O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 594

O Ponto de Vista do Vilão

"Não mereço agradecimentos," ela disse suavemente. "Por anos, filiei-me à Igreja enquanto ela cometia seus pecados e atrocidades, e não fiz nada para detê-la."

Suas palavras, carregadas de culpa, apenas aumentaram a curiosidade de Uriel. Ela ousou perguntar:

"Senhora, perdoe minha falta de educação… mas preciso saber—o que realmente aconteceu no passado? Por que vocês passaram todos esses anos escondidas? E por que agora, justamente agora?"

As perguntas de Uriel eram muitas. Liora apenas sorriu em resposta.

"Prometo que cada pergunta que estiver no seu coração será respondida. Mas primeiro, vamos esperar até que eles acordem. Tenho certeza de que também quererão ouvir a história."

Uriel assentiu. Ainda havia muitos mistérios por desvendar, e várias verdades que só Liora poderia revelar—verdades de alguém que viveu a Grande Guerra há séculos, a guerra que terminou com o sacrifício de Kazis Valerion.

Frey e Snow ambos mereciam ouvir essas verdades. Assim, até que eles se movessem, Liora e Uriel permaneceram à beira do grande templo, olhando para a visão maravilhosa de milhões de luzes—almas ascendendo, uma a uma, aos céus.

Uriel, em particular, ficou impressionada. Sentiu o peso esmagador da culpa ao ver as almas libertas desaparecerem no céu, almas capturadas e assassinadas por causa dela.

—Você não é culpada, Uriel Platini—, Liora a tranquilizou suavemente. —Assim como aquelas inúmeras almas, você também foi apenas uma vítima—uma peça involuntária nos planos e horrores de outros. De Blattier… e de quem quer que estivesse puxando seus fios nas sombras."

Uriel compreendeu, mas balançou a cabeça.

"Sei que fui manipulada. Sei que não tive escolha. Mas isso não muda o fato de eu ter sido a culpada por mortes tão diretas. De todas aquelas vidas inocentes…"

Ela ergueu ambas as mãos tremulas, odiando sua própria fraqueza e impotência.

"Se ao menos eu tivesse mais poder… mais coragem… talvez tudo não tivesse acabado assim."

Ouvindo aquilo, Liora balançou a cabeça suavemente. Colocou a mão no braço de Uriel e, com seu brilho dourado, começou a purificar as runas de sangue distorcidas gravadas em sua pele.

"Poder nem sempre é a resposta, Uriel Platini," disse Liora. "Por mais forte que você se torne, sempre haverá alguém mais forte. Eu sou prova disso."

O brilho dourado se espalhou, limpando a corrupção do corpo de Uriel, enquanto Liora infundia nela uma luz sagrada.

"Não é o poder que nos define, criança. São as escolhas que fazemos, os caminhos que trilham, os destinos que moldamos com nossas próprias mãos." Ela sorriu de forma calorosa.

"Entendi agora. Eles injetaram seu sangue em você… junto ao sangue dos Outros Santos."

Uriel abaixou a cabeça, envergonhada, mas assentiu.

"Assim eles preservaram o legado do Santo—forçando fragmentos do nosso sangue em outros. Sua força faz parte de nós."

Porém, Liora balançou a cabeça.

"Não. Esses vestígios estrangeiros não te fortalecem. Eles te prendem. Eles te limitam."

Ela liberou mais sua aura dourada, purgando completamente o sangue estranho do corpo de Uriel.

Uriel a observava chocada, sem entender. Liora explicou:

"A força sempre esteve dentro de você. Tudo que precisa fazer é despertá-la—não por meio de rituais distorcidos, nem sacrifícios, nem sangue, mas por meio de um verdadeiro despertar. Pelo seu próprio potencial. Você leva isso no fundo de si, assim como eu. Treine, e um dia… você chegará lá."

A voz de Liora transmitia uma certeza absoluta. Ela sentira aquela centelha dourada escondida na alma de Uriel.

Porém, Uriel permanecia desconfiada.

"Quer dizer… que um dia eu poderia alcançar seu nível? Que eu poderia manejar a mesma luz dourada que você?"

Liora assentiu.

"Talvez até supere."

Aquelas palavras finais tremeram Uriel até o âmago. Esta era a Primeira Santa—a Santa da Aurora—cujo nível nunca tinha sido igualado em séculos. E ela dizia que Uriel poderia, um dia, ultrapassá-la.

Uriel não ousou contestar. Ela ficou em silêncio… até que a conversa foi abruptamente interrompida.

Pois, naquele momento, Frey e Snow se mexeram. Seus corpos, antes quebrados, moveram-se timidamente pela primeira vez desde caírem em Blattier. Segundos depois, abriram os olhos quase em uníssono.

A visão de eles vivos foi demais para Uriel. Seus sentimentos transbordaram enquanto ela os abraçava com força, incapaz de se conter.

Tudo aconteceu rápido demais. Surpresa estava evidente em seus rostos—especialmente em Snow, que não conseguia entender como tinha sobrevivido ao todo. Frey, por outro lado, estava mais calmo. Carinhosamente, deu uma palmada nas costas de Uriel, afastando-se com suavidade de seus braços.

—Estamos vivos?—— Snow sussurrou, incrédulo. Sua última lembrança era do ataque final de Blattier, seguido de escuridão. Ainda não conseguia aceitar que estava respirando agora, como se nada tivesse acontecido.

Então, ambos perceberam a presença dela—a figura que mudara todo o fluxo de aura ao redor, que os salvara.

Com um olhar, eles souberam.

Liora não os fez esperar. Avançando um passo, falou com um sorriso suave.

"Frey Starlight, Snow Lionheart… Sei que vocês têm muitas perguntas. Mas primeiro, quero agradecer a vocês por tudo que fizeram. Estou realmente feliz por vê-los vivos."

Depois, voltou seu olhar encoberto em direção a Frey, cuja calma tinha persistido até então.

"Não tenho olhos para te ver. Mas, pelo seu aura, posso perceber—você não está surpreso, diferente do seu amigo. Não é mesmo, Frey Starlight?"

Liora sorriu. Frey permaneceu em silêncio por um longo suspiro antes de finalmente responder.

"Para ser sincero… tinha uma sensação de que não iria morrer aqui. Não assim, não neste lugar." Sua voz era pesada, lembrando de todas as vezes em que a morte o tinha escapado, todas as vezes em que fracassou em terminar com sua própria vida.

Ele fora forçado a viver, diversas vezes, puxado por forças externas a si. A morte nunca o reivindicara antes. Não acreditava que desta vez seria diferente.

"Esperava que algo interviesse, algo que mudasse o resultado. E parece que sua chegada foi exatamente isso. Por isso, acho que devo agradecer… Santa."

O sorriso de Liora se aprofundou.

"Você percebeu quem eu sou tão rapidamente… impressionante."

Snow, ainda tentando se orientar na realidade, lutou para acompanhar a conversa. Ao contrário de Frey, tinha certeza de que estavam condenados. Precisava de tempo para aceitar a sobrevivência.

Mas os olhos violetas de Frey brilharam ao olhá-la.

"Uma presença de nível SSS… uma aura sagrada como nenhuma outra… e sua aparência, suas próprias feições. Identificá-la é quase impossível. Você foi quem enfrentou Blattier, não foi?"

Liora assentiu.

"Meu nome é Liora. Sou a Santa que um dia caminhou ao lado do Primeiro Herói, Kazis Valerion. E sim… como você deduziu, eu sou quem derrotou Blattier e salvou vocês dois."

Suas palavras confirmaram as suspeitas de Frey, e finalmente revelaram quem ela realmente era.

"A Santa que esteve ao lado do Primeiro Herói… mas ela não morreu há séculos?" Snow perguntou, incrédulo.

"Sim," respondeu Frey. "Ela deveria estar morta há muito tempo. Mas aqui ela está, diante de nós."

Seu tom tinha curiosidade e suspeita na medida certa. Ele nunca imaginara que uma figura assim ainda pudesse existir.

Liora inclinou a cabeça, seu sorriso gentil nunca desaparecendo.

"Vejo que ambos têm muito que dizer…"

"Exatamente," respondeu Frey imediatamente, levantando-se de novo.

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