
Capítulo 600
O Ponto de Vista do Vilão
"Seja qual for o motivo, não há uma justificativa verdadeira para o que fiz. Eu sei das minhas culpas. Aceito-as."
Sorriso amargo de Liora carregava essa confissão enquanto ela olhava para Frey e Snow.
"Não... você não é culpado."
Desta vez, foi Uriel quem falou, suas palavras sinceras.
Ela entrelaçou as mãos e abaixou a cabeça, lembrando os anos que passou dentro dos muros da igreja.
Ela tinha visto muito. E, embora sua força fosse modesta, poderia ter influenciado eventos decisivos. Mas permaneceu em silêncio, paralisada pelo medo do que poderia acontecer com ela.
Por causa desse silêncio, o desastre aconteceu. Trinta e cinco milhões de vidas foram perdidas—um peso que provavelmente carregará pelo resto de seus dias.
"Você não é culpado. Ou melhor—nenhum de nós tem o direito de julgá-lo. Não passamos pelo que você passou, nem vivemos a vida que você e os outros heróis do passado distante viveram."
Sempre era fácil falar, apontar o dedo e culpar os outros.
Mas e se os papéis fossem invertidos?
Se eles tivessem vivido naquela época, obrigados a enfrentar o que Liora e os outros enfrentaram?
O que fariam ao descobrir que toda a força que arranharam para obter era nada mais do que uma brincadeira de criança diante de um inimigo que poderia apagar seres de classificação SSS como se fossem insetos?
Havia dúvidas sobre o Engenheiro, sim—mas os Leitores acreditavam nele. E a "solução" que ele oferecia era a esperança que eles precisavam na hora mais sombria.
"Talvez você seja culpado. Ou talvez sua escolha tenha sido a certa. Eu não sei. Mas sei uma coisa: se eu carregasse os mesmos fardos, provavelmente teria escolhido como você. Então, quem sou eu para te julgar?" Uriel disse com um pequeno sorriso.
Frey concordou com um aceno de cabeça.
"Muito bem dito."
Voltando sua atenção para Snow, ele reforçou as palavras de Uriel.
"Snow... nós não vivemos o que eles viveram. Não sofremos o que eles sofreram. Mesmo se estivéssemos no lugar deles, obrigados a escolher—talvez também teríamos feito o mesmo. Além do mais, o passado já passou. Não adianta ficar falando incessantemente sobre o que não pode ser mudado. Nosso presente e nosso futuro—esses sim, são o que realmente importam."
O acordo de Frey com Uriel surpreendeu Liora, que não esperava por tais palavras. Ela as agradeceu sinceramente.
"Em nome de mim mesma e de todos os meus camaradas… agradeço de coração por essas palavras."
As palavras de Frey e Uriel não apagaram o passado—mas aqueceram seu coração. A dúvida atormentou suas escolhas por séculos, tanto que ela finalmente quebrou o voto de proteger Frey e Snow.
"Não há necessidade de agradecer. Você continua sendo quem salvou nossas vidas. Mas, vamos lá… há muitas coisas que vocês podem nos ajudar agora, já que decidiram se revelar," disse Frey com um sorriso suave, já planejando aproveitar a oportunidade de ter conquistado um aliado de nível SSS inesperado.
Seu temperamento calmo, sua postura inabalável apesar de tudo que havia acontecido—essas qualidades lhe valeram a admiração de Liora.
"Pergunte-me qualquer coisa, Frey Starlight. Enquanto estiver ao meu alcance, ajudarei no que puder," declarou a santa, manifestando sua disposição de cooperar.
Enquanto isso, Snow permaneceu em silêncio—optando por não falar mais enquanto lutava com tudo que tinha ouvido.
Uriel Platini, observando Frey atentamente ao lado, teve sua mente voltando às palavras que dissera antes… perguntando-se o que ela mesma, juntamente com Frey e Snow, teria feito se a escolha fosse deles, ao invés de de Liora.
Ela bem sabia—haveria feito como a santa. Por isso, não se via apta a julgá-lo.
Mas Frey Starlight… ele era diferente. Daquilo ela tinha certeza.
Ele lutaria até o fim. Não importava quem fosse o inimigo, qual fosse o obstáculo—ele lutaria até a morte.
Ele já tinha escolhido há muito tempo. E já tinha aprendido como morrer.
Por isso, conseguia manter a calma, mesmo agora.
Um homem assim… enquanto ele estivesse ao seu lado, Uriel sentia que também poderia lutar, e talvez encontrar a coragem que sempre lhe faltou.
E assim, decidiu se tornar mais forte—aproveitar essa chance, coûte o que custar—pois a própria Santa da Aurora agora estava entre eles.
Frey tomou a iniciativa, já pensando em usar a presença da santa a seu favor. E seu primeiro movimento foi direto ao coração do que mais o atormentava.
"Primeiro, pediria sua ajuda para destruir a sombra que habita dentro do meu corpo. E também para guiar nosso amigo, o herói aqui, a encontrar o caminho mais adequado para ele."
"A sombra que habita seu corpo… ah. Acho que entendo o que quer dizer—senti algo anômalo na aura que emanava de você."
Frey assentiu, então tirou suas vestes superiores. No momento em que o fez, Snow e Uriel ambos arregalaram os olhos ao ver sua pele desnuda.
Uma escuridão estranha se espalhou por seu corpo, deixando-o doente, esgotado, sem sua vitalidade habitual.
"Frey… o que aconteceu com você?!" Uriel perguntou, alarmada.
"É uma história longa. Resumindo: este corpo atingiu seu limite e preciso de tratamento," respondeu Frey, voltando-se para a santa. "Você possui um poder holy imenso. Presumo que possa me ajudar—certo?"
Ele insistiu—essa era sua maior prioridade. A sombra que infestava seu corpo ficou tão disruptiva que ele estava perdendo o controle de sua força. Contribuiu diretamente para sua derrota contra Blattier. Ele não conseguiria lutar novamente se não a expurgasse—rápido. Havia depositado suas esperanças na santa; talvez fosse isso o que o Engenheiro quis dizer ao afirmar que Uriel o levaria à resposta.
Liora assentiu e se aproximou, colocando a palma de sua mão contra o peito de Frey. Em segundos, seu poder sagrado dourado se intensificou, invadindo seu corpo com calor e majestade.
Frey sentiu uma onda imediata de vigor, como se seu auge retornasse de repente. Com uma força dessas, ele acreditava que finalmente poderia eliminar a sombra—acabar com a Primeira Sombra de Wisker de uma vez por todas.
Porém, após poucos respirares, uma expressão preocupada surgiu no rosto de Liora. Ela recuou a mão, interrompendo o fluxo de energia sagrada.
Confuso, Frey foi o primeiro a falar, percebendo imediatamente que algo estava errado—a sombra semelhante a piche ainda estava grudada nele.
"Há um problema?"
"Desculpe," disse a santa, franzindo o cenho, "mas acho que não posso purgar algo assim."
Suas palavras calmas vieram como um trovão para Frey. Ele parou por um momento—depois explodiu.
"Você está brincando? Se o poder santo de classificação SSS não é suficiente, como vou tirar essa maldição?!"
Não era isso que esperava. Acreditava que Liora seria suficiente. Subestimou a sombra.
"Há uma razão pela qual não posso ajudar… mas primeiro, preciso te perguntar, Frey Starlight: o que exatamente é essa coisa?" Liora pressionou sua mão levemente na pele escurecida. "Nunca vi algo tão nojento e retorcido. É como um fragmento do inferno em si."
A pergunta dela despertou tanto o medo quanto a curiosidade de Snow e Uriel—principalmente porque era algo que até mesmo Liora hesitava em tocar.
Frey vacilou, então decidiu contar. Não fazia mais sentido esconder.
"É uma maldição que um dos Demônios Superiores me lançou—a Quarta Cadeira, Wesker."
A verdade saiu de sua boca… e um choque percorreu todos eles, incluindo Liora.
"Um Demônio Superior? Espere—isso quer dizer que não podemos curar…?" Uriel perguntou, a voz carregada de pânico, enquanto a testa de Liora se aprofundava em sua expressão de preocupação.
"Não vou perguntar como você enfrentou um demônio desse nível e sobreviveu—duvido que queira falar disso. Mas é preciso entender: o poder sagrado não pode te salvar disso," disse Liora. Ela ergueu a mão, formando um anel dourado de luz. "O poder sagrado existe para curar. É uma aura oposta à essência demoníaca—destinada a ajudar e apoiar, não a destruir."