentá-lo.
Audrey continuou, desesperada para compartilhar tudo que podia antes que seu tempo se esgotasse.
"Frey... o mundo é vasto, e seus inimigos são inúmeros.
Eles vão te enganar, te manipular, te levar ao limite.
Mas eu não vou deixar você caminhar às cegas, mais."
Sua voz tremia de emoção.
"Você é importante, Frey.
Nunca se subestime... nunca diminua quem você é.
Você é a existência mais crucial neste mundo."
"Ainda tenho tanta coisa para te dizer... coisas que escondi dentro de mim por tanto tempo…
mas o tempo acabou. Que dor isso traz…"
Uma lágrima caiu do olho de Audrey... sua última lágrima... enquanto seu corpo começava a desintegrar-se.
"Audrey... Eu—"
A voz de Frey vacilou, tentando compreender tudo que acabara de ouvir.
Mas ela não tinha mais tempo.
"Voltarei, Frey.
Não vou te deixar enfrentar tudo sozinho.
Vou voltar... custe o que custar!"
Ela gritou seu último voto... e deu mais um passo à frente, jogando-se nos braços dele.
Antes que pudesse reagir, seu corpo se desfez ao meio, impossibilitando que seus lábios se encontrassem.
Apenas poeira rubra restou... dispersando-se ao vento, brilhando suavemente enquanto ascendia ao céu.
Frey ficou ali, imóvel, assistindo à dispersão.
Agaroth. Odin.
"Apenas... o que diabos está acontecendo com este mundo?"
Ele apertou os punhos enquanto o chão tremia ao seu redor.
Parecia que o próprio destino tinha voltado a girar... puxando-o para batalhas sem fim,
em direção ao ápice da existência…
em direção aos seres mais poderosos que este mundo já conheceu.
A sensação era avassaladora.
Sintoma de mau agouro.
Inevitável.