O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 596

O Ponto de Vista do Vilão

A humanidade esteve à beira da extinção há séculos atrás. As perdas foram astronômicas, os mortos incontáveis — uma civilização inteira esteve à beira da aniquilação.

Mas por causa do surgimento dos poucos que chamavam de Leitores, a humanidade conseguiu respirar novamente, levantar-se de pé contra o brutal avanço dos demônios.

Os Leitores nunca guardaram seu conhecimento, nunca o aprisionaram em correntes de segredo. Compartilhavam livremente, pensando na sobrevivência da humanidade acima de tudo. Por isso, muitos escolheram segui-los.

"Depois de aprender tanto com eles, finalmente conseguimos lutar de verdade, suportar a invasão. Mas a guerra só ficou mais dura com o tempo…"Liora falou com uma expressão solene, mostrando vislumbres da invasão demoníaca.

A raça vil tinha duas vantagens esmagadoras: seu vasto número e sua vitalidade assustadora.

Um demônio era difícil de matar, a menos que fosse destruído completamente. Com o tempo, eles se recuperavam de quase qualquer ferida. Humanos, por outro lado, caíam definitivamente ao receber um golpe fatal.

Esses eram os fatores que tornavam a guerra quase impossível.

E ainda assim, apesar de tudo, a humanidade persistiu. Em determinado momento, a maré começou a virar. As perdas tornaram-se menores. A cada dia, mais demônios caíam do que antes. Novos campeões surgiram — heróis cujas forças rivalizavam com lendas.

Ao contrário da era atual, onde a humanidade havia se tornado protegida, com os Ultras como sua maior preocupação além-mar, a guerra antiga era uma provação completamente diferente. As perdas não eram contadas em milhões, mas em bilhões.

Antes do aparecimento dos Portais, a população da Terra atingira oito bilhões. Após anos de guerra incessante, restavam apenas algumas centenas de milhões. A humanidade estava à beira da extinção.

Era uma era impiedosa — uma época que forjou monstros entre os homens.

"Cada raça neste mundo tem algo que a define. Para a humanidade, foi nossa capacidade de nos adaptarmos," disse Liora, lembrando-se dos inúmeros heróis que se levantaram contra o desespero, independentemente das probabilidades.

Ela foi uma delas.

"Não importava o sofrimento, não importava o quanto a vida nos esmagasse, nós nos adaptávamos. Seguíamos em frente."

Naquele tempo, incontáveis guerreiros alcançaram o nível SSS. Uma classificação que muitos da era atual consideram mito, mas que, na época, não era incomum. A Terra tinha muitos que atingiram tais alturas.

Porque eram monstros forjados numa era em que somente essa força poderia garantir a sobrevivência. A capacidade de adaptação da humanidade era sua arma mais afiada.

Talvez seja até por isso que os demônios os experimentaram — injetando seu sangue apenas nos humanos.

Embora o sangue demoníaco fosse veneno e matasse muitos, havia aqueles que sobreviviam. Seus corpos se adaptavam, evoluindo do que deveria ser morte para uma nova potência.

Isso se tornou a maior arma da humanidade — a lâmina que se agarravam em tempos desesperados.

"Depois de derrotas humilhantes, de quase exterminados, invertendo o jogo. Matamos demônios a milhares e destruímos a invasão que tentava nos aniquilar," disse Liora, mostrando cenas de triunfo humano.

Ao lado dos Leitores, que eram todos aterrorizantes por si só, outros humanos ascenderam a poderes iguais. Kazis Valerion, escolhido pelo misterioso Senhor da Luz. Os grandes líderes das famílias. Até Liora, que carregava o manto da Santidade.

Frey e os demais assistiam em silêncio, surpresos com a escala das vitórias que a humanidade conquistou ao final daquela guerra.

"Os humanos daquela época… eram realmente fortes," murmurou Snow, impressionado com a força de seus antepassados, uma força além do que ele jamais tinha imaginado.

Uma multidão de combatentes de rank SSS. Um grupo estranho que conhecia o futuro. Foi uma geração que superou o presente por incontáveis razões.

"Com uma força dessas… isso não quer dizer que eles não eram capazes de simplesmente sobreviver? Não poderiam ter vencido? Acabar de uma vez por todas com os demônios?"

As palavras de Snow transmitiam convicção. Naquele tempo assustador, ele via força suficiente para realizar isso.

Porém, tanto Frey quanto Liora tinham expressões que deixavam claro: tratava-se de um grande equívoco. Uma ilusão tola.

"O que você acabou de dizer, Snow Lionheart, é exatamente o pensamento que levou ao desastre que mudou tudo — que nos fez perceber o quão fracos, quão impotentes realmente éramos." A voz de Liora escureceu à medida que as memórias voltavam novamente.

Se a humanidade, mesmo então, com tantos guerreiros de rank SSS, era fraca… o que era o verdadeiro poder? E como a geração atual se comparava — quando ninguém havia alcançado sequer SSS, nem mesmo Frey Starlight, seu mais forte?

Liora respondeu pacientemente, desde o começo.

"Tudo começou quando descobrimos que o que enfrentamos então era apenas a vanguarda dos demônios. Um mero fragmento, nem mesmo uma sombra, do exército verdadeiro que aquela raça comanda."

Mesmo após a humanidade limpar o mundo dos demônios, mesmo após vitória após vitória, os Portais lá em cima nunca se fecharam. Isso significava que, a qualquer momento, mais poderia chegar.

"No momento de maior triunfo, quando nos atrevíamos a sonhar com a salvação… veio a Primeira Divisão. Os humanos se voltaram uns contra os outros enquanto tentávamos decidir nosso próximo passo."

A memória mostrou o instante em que a humanidade foi forçada a uma decisão fatídica.

"A arrogância se enraizou. Acreditávamos realmente que éramos fortes. Foi aí que surgiu a facção — aquela que exigia que fogo fosse respondido com fogo."

Eles eram guerreiros poderosos, mas cegos pela arrogância — convencidos de que sua força podia conquistar tudo.

"Foram eles os que mais exterminaram demônios na época. Titãs como Cheon Ma, o Deus da Espada Avalon, ou Rion Nightwave… todos eram guerreiros de rank SSS, alguns até superando Kazis Valerion."'

"Essa facção tinha sede de batalha. Convocaram toda a humanidade para levar a guerra ao próprio mundo dos demônios…"

Quando Liora pronunciou essas palavras, todos ficaram rígidos — até os olhos de Frey se estreitaram.

"Para Helmund… onde o próprio Rei Demônio reside, junto às Cadeiras mais altas e aos Duques do Inferno — aqueles com quem raramente travamos confronto."

"Isso é loucura…" disse Frey, com frieza, ressaltando o quão imprudente e insano era tal plano.

Para homens como Cheon Ma, não era bravura — era lunacidade. Eles genuinamente acreditavam que podiam invadir Helmund e destruir os demônios em seu próprio terreno, assim como fizeram com a humanidade.

Snow e Uriel ficaram impressionados com a audácia de tais guerreiros. Mas Frey via apenas a tolice deles — a arrogância.

Liora continuou, sem vacilar.

"Como disse, nos dividimos em duas facções depois de uma vez termos estado unidos. Uma exigia que atacássemos primeiro, que levássemos a guerra para dentro de Helmund."

"A outra facção, liderada pelos Leitores que nos guiavam até aqui, opôs-se com força. Argumentaram que deveríamos manter a linha, defender e nunca provocar poderes com os quais não poderíamos lutar."

Os Leitores lutaram contra esse plano até o fim. Eles sabiam demais e temiam o que havia além dos Portais.

Porém, o debate virou conflito, e o conflito virou divisão. A humanidade se fragmentou.

Uma facção desejava a guerra, atacar o território dos demônios por conta própria. A outra clamava por unidade na Terra e apenas defesa, insistindo que não tínhamos chance em Helmund.

"Os Leitores eram os mais sábios, a verdadeira razão de termos sobrevivido à guerra. Devíamos todos ter escutado. Mas muitos se deixaram cegar por suas forças próprias, intoxicados pelos altos que atingiram."

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