
Capítulo 483
O Ponto de Vista do Vilão
– Ponto de vista de Frey Starlight –
A manhã chegou, anunciando o começo de um novo dia... mais um passo nesta longa jornada que chamam de vida.
Senti meu corpo ficar rígido ao despertar. Pela primeira vez em bastante tempo, consegui dormir bem à noite, algo que vinha sendo raro recentemente.
Desde que obtive este corpo sobre-humano que me diferencia de todas as outras criaturas, o sono deixou de ser uma necessidade… virou uma fuga, uma válvula de escape.
Um reino de sonhos para onde corro quando o peso do mundo ameaça me esmagar.
Levantei-me silenciosamente, sentado na cama enquanto examinava meu corpo.
Passando os dedos pelos meus membros, conseguia sentir a força voltando a pulsar pelas minhas veias, após o cansaço intenso que tinha suportado recentemente.
Não havia um único arranhão no meu torso desnudo. Meu corpo estava impecável… graças à minha habilidade de regeneração, que apagava qualquer vestígio de ferida como se nunca tivessem existido.
Fazia três anos desde que reencarnei nesse corpo.
Três anos longos de provações que moldaram quem me tornei.
Agora conseguia enxergar claramente… a versão de mim do passado.
Aquela versão fraca, que um dia desabou em desespero no seu quarto ao perceber que tinha sido reencarnado no mundo do seu próprio romance.
Parecia que eu tinha escalado uma quantidade incalculável de montanhas desde então.
Tornei-me mais forte… muito mais forte.
Conquistei um poder capaz de estremecer o mundo... e esmagar os inimigos que por ele andam.
Porém, no fundo, sabia que aquilo ainda não era o fim.
Muitos obstáculos ainda me aguardavam… picos muito mais altos do que os que já enfrentei.
Os desafios à minha frente ficariam ainda mais difíceis, e isso eu sabia desde o momento em que vi o nome de Wesker na missão final imposta por Sistema.
Para encarar horrores assim, precisava me fortalecer… muito mais.
Eu tinha que seguir em frente.
Tinha que me tornar um monstro forte o suficiente para estar no mesmo palco onde os titãs deste mundo ficam sozinhos.
Para alcançar isso… tinha plena consciência de que teria que pagar um preço alto pela força que buscava.
Talvez eu me perdesse de mim mesmo.
Talvez eu perdesse algo tão precioso que jamais conseguiria viver sem isso novamente.
Talvez a vida me destruísse mais do que nunca antes.
Iria perder muitas coisas… mas havia uma que eu nunca poderia abrir mão, independentemente do custo.
Meu objetivo.
Aquela meta única que tracei para mim… que me dava força para caminhar pelo inferno, se fosse preciso.
A meta que me dava força para continuar, lutar, não importa o que estivesse na minha frente.
De algum modo, senti que tinha começado a perder partes de mim… até mesmo as emoções que uma vez turvaram minha visão no passado.
Empurrando os longos fios brancos que cresceram recentemente, olhei para o teto do meu quarto… um quarto que tremer ocasionalmente, mostrando que a nave ainda avançava.
Nesse raro momento de paz durante a guerra, minha mente voltou ao instante em que encarei o meio-demoníaco Gvardiol.
Nunca na minha vida imaginaria que seria capaz de me controlar diante do homem que matou alguém tão querido para mim.
O homem que matou Danzo.
Achava que entraria em fúria no instante em que o visse.
Passei horas incontáveis planejando a maneira perfeita de vingar.
Uma forma de fazer ele sofrer. De matá-lo da maneira mais excruciante e impiedosa.
Queria liberar toda força que reuni através do meu treinamento… tudo nele.
Mas, quando chegou o momento da verdade…
Esses sentimentos desapareceram.
Como se alguém tivesse apagado o fogo selvagem do meu coração com água bem gelada.
Por mais que eu olhasse para ele… Gvardiol já não parecia mais do que um inimigo a ser eliminado.
Assim como qualquer outro vagabundo dos Ultras.
Outro inseto.
Uma criatura imunda que o mundo certamente estaria melhor sem.
Pensar assim… essa mentalidade… foi o que permitiu que eu sobrevivesse à primeira rodada da guerra do jeito que fiz.
E trouxe o melhor resultado possível.
Ganhei o amor de cada soldado do Exército Imperial, fazendo-os me seguir sem perceber.
Dava esperança quando a escuridão tomava seus corações. Mostrava milagres quando parecia que o mundo ia acabar.
Dizia exatamente o que eles precisavam ouvir, no momento certo, no lugar certo… e fazia tudo isso de propósito.
Não era por amor a eles.
Nem por piedade.
Era porque precisava que me seguissem no futuro, para que eu pudesse realizar a meta que havia traçado há muito tempo.
Manipulei todos… todos eles.
Eu… de todos, o que tinha mais motivos para isso.
Assim como aqueles lá em cima brincaram com meu destino e tentaram moldá-lo à sua vontade, aqui estou eu, manipulando os que estão ao meu redor, em troca.
Ações dignas de pessoas como o príncipe Aegon… com quem um dia desprezei.
"… Eu mudei. Realmente mudei."
Mas tudo bem.
Mesmo parecendo um hipócrita…
Mesmo se eu me tornasse um bandido…
Não fazia diferença.
As pessoas pelas quais realmente me importava eram poucas… tão poucas que dava pra contar na mão.
Isso era só o começo…
"Tenho que suportar… até o fim."
Reforçando minha determinação mais uma vez, abandonei meus pensamentos e tentei me levantar da cama.
Mas congelei no meio do movimento ao sentir um par de braços delgados me envolverem firmemente na cintura.
Estavam ali desde o começo… tanto que meu corpo já tinha se habituado a eles, e eu tinha completamente esquecido.
Ao meu lado, Sansa dormia tranquilamente, em paz.
Apesar dos chifres escuros que cresciam do topo da cabeça dela, ela parecia um anjo adormecido.
Ela realmente era… deslumbrante.
Devagar, me afastei, puxando o cobertor sobre o corpo dela para esconder as curvas que meus olhos tinham tanto observado… de forma inconsciente, naquela hora.
Naquele instante, parecíamos um casal casado. Um par tranquilo que vivia uma vida calma em uma casa modesta.
E, de modo estranho… não parecia uma coisa ruim. Na verdade, parecia um final bonito, algo que eu talvez desejasse um dia.
Mas isso não éramos nós.
Nós não éramos um marido e uma esposa serenos… éramos Frey Starlight, o monstro, e Sansa Valerion, a demônio. Dois seres destinados a serem os primeiros a mergulhar nas chamas da guerra.
Por onde quer que passávamos, a morte vinha atrás.
Levamos isso à nossa maneira há muito tempo. E estávamos prontos para seguir em frente, não importando o preço, juntos.
Dei um beijo suave na testa dela, depois me afastei silenciosamente, deixando-a para trás enquanto saía do quarto. Coloquei minha armadura preta e me preparei para enfrentar mais um dia em terras inimigas.
"Até mais," disse, com um leve sorriso, fechando a porta atrás de mim.
No instante em que o fiz, percebi que ela se mexeu… desajeitadamente, nesse momento.
Ela estivera acordada o tempo todo. Não havia mexido um músculo, mas eu sabia. Eu lia ela como um livro. Ainda estava abalada pela noite anterior, especialmente pelo fato de eu ter assumido a liderança do jeito que fiz.
Fingir que estava dormindo… que tolice. Ainda mais sabendo que ela podia ouvir seus próprios pensamentos.
Mesmo assim, continuei brincando.
Porque, honestamente, Sansa nervosa era muito mais divertida do que a demônio fria e dominante de sempre.
Era esse tipo de relacionamento que eu tinha com ela.
Acho que o futuro nos reservará várias reviravoltas. Mas uma coisa era certa… Sansa era alguém que eu realmente queria ao meu lado.
Por isso, decidi mantê-la perto. Porque ela era uma das poucas que realmente importavam para mim.
E, seja o que for que o futuro nos reserve… iremos encarar juntos.