
Capítulo 669
O Ponto de Vista do Vilão
Após a batalha devastadora em que o Primeiro Assento, Crimson, destruiu todos os demais Assentos Elevados, o mundo de Helmond jazia em ruínas—sua superfície rachada, o ar ardendo em vermelho sob a imensidão do Domínio Vermelho.
Agora, Crimson ajoelhava-se com um joelho no chão em meio ao silêncio, enquanto o som de aplausos ecoava pela desolação, preenchendo o vazio deixado pela guerra.
O confronto entre Crimson e os demônios superiores tinha destruído completamente Helmond. Seu domínio se espalhara por vastas distâncias, causando devastação total ao mundo morto. O poder do Primeiro Assento existia numa magnitude além da compreensão... muito além do que fora antes dele parar de lutar para servir ao Agaroth.
Vestindo sua armadura carmesim, com os longos cabelos vermelhos fluindo como fogo, Crimson parecia a própria imagem da realeza... um monstro vestido com a majestade da aniquilação.
E, no entanto, essa entidade poderosa agora se encontrava ajoelhada diante de outra... uma presença ainda maior.
"Uma performance maravilhosa."
A voz soou suavemente, de forma íntima, como um sussurro diretamente no ouvido de Crimson...
ainda que sua origem estivesse muito, muito distante.
À distância, a silhueta de uma nuvem escura apareceu na visão. Dois olhos vermelhos cintilaram na neblina...
um deles era o Olho do Rei, aquele que via o destino e todos os futuros possíveis.
Não havia dúvidas sobre a identidade.
O Devora Tudo.
O Rei dos Demônios.
O Grande... Agaroth.
Ele estivera presente desde o começo, observando silenciosamente a batalha entre Crimson e os demais Assentos Elevados.
Mas, além de Crimson... e talvez Wesker, que tinha percebido algo...
nenhum dos outros tinha percebido que o próprio Rei Demônio estava assistindo.
Agaaroth parecia satisfeito, impressionado com o espetáculo que seu Primeiro Assento havia entregue.
"Vamos pôr as coisas no seu lugar", murmurou.
Com um simples movimento da mão, os dedos escuros do Rei brilharam, formando ondulações no ar.
Aquela ondulação se espalhou para fora, expandindo-se...
até se transformar numa onda que varreu o campo de batalha em todas as direções.
A própria realidade se quebrou... como vidro se estilhaçando em mil pedaços.
E então, em um próximo instante, aconteceu o impossível.
O cenário desolado desapareceu. O campo de batalha sumiu.
O céu se abriu. O chão se recompôs.
Rachaduras se fecharam, crateras sumiram, e o Salão do Pesadelo se recompos e voltou a existir ao redor do trono onde Agaroth agora se sentava.
Pouco tempo depois, quatorze figuras surgiram do nada...
os Assentos Elevados, do Segundo ao Quintoquarto, cada um de pé novamente, vivo e completo, com expressões de confusão em seus rostos.
"O que... o que acabou de acontecer?"
Todos murmuraram as mesmas palavras simultaneamente.
Minutos atrás, eles lutavam contra Crimson...
e estavam sendo derrotados, de forma horrenda. O Domínio Vermelho dele os havia esmagado além da recuperação.
Eles tinham morrido, sem dúvida alguma.
Então, como... como ainda estavam vivos?
De joelhos diante deles, os olhos de Crimson brilharam em um vermelho ofuscante ao falar, sua voz retumbante e autoritária:
"O Rei está diante de vocês. Como ousem desviar o olhar?"
O peso de sua aura caiu como uma tsunami.
De imediato, todos os demônios voltaram seus olhares para o trono...
para a entidade que ali se assentava.
A luz fraca das velas vacilou ainda mais na sua presença.
As sombras se aprofundaram.
Apenas o brilho de seus olhos carmesim iluminava o salão agora.
E, quando os Assentos Elevados finalmente o viram com seus próprios olhos...
seus corpos recuaram.
Desabaram ao chão, prostrados diante do trono.
Ao contrário de Crimson, que se ajoelhava como um cavaleiro diante de seu senhor,
os demais pressionaram suas testas ao chão, incapazes até de levantar a cabeça.
Não porque escolhessem...
mas porque não podiam.
A presença de Agaroth era algo incomparável.
Mesmo com sua vasta e opressora aura contida, sua gravidade absoluta os mantinha completamente submissos.
Ele tinha estado ali o tempo todo, sentado atrás deles, mas nenhum percebeu sua presença até Crimson abrir a boca.
Agora que o viram, a verdade de sua existência era insuportável.
Costumava-se dizer que a aura de Crimson era equiparável à do próprio Rei...
e isso era verdade.
Mas a diferença era profunda.
A presença de Crimson era imensa, aterrorizante...
Enquanto a de Agaroth era de outro mundo...
algo além de qualquer lógica ou compreensão,
um poder que exalava um terror insondável,
como se o próprio universo se curvasse sob seu peso.
Crimson era um monstro.
Mas a criatura diante deles...
era o próprio conceito de medo em si.
Enquanto estavam de joelhos, pensamentos corriam na mente dos Assentos Elevados.
O Rei Demônio estava ali.
A entidade que se havia retirado desde a guerra contra o Desdenhado,
desconhecida há eras...
estava agora na presença deles, logo após a batalha contra Crimson.
Eles tentavam entender o que estava acontecendo...
especialmente Wesker, o Quarto Assento.
"Foi o que acabou de acontecer uma das habilidades do Rei?" ele se perguntava.
"Ele... reverteu o tempo?"
Observando ao redor através do Olho do Rei, Wesker logo descartou o pensamento.
"Não... o tempo nunca foi revertido. Nunca sequer pausou.
O Rei não possui poderes temporais.
Reverter o tempo é impossível."
Seu olho não apenas via o destino; percebia o fluxo de aura e a distorção da energia com perfeição.
Desde a batalha com Crimson, o tempo seguia normalmente...
e os remanescentes do poder liberado ainda permaneciam no ar.
Isso significava que o Rei não havia alterado o tempo de modo algum.
O que ele fez... era algo completamente além da compreensão.
E por mais que Wesker tentasse discernir, ele não conseguia.
Nem os outros.
Tudo que eles sabiam...
era que Agaroth tinha feito algo que os restaurou completamente.
Ele tinha trazido-os de volta da própria morte...
como se nada tivesse acontecido.
Nenhum deles conseguia entender o que ele tinha feito...
e isso só tornava o Rei diante deles ainda mais aterrorizante, ainda mais inexplicável.
Agora, com Agaroth e Crimson juntos em um só lugar, o próprio ar tornou-se sufocante.
Até os Assentos Elevados mais fracos, como o Décimoquarto e o Décimoquinto, tremiam sob o peso esmagador de suas presenças — mal conseguindo manter-se de pé.
Após um breve silêncio tenso, no qual ninguém ousou falar perante o Rei, Agaroth quebrou o silêncio.
"Este lugar… não mudou desde a última vez que o vi."
Sua voz profunda reverberou pelo Salão do Pesadelo enquanto seus olhos carmesim percorriam lentamente a câmara... o mesmo salão do trono feito para ele nos primórdios de seu reinado.
Olhou para os Assentos Elevados e continuou,
"E vocês também não."
Um breve momento. Então, corrigiu-se:
"Na verdade, só os onze primeiros permanecem iguais. Os demais mudaram desde a última vez que estive aqui."
De fato, ao contrário dos primeiros onze assentos, que sobreviveram por milênios, os demais tinham sido há muito trocados.
A hierarquia inferior tinha caído—alguns mortos em guerras contra outras raças, outros devorados ou apagados de maneiras não ditas.
Agaroth afastou o pensamento com um gesto leve.
"Não importa. Vamos começar a Noite dos Pesadelos."
Ao seu comando, todos os demônios retomaram seus assentos.
Pela primeira vez desde sua chegada, puderam falar.
Alguns desejavam louvar a glória do Rei, mas todos sabiam que ele desprezava bajulação.
Então, foi Marvas, o mais antigo entre eles, quem ousou fazer a pergunta que ardia na mente de todos.
"Meu Rei… perdoe minha audácia—mas o que aconteceu conosco? E por que o Primeiro Assento tentou nos matar?"
Por que aquela matança?
E como ainda estamos vivos?
Agaroth ignorou completamente a segunda questão, não revelando nada sobre seu poder misterioso.
Porém, respondeu à primeira:
"Crimson esteve ausente das batalhas por tempo demais," disse o Rei com frieza.
"Ele quis reviver a sensação do combate antes de retornar às atividades.
Então, concedi esse desejo a ele."
O salão ficou em silêncio.
Essa única frase revelou tudo que eles precisavam saber.
O Primeiro Assento retornava à ativa.
Palavras que carregam peso além de qualquer medida.
Crimson... que se afastou do mundo desde a retirada de Agaroth... nunca interferiu nos assuntos terrenos.
Sua reemergência só poderia significar uma coisa:
que o equilíbrio de poder estava prestes a ruir.
As facções lideradas por Marvas e Wesker logo desmoronariam.
A liderança retornaria totalmente a Crimson.
Ninguém... nem Agares, nem Gael do Ducado Infernal... poderia se opor a ele.
Mas por que agora?
Por que Crimson retornou neste momento, após tanto tempo?
Para responder a isso, Crimson mesmo falou:
"Alguns de vocês já sabem," começou, levantando-se lentamente de um joelho, sua armadura brilhando sob a tênue luz vermelha.
"Este mundo em que vivemos... está mudando."
Pausou, sua voz profunda e calma.
"Estamos à beira de confrontar o desconhecido.
Em breve, nossos passos pousarão numa terra estranha... que nenhum ser realmente compreende."
A essas palavras, vários Assentos Elevados trocaram olhares... seus olhos se iluminando de reconhecimento.
Sabiam exatamente o que ele queria dizer.
Este era o ponto de virada da Conferência dos Pesadelos... um que seria lembrado na história.
O primeiro a descobri-la foi Zibar, o Décimo Assento.
Muito além dos reinos conhecidos, surgiu uma terra estranha...
uma colossal continente que antes não existia, materializando-se do nada no infinito vazio do cosmo.
Ninguém a tinha visto antes.
Ninguém sabia o que era.
Mas virou o assunto de todas as raças, todos os poderes, todos os deuses.
Era a Terra Desconhecida.
E, com sua aparição repentina, os Grandes também começaram a se agitar.
Agaroth, sendo um deles, sentiu imediatamente.
A aparição daquele mundo... e os movimentos incomuns dos Grandes...
significava que algo se aproximava.
Algo colossal.
Até as raças mortais começaram a planejar invadi-la, para reivindicá-la como sua.
E os Grandes não eram exceção.
Por isso Crimson decidiu voltar.
"Lutei contra vocês todos," disse Crimson, seu corpo irradiando uma intensa luz vermelha, "porque precisava lembrar o que significa lutar."
Abriu seus olhos—dois sóis de fúria vermelha.
"Porque a partir de agora…"
"Começarei a caçar os Grandes."
Suas últimas palavras soaram como trovão.
O salão tremeu.
Mesmo os mais fortes ficaram boquiabertos.
O Primeiro Assento... Crimson, o Sangue do Rei...
acabou de declarar guerra aos próprios Grandes.
Os demônios, assim como o restante da existência,
decidiram marchar rumo ao continente misterioso que apareceu no coração do cosmos.
E assim começou a Conferência dos Pesadelos...
um presságio terrível:
uma nova calamidade estava prestes a começar.