
Capítulo 597
O Ponto de Vista do Vilão
A classificação SSS por si só já era viciante. Era a razão pela qual Blattier certa vez teve coragem de se declarar um deus apenas por conquistá-la. E ele não era o único.
Arrogância. Excessiva confiança. Ignorância. Essa era a verdadeira enfermidade da humanidade.
"No final das contas, Kazis, as grandes casas e eu escolhemos ficar do lado dos Leitores. Optamos por recuar, confiar nos avisos deles. Mas vou admitir a verdade — até nós, no fundo, acreditávamos que os guerreiros poderiam estar certos. Que lutar era o caminho mais corajoso."
Para atacar primeiro, ao invés de ficar parado, esperando a próxima onda. Com tanta força ao seu comando, muitos acreditavam que era a única escolha correta.
"Não percebemos… que se não tivéssemos recuado no último instante, a humanidade teria sido extinta deste mundo há muito tempo," disse Liora amargamente, e um silêncio caiu sobre os demais.
Para explicar, ela mostrou a eles a visão. O dia em que aconteceu.
Um grupo de guerreiros orgulhosos diante do Rift. Dezena de titãs, seus soldados liderados por monstros de classificação SSS. Uma força que, nesta era atual, poderia ter terminado a guerra contra os Ultras em poucos meses.
O antigo portador de Balerion, Cheon Ma. A portadora de Dark Sister, Avalon. E muitos mais.
Eles não eram homens. Eram monstros em forma humana.
E marcharam corajosamente pelo Portão, rumo a Helmund, determinados a fazer guerra contra a raça que atormentava a humanidade há tanto tempo.
"Naquele dia… nossos maiores guerreiros deixaram a Terra para trás, pisando numa terra como nenhuma outra que conheciam. Carregaram consigo as esperanças de toda a nossa raça. Aquele dia marcou a primeira tentativa da humanidade de enfrentar os demônios diretamente."
Liora parou, sua expressão misturando tristeza e amargura.
"E naquele dia… foi a última vez que os vimos."
"O quê? Você está me dizendo que todos — todos aqueles monstros de classificação SSS — morreram, sem nem mesmo conseguir escapar?!" Snow explodiu, transtornado, com o rosto de Uriel refletindo seu descrença.
Apenas Frey permaneceu calmo, pois ele era o único que entendia os horrores que aguardavam do outro lado.
"Perdemos contato com eles no instante em que pisaram pelo Portão. Dias se passaram, depois semanas, meses. Esperamos, mas nenhuma palavra veio. Eles nunca retornaram. Foi como se tivessem sido apagados. Lentamente, o desespero nos consumiu, e perdemos toda esperança."
"Alguns até se ofereceram para segui-los, para descobrir seu destino. Nos reunimos na entrada do Portão mais de uma vez, mas ninguém teve coragem de entrar."
"E então… depois de todo esse tempo, dos inúmeros que partiram com orgulho, carregando as esperanças da humanidade… só um voltou."
"Através do Portão, apenas Avalon — o homem uma vez reverenciado como o Deus da Espada — cambaleou de volta."
"Mas o que retornou não era mais o homem que conhecíamos. Avalon partiu orgulhoso e inabalável… mas voltou destruído, aterrorizado. Com o corpo fraco, o rosto mutilado. A luz tinha sido arrancada de seus olhos, deixando-o cego. O que quer que ele tenha enfrentado do outro lado o destruiu — corpo e alma. Nada mais do que fragmentos do grande guerreiro sobraram."
Foi uma tragédia indescritível.
Kazis Valerion e os demais correram até ele imediatamente, desesperados para saber o que tinha acontecido em Helmund. Para descobrir a verdade.
Mas Avalon desfeito se recusou a falar. Fugiu deles, com os lábios selados.
Qualquer tortura que tenha sofrido tinha destruído completamente seu espírito. Assim, por mais que pressionassem, por mais que implorassem, nunca souberam de fato o que aconteceu.
Aquele incidente reacendeu o terror que a humanidade havia esquecido após suas breves vitórias — lembrando-os de que os horrores estavam longe de acabar.
"Não soubemos o que realmente aconteceu do outro lado até muito tempo depois… mas descobrimos que todos os nossos camaradas tinham sido massacrados. Morrreram incapazes até de lutar."
"Em Helmund, existe um demônio que nunca abandona o lugar, que permanece adormecido, mas sempre presente. Nunca o vi com meus próprios olhos, mas o que ouvi foi suficiente para me fazer teme-lo sem enfrentá-lo…"
"O Primeiro Assento dos Demônios Maiores… Crimson, a Lua Vermelha."
O Primeiro Assento nunca deixa Helmund, permanecendo lá por muitos anos como o guardião inabalável do caminho que leva diretamente ao seu rei.
Para Cheon Ma e os outros, foi uma desgraça sem igual — eles se lançaram de cabeça contra ele, junto com o Quarto Assento, Wesker, que por acaso estava por perto.
A batalha foi desigual. Tão desigual que o grande Cheon Ma, um dos humanos mais fortes que já existiram, foi morto com um só golpe de Crimson.
Um só golpe que quebrou Balerion, o Terror Preto, em pedaços — e, com isso, Cheon Ma virou poeira instantaneamente.
Dizem que Crimson massacrou a maior parte dos humanos que ousaram pisar em Helmund, enquanto Wesker capturou alguns vivos — mantendo-os com vida só para torturá-los, mutilá-los e destruir suas almas.
Wesker era infame por sua sadismo, por seus jogos de tortura. E entre aquelas poucas vítimas… estava Avalon, o único que, de alguma forma, voltou vivo.
"Os Leitores nos alertaram de que exatamente isso aconteceria… mas não acreditamos neles. A força que adquirimos nos encheu de arrogância. E, no final, tivemos que encarar a amarga verdade: por mais forte que alguém fique neste mundo, sempre haverá alguém mais forte."
A diferença de poder entre aqueles que alcançam apenas a classificação SSS e os que dominam em seu auge é imensa, além da imaginação."
As palavras de Liora pesaram. Snow e Uriel permaneceram em silêncio, ambos lutando para assimilar o que acabaram de ouvir.
Mas Frey era diferente. Ele não ficou surpreso — via isso como algo inevitável. Afinal, esses tolos não apenas invadiram Helmund, como se colocaram contra Ag a roth, o Rei Demônio em pessoa.
Somente Agaroth já seria mais do que suficiente para destruí-los em segundos. Mas com o mais forte dos Assentos Maiores também presente?
Vitória jamais fora possível desde o começo.
No entanto, algo na narrativa de Liora chamou a atenção de Frey.
"Liora… você disse que Avalon se recusou a falar até o fim. Então como vocês souberam o que aconteceu do outro lado?"
Foi uma pergunta afiada. Se Avalon manteve silêncio, então como ela soube que Crimson derrubou Cheon Ma? Como soube que Wesker estava lá?
Frey queria a verdade — e Liora não escondeu nada dele.
"Eu ia chegar nesse ponto… a reunião que mudou tudo, aquela que nos fez fazer o voto que nos trouxe até aqui."
A visão mudou novamente, mostrando-lhes uma memória diferente.
"A pessoa que nos contou o que tinha acontecido com Cheon Ma e os outros… não era humana."
Ele apareceu do nada num dia fatídico.
"Era ele quem guiava os Leitores pelas sombras. Um homem estranho, no qual ninguém confiava. Mas os Leitores o seguiam cegamente, e por isso o tolerávamos — apesar de ele não ser humano nem da nossa raça."
A memória se ajustou, e Liora revelou a figura que havia distorcido o destino da humanidade.
Quando a cena focou, Frey Starlight só conseguiu segurar a cabeça, enquanto a confusão e o medo atravessavam seu corpo.
O homem que entrou no conselho dos maiores guerreiros da humanidade, o que liderava os Leitores, vestia preto, com os traços escondidos.
Mas seus olhos azuis… incontestáveis. Olhos que Frey nunca deixaria de reconhecer.
Era ninguém mais do que o Engenheiro — Gehrman.
"Ele nos contou o que aconteceu com Cheon Ma e os outros. E então nos mostrou um futuro… uma visão de um mundo em que todos nós morríamos, compartilhando o mesmo destino de nossos companheiros caídos."
"Os Leitores concordaram com cada palavra que ele falou. Ele declarou que não tínhamos chance de vencer. Que seríamos esmagados, humilhados, não importa o que tentássemos."
"Mas, por fim, ele colocou uma condição: não na nossa era. Não em nosso tempo."