O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 593

O Ponto de Vista do Vilão

Uma Santa nunca foi feita para lutar na linha de frente — seu papel era de apoio. Combate corpo a corpo nunca foi a sua área de atuação.

Porém, Liora ignorava completamente essa lógica.

Ela era rápido demais para que ele reagisse. Num instante, sua mão direita pressionou contra o peito dele, liberando uma força estranha que pulsou violentamente por todo o corpo dele.

— Joseph Blattier — ela falou suavemente, sua voz carregando um peso divino — essa força nunca foi sua desde o começo. Você não passa de um usurpador que roubou poder sacrificando inúmeras almas inocentes — almas que nunca lhe pertenciam.

— Por isso, preciso libertá-las… conceder-lhes salvação e liberdade que você tão cruelmente roubou.

Ao ouvi-la, Blattier sentiu algo dentro de si rasgar-se.

E então — sem aviso— suas costas explodiram, jorrando milhares… não, milhões de pontos de luz radiante que se libertaram de seu corpo na primeira oportunidade que tiveram.

O bispo gritou de dor, sua essência se rompeu e desabou.

— Talvez você ainda não perceba — declarou Liora, sua voz calma mas implacável — mas você já perdeu.

Blattier tentou responder, tentou reunir força — mas seu poder havia colapsado, fugindo dele sob o ataque da Santa.

— A arrogância cegou você. Sua força recém-descoberta inflou seu orgulho de tal forma que você ousou se chamar de Deus. Mas a verdade é clara: você não é nada além de um ladrão. Um usurpador. E, mesmo com tudo que roubou, seu poder não é suficiente para cobrir nem uma fração deste vasto universo.

Liora apertou ainda mais a mão contra seu peito. As almas em torrentes saíam dele cada vez mais rapidamente, rasgando-o por dentro enquanto seus gritos ecoavam impotentes pelo céu.

Em desespero, Blattier tentou invocar as runas de sangue gravadas em sua carne — seu último recurso para prender as almas ao seu corpo antes que escapassem completamente.

Mas Liora já o tinha descoberto. Com um único gesto, ela purificou as marcas, apagando-as instantaneamente e privando-o até mesmo dessa última chance.

— O caminho que você escolheu — o sacrifício de outros para se fortalecer — é apenas uma estrada vil e diabólica. Não tem nenhuma relação com o Senhor da Luz ou Seus semelhantes, nem mesmo uma sombra tênue. Joseph Blattier, talvez você achasse que era o manipulador, puxando as cordas de outros. Mas, no final… você também nada mais era do que uma peça no jogo de alguém.

— E as próprias runas gravadas em seu corpo são a prova disso.

Desde o começo, essas práticas nunca foram dos Portadores da Luz, nem do Senhor da Luz. Eram ritos estrangeiros, demoníacos, plantados de forma insidiosa na Igreja há tempos.

Raízes de corrupção eram profundas demais, envenenando a Igreja até gerar a catástrofe de hoje — uma calamidade que quase aniquilou a nova geração de heróis, e teria feito isso, não fosse a Santa rasgar suas correntes e voltar.

Blattier próprio não passava de um produto dessa corrupção. Uma vítima, assim como seu monstro.

Liora sabia disso. E, por esse motivo, decidiu acabar com aquilo rapidamente.

— A luta teria sido mais difícil se você dominasse sua força roubada, se tivesse me enfrentado no auge. Mas sua batalha com Frey Starlight te exaureu. Você não tem mais nada para dar.

— Tanto quanto ganhou esse poder facilmente, agora também o perde com a mesma facilidade. Essas almas inocentes aguardaram sua primeira oportunidade de escapar de você. E essa oportunidade chegou agora.

Conforme seu corpo se convulsionava e se rasgava, enquanto as luzes radiantes jorravam em uma maré imparável, a Santa pressionou uma última vez — encerrando a batalha que se arrastava há tempo demais.

— Lamento Divino: Elegia da Santa.

Com seu cântico final, seu poder percorreu todo o corpo dele. Em instantes, a forma do bispo se quebrou completamente.

A Torre de Deus se despedaçou em poeira, espalhada pelo vento.

Liora permaneceu ali, suspensa nos céus, enquanto milhões de luzes radiantes se erguiam ao seu redor — almas que finalmente foram libertadas, livres do tormento e da prisão.

Em meio à visão majestosa que iluminava o mundo em ouro, ela sorriu suavemente, levantando a cabeça para o céu.

— ...Quebrei o voto.

No final, ela avançara antes do tempo, incapaz de permanecer presa por sua promessa silenciosa. Por anos suportou, observando, mas sem agir. Mas quando a nova geração de heróis esteve à beira da morte, ela quebrou suas correntes e voltou ao mundo.

— E, por isso, serei a primeira a partir… depois de você, Kazis.

As palavras escaparam de seus lábios com um sorriso agridoce enquanto ela descia, retornando ao templo sagrado sob a Árvore do Mundo — aquele lugar que permanecia intocado pela batalha devastadora.

Lá estavam Uriel, Snow e Frey, espalhados em poças de sangue, com feridas profundas cravadas em seus peitos.

A luz dourada de Liora tinha atraído seus corpos de volta a Uriel, que tentava desesperadamente curá-los. Mas, por mais que se esforçasse, nada podia fazer.

Tudo que ela via ao olhar para eles eram cadáveres — invólucros sem vida.

Aquela dura verdade a impedia até mesmo de perceber a majestosa visão das almas libertas ascendendo ao céu. Seu mundo desmoronando diante de seus olhos.

Porém, Liora a acalmou, descendo suavemente dos céus.

— Não temi. Elas não vão morrer.

Como se aquelas fossem as palavras que ela aguardava, Uriel virou-se para ela com olhos trêmulos.

— Você consegue salvá-los?!

A Santa assentiu, e os olhos de Uriel se encheram de esperança desesperada. Ela caiu de joelhos diante de Liora, inclinando-se até a cabeça tocar o chão.

— Por favor… Eu imploro… salve-os… por favor!

Liora a levantou de imediato, ajudando-a a ficar de pé.

— Não há necessidade de abaixar a cabeça, querida. Eu os salvaria de qualquer jeito.

Sua sorriso era suave, sua voz cálida, enquanto se aproximava dos dois guerreiros caídos.

— As feridas deles podem ser fatais para homens comuns. Mas eles não são homens comuns. Frey Starlight tem um corpo estranho, que se adapta a cada tormento que sofre. E Snow Lionheart nunca foi totalmente humano, para começo de conversa. Com um pouco da minha luz sagrada… eles vão suportar.

Ela liberou seu aura dourada, envolvendo suas formas quebradas de brilho. A luz dourada preencheu os buracos nos peitos deles, consertou seus corpos destruídos e começou a suturar as feridas que quase os mataram.

Por trás, Uriel observava maravilhada. Nunca tinha visto um poder tão sagrado antes.

Geralmente, a luz sagrada brilha em verde. Mas a de Liora era dourada — mais pura, mais forte, muito além de qualquer poder que Uriel possuísse.

A visão a convenceu sem dúvida de que aquela mulher diante dela era incompreensível.

Não demorou. Seus corpos estavam curados. Apenas os espíritos permaneciam adormecidos, prontos para despertar.

A rapidez e precisão do milagre eram apenas um vislumbre do que Liora tinha sido na sua melhor época — no campo de batalha, onde lutou ao lado do Primeiro Herói, Kazis Valerion, e dos campeões das grandes casas.

Naquela época, ninguém temia ferimentos. Com ela ao seu lado, feridas desapareciam num piscar de olhos.

Até diziam que a Santa do Amanhecer podia recuperar almas da própria morte, contanto que chegasse a tempo.

Diante de uma figura assim, Uriel só sentia gratidão — e admiração.

Quando viu Frey e Snow restaurados, ela se curvou mais uma vez, agradecendo à Santa do fundo do coração.

Mas Liora a interrompeu novamente.

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