
Capítulo 595
O Ponto de Vista do Vilão
“Você é o Santo, e nos salvou antes, então assumo que está do nosso lado… mas há muitas perguntas que exigem respostas. Antes de tudo—por que agora? Por que intervir neste momento, entre tantos outros? E onde você esteve durante todos esses anos?”
A voz de Frey carregava cautela. Mesmo tendo sido salvo por ela, ele nunca relaxou completamente na presença da Santa. Muito mistério a envolvia.
Se ela tinha estado por perto durante todo esse tempo, então por que permaneceu escondida? Por que não apareceu quando o mundo mergulhou no caos?
Snow quis falar, mas segurou a língua, pois também queria ouvir a resposta dela.
Graças a Deus, Liora não recuou.
“Suas perguntas são justas, Frey Estelerte. E responderei a todas. Não há necessidade de tanta hostilidade.”
Ela fez um gesto na direção da Árvore do Mundo, falando calmamente.
“Desde a Primeira Guerra contra os demônios, o mundo acreditou que eu havia desaparecido… que tinha morrido, desaparecendo em algum lugar invisível. Mas a verdade é outra. Eu permaneci dentro da Árvore do Mundo durante todo esse tempo. Ela me abrigou, mantendo-me adormecida por séculos.”
A Árvore do Mundo não era uma planta comum, mas uma entidade misteriosa de poder incompreensível—poder suficiente para esconder até alguém do calibre de Liora sem que ninguém nunca descobrisse sua presença.
Embora seu corpo estivesse dormindo, sua consciência permanecia alerta, entrelaçada à Árvore, sempre vigilante ao mundo.
“Quanto ao motivo de eu aparecer agora… foi para salvá-los, Frey Estelerte, e você, Snow Leão. E quanto a por que me escondi por tanto tempo—” ela fez uma pausa, seu tom intensificando. “Isso é outra história completamente.”
“Uma história que começa há centenas de anos, com a Primeira Invasão Demoníaca… com as verdades apagadas da própria história.”
No momento em que ela mencionou essa antiga guerra, os três—Frey, Snow e Uriel—fixaram toda sua atenção nela.
Pouco se sabia daquela época. Os registros históricos eram fragmentados, no melhor dos casos.
Para Frey, especialmente, isso carregava um peso maior. Agora ele sabia que não estava em um outro mundo, mas no futuro do seu próprio. O que significava… que aquela Primeira Guerra aconteceu logo após a sua própria morte, antes de sua transmigração.
Liora mergulhou em um silêncio profundo, como se estivesse escolhendo cuidadosamente por onde começar.
“Acho que preciso começar do princípio. Mas, ao invés de palavras… é melhor que eu mostre. As coisas que meus olhos viram—antes de tê-los perdido.”
Ela entrelaçou as mãos. De repente, uma luz envolveu Frey, Snow e Uriel, levando-os a mergulhar nas memórias distantes de Liora.
“Incrível… vocês conseguem nos fazer ver suas memórias,” Uriel sussurrou, admirado.
“Nem todas,” respondeu Liora, sorrindo levemente. “Apenas as mais nítidas. E você, Frey Estelerte—pare de resistir à minha aura. Se continuar, não conseguirei te prender aqui.”
Sua entonação era meia irritada, meia divertida. Frey abaixou um pouco sua guarda, oferecendo um sorriso de desculpas silencioso.
Sua aura já atingira o nível SSS. Se quisesse, poderia resistir completamente à sua invasão. O fato deixou Liora inquieta, despertando ainda mais curiosidade sobre seu estranho poder.
Mas agora era ela quem tinha que responder, e não ele.
As visões se intensificaram.
A Terra—cento de anos atrás.
Um mundo pacífico, comum… antes de tudo mudar. Antes de surgirem os Portões. Antes de o Exército Demoníaco descer, levando a humanidade à beira da extinção.
Através dos olhos de Liora, eles assistiram.
“Os demônios vieram do nada. E em questão de dias… massacraram-nos em números que nem dá pra contar. Não tínhamos como resistir.”
As imagens eram horríveis. Demônios rasgando carne, corpos destroçados numa violência grotesca.
Uma raça que se alimentava de aura, trazendo só morte por onde passava.
“Naqueles dias, os humanos começaram a despertar suas habilidades. Descobriram que podiam manipular aura. Mas o controle deles era primitivo—fraco, instável. Não tínhamos poder suficiente para combater os demônios.”
Sim, a humanidade havia despertado. Mas o que uma força recém-descoberta poderia fazer contra demônios que existiam há milhões de anos?
A guerra era sem esperança. De um lado só. A humanidade enfrentava a aniquilação.
Antes de Frey e dos outros, as cenas se desenrolavam: a humanidade destruída, massacrada diariamente por milhões.
Era uma devastação além de tudo que já tinham visto. Até a Guerra das Trevas parecia brincadeira perto daquele holocausto passado.
“Morríamos dia e noite,” disse Liora, com uma expressão sombria. “Nem conseguíamos lutar direito. Mas então… tudo mudou quando eles apareceram.”
Frey e Snow arregalaram os olhos ao ver figuras surgindo na visão.
Um grupo de humanos—mas diferentes de qualquer um que tivessem visto até então. Dominavam a aura com maestria, como se ela sempre tivesse lhes pertencido.
“Eram fortes. Além de fortes. Em um nível que nenhum outro humano daquela época chegava sequer a tocar.”
Foram eles que primeiro estabeleceram as regras da aura, os estilos de combate, as bases sobre as quais o mundo agora se sustentava. Estavam muitos passos à frente, quase inacreditavelmente.
Frey observava em choque. Snow também reconheceu um entre eles.
Uma mulher de pele escura.
Um velho com uma lâmina estranha.
Um jovem a lança.
E um menino de cabelos dourados curtos, voando pelos céus.
Havia mais. Muitos mais.
Mas Frey conhecia esses rostos. Já os tinha visto antes—nas memórias do seu pai, dentro da Seita das Sombras. Tinha até encontrado um deles em Londor, quando descobrira a máscara do Anônimo.
Eram os mesmos.
“Este grupo de estranhos,” prosseguiu Liora, “foi o motivo de a humanidade ter sobrevivido. Compartilharam seus conhecimentos. Nos deram suas técnicas. Por isso, os chamamos… os Leitores.”
“…Os Leitores?” Frey repetiu, claramente surpreso.
Liora assentiu. Sua expressão carregava a gravidade da memória.
“Quando os Portões surgiram pela primeira vez, um livro foi descoberto. Contava eventos estranhamente parecidos com o que tinha acontecido ao nosso mundo. A vinda dos demônios. Os Portões. O despertar da aura. Tudo escrito ali—apenas um romance, assinado por um homem desconhecido. Um homem que morreu em silêncio, em algum canto esquecido do mundo.”
Nesse instante, um título apareceu diante deles.
“Chamava-se… Terra de Sobrevivência.”
No momento em que Frey ouviu, sua cabeça doeu violentamente.
“Os Leitores desse romance já sabiam o que vinha. Armados do conhecimento ali escrito, cresceram rápido demais, e guiaram a humanidade adiante. Para nós, aquele livro virou uma escritura sagrada. Uma revelação de outro mundo.”
“Com os Leitores, conseguimos nos erguer. Conseguimos lutar. Tudo… por causa de um único romance, perdido há muito, mas que ficou gravado na mente de quem o leu.”
A revelação foi como um trovão.
“Uma história fictícia… que prevê a realidade com precisão absoluta? Isso é impossível,” falou Snow, parado, surpreso.
“Você está certo,” disse Liora, assentindo lentamente. “É impossível. E ainda assim… aconteceu.”
“O autor morreu antes que pudéssemos encontrá-lo. Levou as respostas com ele para o túmulo. E assim, tudo o que sobrou foram suas palavras… e seus Leitores.”
Ela falou com um tom de arrependimento, a voz carregada de tristeza.
Pois acreditava que a verdade morrera com aquele autor desconhecido.
Porém, ela nunca poderia imaginar…
Que aquele próprio autor agora estava diante dela, com o rosto de Frey Estelerte—com a expressão se contorcendo ao ouvir uma verdade que jamais pensou encontrar.