
Capítulo 599
O Ponto de Vista do Vilão
Graças a Liora, a Santa do Amanhecer, um fragmento esquecido do passado finalmente foi revelado—verdades que estavam ocultas da memória presente.
A realidade não se assemelhava em nada ao que Snow e Uriel acreditavam a vida toda, alimentados por histórias de heróis como Kazis Valerion e seu sacrifício glorioso.
Mas, no final, até mesmo esse sacrifício revelou-se ter sido orquestrado por alguém mais... o Engenheiro, que caminhava pelo mundo desde há centenas de anos.
Os heróis da humanidade tentaram lutar contra os demônios, mas tudo o que os aguardava do outro lado—em Helmund—era a morte, a derrota e o desespero absoluto.
Uma derrota tão completa que levou os últimos campeões da Terra a seguir a estranha visão mostrada pelo Engenheiro, convencendo-se de que só teriam chance de vencer muito no futuro distante.
"Depois que Kazis se sacrificou, cada um de nós que esteve ao seu lado seguiu seu próprio caminho... seja os líderes das clãs, ou os Leitores. Não sei qual foi o destino deles, mas tenho certeza de que alguns ainda estão por aí, em algum lugar neste mundo."
Com essas palavras, Liora libertou Frey e os demais do fio de suas memórias.
O silêncio pairou entre eles por um longo tempo.
Snow foi o primeiro a romper, soltando uma risada seca enquanto pressionava a mão contra a testa.
"Ah... isso é realmente... realmente decepcionante."
Todos os olhares se voltaram para ele—de Frey, Uriel e até de Liora—questionando o que exatamente ele queria dizer.
Snow falou seus pensamentos em voz alta, compartilhando sua avaliação honesta após tudo que havia ouvido.
"Não sei se deveria me sentir aliviado ao saber que a humanidade ainda tem tantos guerreiros formidáveis... ou se desesperar ao perceber que os próprios heróis que admirei eram apenas covardes—derrotados e manipulados por seres que nem sequer eram humanos."
Suas últimas palavras foram dirigidas diretamente à santa, embora ela nada dissesse. Em vez disso, Uriel falou em sua defesa.
"Snow... como você pode dizer isso?!" ela questionou, com respeito sincero na voz por aquela santa que salvará suas vidas.
Frey permaneceu neutro, mas a decepção de Snow era crua e desmascarada.
"Santa Liora, não conheço muito a seu respeito, e não sou quem para julgar os outros. Mas deixe-me perguntar: você realmente acredita que esta geração trará a vitória que espera?"
Ao dar um passo à frente, o tom de Snow se tornou mais severo.
"Eu, junto com aquele ali—" ele apontou para Frey, "—somos os mais fortes que esta geração tem a oferecer."
E sua afirmação não estava errada.
"Ainda assim, perdemos. Morremos contra Blattier. O mesmo homem que você derrotou com facilidade, sem levar um arranhão. Diga, Santa do Amanhecer—o que você vê em nós? O que acha que podemos realizar quando nem conseguimos superar um único homem que é nada comparado aos inimigos que vocês enfrentaram no passado?"
A ideia de Snow era clara.
Ele não suportava como Liora e os demais tinham optado por recuar, deixando tudo para o futuro. O que mais o enfurecia era a confiança cega deles em uma entidade não-humana, cujo conhecimento era nulo.
"Enquanto vocês se escondiam todos esses anos, este mundo sofreu guerra após guerra, com milhões morrendo. Guerras que poderiam ter terminado instantaneamente se vocês mostrassem suas caras ao invés de se esconderem! Nós morremos todos os dias. E essa guerra que estamos enfrentando agora é a prova disso!"
Em um único dia, Blattier matou trinta e cinco milhões de pessoas—e a guerra ainda estava longe de acabar.
"Você disse que quebrou o voto ao se revelar mais cedo. Pelo que entendi, seu retorno não deveria ter acontecido ainda. Então, me diga—se você tivesse optado por continuar escondida, deixando todos nós morrerem… o que teria acontecido então?"
A santa vacilou, incapaz de responder.
"Isto…" ela começou, mas Snow a interrompeu.
"Vou te dizer o que teria acontecido. Você, e todos os seus companheiros—apareceriam apenas para encontrar cinzas. Nada além das cinzas de cadáveres humanos, as próprias pessoas que vocês alegaram lutar para proteger."
"Que valor teria então esse voto? Que valor teria uma vitória naquele momento?"
"Este era o único caminho, Snow Lionheart."
"Não, droga, não era!!" a voz de Snow se tornou aguda, carregada de raiva.
Ao contrário de Frey, que conseguia entender um pouco Liora e os demais por conhecer a força dos demônios e a existência do Engenheiro—Snow não podia.
Ele tinha acabado de experimentar a morte pelas mãos de Blattier, deixando uma cicatriz profunda na alma.
Durante toda a vida, acreditava que o rank SSS fosse o auge. Acreditava que os heróis do passado fossem verdadeiros campeões, capazes de resistir aos demônios mais poderosos.
Mas a realidade destruiu essa crença. Mesmo no nível SSS, a disparidade era monstruosa. O Primeiro Assento, Crimson, os matou com um único golpe, como se fossem nada mais que barata moscas.
E o Engenheiro? Com apenas algumas palavras, manipulou-os como gado sendo conduzido para a fuga mais fácil.
"Vocês eram todos covardes. Preferiram correr ao invés de lutar. Essa é a mentalidade de fracassados. Vivem há séculos, testemunhando horrores que devastaram este mundo—horrores que poderiam ter acabado com facilidade. E o que fizeram? Nada!!"
O corpo de Snow tremia enquanto pronunciava suas últimas palavras—então, ele começou a rir.
"Ha… ha… hahahaha… que coisa patética."
Apontando para si mesmo, Snow mostrou a Liora um sorriso desfeito.
"Olhe para mim! Sou apenas um fraco que você poderia matar com um único golpe. Diga-me—o que você vê em mim? O que acha que tenho, comparado a vocês, os chamados heróis de antigamente? Que grandeza você enxerga em mim, e em meus companheiros, que fizeram vocês sacrificarem tantas vidas só para nos esperar? O que exatamente você vê?!" ele rugiu, antes de rir novamente.
"Ah… você é cega. Então, acho que não enxerga nada mesmo. Minhas desculpas."
Snow Lionheart era um homem simples e direto.
Ele simplesmente não conseguia compreender o que seus antecessores fizeram—por mais que tentasse.
Para ele, eram apenas um grupo de covardes—homens e mulheres que escolheram fugir, fechando os olhos para as incontáveis mortes humanas ao longo daqueles longos séculos.
Tudo em troca de um voto, pelas palavras de uma entidade estranha, não-humana—palavras que não tinham prova de veracidade ou falsidade.
"Naquele dia, vocês deveriam ter ido ao reino dos demônios. Morrer na batalha seria uma honra—um fim muito maior do que se esconderem como covardes e colocarem suas esperanças em uma geração ainda por nascer."
Snow despejou tudo que pesava em seu coração—seus pensamentos, sua decepção, sua dor.
Estava prestes a falar mais.
Mas uma mão familiar apertou seu ombro, interrompendo-o.
"Snow… já basta, meu amigo. Você já falou tudo que precisava."
Era Frey.
O jovem sorriu levemente para ele, depois virou o olhar para a santa.
"Desculpe-me, minha amiga. Essa guerra, e nossa última batalha, deixaram marcas profundas nele." O sorriso dele era forçado, mas Liora balançou a cabeça.
"Não… não há necessidade de pedir desculpas. Pois, em suas palavras, há uma porção de verdade."
Mesmo que suas intenções fossem nobres, mesmo que sua causa fosse justa—isso não mudava o fato de que Liora viveu todos esses anos sabendo o que acontecia no mundo, enquanto tinha poder suficiente para impedir incontáveis desastres.
E, ainda assim, por causa de um voto—e do medo de um inimigo que poderia chegar à porta se ela se revelasse—ela optou por se esconder, deixando a humanidade perecer.