O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 570

O Ponto de Vista do Vilão

Ele parecia completamente consumido, com o rosto tenso de dor. Mas no momento em que Snow se aproximou, os olhos de Frey se abriram repentinamente.

Seus olhares se cruzaram. Frey inspirou profundamente, lutando para absorver aquela aura violeta de fúria que emanava dele, enquanto a terra ao seu redor tremia violentamente em resposta. O esforço de contê-la ferveu a energia de modo tão intenso que o lago literalmente evaporou—desaparecendo completamente.

Passaram-se minutos. Finalmente, Frey conseguiu controlá-la, saindo do leito seco do lago com passos pesados e arrastados.

"Snow... me perdoe, não percebi sua presença," disse Frey, com um tom arrependido. Snow permaneceu em silêncio por um momento, até que finalmente fez a pergunta que o consumia desde o início.

"O que foi aquilo, Frey? Que aura foi aquela?"

"Ah... você quer dizer isso?"

Frey levantou a palma da mão. Uma pequena esfera de aura violeta floresceu acima dela, como um minúsculo sol de destruição condensada.

Era pequena, mas carregava exatamente a mesma energia de antes.

Com um gesto desdenhoso, Frey a dissolveu em nada.

"Nada de mais. Tenho tentado desenvolver uma nova técnica para minha arsenal. Mas até agora... cada tentativa fracassou."

"Uma técnica nova..." Snow sussurrou, embora seu corpo ainda sentisse bem demais a pressão esmagadora.

Que tipo de técnica amaldiçoada carrega um poder tão terrível...? pensou, olhando para Frey.

Depois, ele percebeu algo que não tinha visto antes—distradido com a demonstração avassaladora.

"Frey, você..." Snow começou, surpreso. Frey imediatamente entendeu, colocando a máscara novamente para esconder seu rosto.

"Ah. Passei tanto tempo sozinho que acabei me esquecendo de mim mesmo."

Mas Snow já tinha visto.

"O que aconteceu com você?" perguntou com a voz baixa.

Frey suspirou. Em poucos dias, ele havia mudado radicalmente.

Agora, com o olhar atento, os sinais eram claros.

Seu rosto estava pálido, marcado com intensas olheiras negras abaixo dos olhos—como se tivesse envelhecido anos de um dia para o outro. Seus braços mais finos, mais ásperos, com a cor usual verdugada, como se alguma doença degenerativa tivesse tomado conta dele.

"Estou amaldiçoado, meu amigo. É só isso," disse Frey, como se fosse a verdade mais simples do mundo.

"Amaldiçoado? Que maldição? Quem colocou ela em você?" Snow pressionou, as perguntas saindo sem parar. Dessa vez, Frey optou por responder com honestidade.

Os dois ficaram diante do leito de lago seco enquanto Frey contava a história da sombra que carregava—a Sombra de Wesker.

Ela se infiltrava por suas veias, drenando seu corpo, sua mente, até suas forças.

Por enquanto, Frey conseguira manter os sintomas sob controle, ajudado pela máscara Sem Nome, que suprimia a influência da sombra. Mas ultimamente, os sintomas pioravam rapidamente, o aperto da sombra se intensificava. Um aviso, um lembrete de que o tempo estava se esgotando. Ele logo teria que enfrentá-la—ou pagar o preço.

"Por sorte, a cura está aqui dentro, na esfera de influência da Igreja," disse Frey. "Embora eu ainda não saiba exatamente o que é. Por isso, tentei invadir suas linhas, procurando seus líderes. Mas não consegui encontrar o esconderijo deles…" Ele se lembrou dos dias de sangue.

"Matei todos os soldados que a Igreja enviou contra mim. Até lutei contra o Anjo da Guerra deles. Tentei fazê-los me levar até seus mestres. Mas o plano deu errado. No final, acabei entrando em um labirinto—impossível de atravessar, a menos que certas condições fossem atendidas."

Ao ouvir a palavra "labirinto", Snow pensou imediatamente no lugar que ele mesmo tinha encontrado.

"Aquele labirinto… acho que consigo atravessá-lo. Na verdade, já atravessei," admitiu Snow com um sorriso torto.

Frey riu, sem surpresas. "Como esperado de quem carrega Vermithor. As defesas deles não significam nada para você."

"Pra falar a verdade, não parecia um labirinto de verdade," disse Snow. "Eu simplesmente segui um rastro de aura ao qual fui atraído—e isso me levou direto ao santuário deles. Um templo estranho, que parecia uma torres gigante. No topo… uma árvore."

"Uma árvore?" perguntou Frey, estreitando os olhos. Snow assentiu.

"Sim. Uma árvore de ouro, irradiando a aura mais pura que já vi."

No instante em que Snow mencionou a árvore, Frey caiu em profundo pensamento. Snow percebeu sua reação na hora.

"Você… você sabe alguma coisa sobre ela, não sabe?" perguntou, sem esperar uma resposta.

Para sua surpresa, Frey assentiu.

"De certa forma… sim. Acho que sei o que é aquela árvore. Provavelmente… é a Árvore do Mundo."

"A Árvore do Mundo?"

"Sim… embora eu não tenha total certeza. Uma árvore desse tipo nem deveria existir aqui, na Terra. Mas, honestamente…" Frey lançou um sorriso sombrio, levantando o olhar para o céu estrelado e a lua colossal acima, "…duvido que ainda estejamos na Terra de verdade."

"Não sei muito sobre a Árvore do Mundo. Mas o que sei é que sua própria existência exige uma força no nível daquele que forjou a lâmina que você segura."

"A mesma pessoa que criou Vermithor… Você está falando do Senhor da Luz?"

"Exato."

A resposta de Frey caiu no silêncio, uma possibilidade sombria atravessando a mente de Snow.

"Você está dizendo que o Senhor da Luz realmente está do lado da Igreja?" Se fosse verdade, significaria que eles não tinham nenhuma chance de vitória.

Mas Frey balançou a cabeça firmemente.

"Impossível. O Senhor da Luz só se importa com um humano—o portador escolhido da lâmina sagrada que ele próprio forjou. Ou seja, você, Snow. Se o Senhor da Luz fizer alianças com alguém… é com você."

Snow piscou surpreso, depois baixou o olhar para Vermithor, a espada que vinha ressoando mais a cada dia.

"Isso não faz sentido. Se o Senhor da Luz realmente estivesse do lado de mim, por que emitiria ordens tão distorcidas? Para exterminar os Estelars, os Valerions… Se ele estivesse do meu lado, saberia que eu estaria com eles. Por que ele me empurraria a lutar contra seus próprios seguidores?" Questionou Snow, com a voz tensa de confusão.

Frey ficou em silêncio por um tempo, como se também tivesse refletido longamente sobre a mesma questão. Por fim, por trás da máscara do Sem Nome, murmurou:

"Nesse caso… temos tanta certeza de que o Senhor da Luz foi quem deu aquelas ordens de início?"

"…O quê?" Snow respirou, surpreso.

"Pense bem," insistiu Frey. "Não é o Libro de Revelação o meio pelo qual o Senhor da Luz se comunica com os mortais?"

"Sim," disse Snow com cautela.

"E você realmente acredita nisso? Que um ser de poder tão imenso precise de peões de carne para eliminar seus inimigos por ele? Que ele escreva sua vontade em uma pedra inútil, ao invés de falar diretamente com seu mensageiro escolhido aqui na Terra—você?"

A ideia veio como um relâmpago. O Senhor da Luz realmente teria dado essas ordens? E, se sim, por que as direcionaria à Igreja e não a Snow—o próprio recipiente de sua vontade?

Questões, infinitas e sombrias, se espalharam como rachaduras em sua certeza.

Frey só soube das Três Decretos recentemente, quando a Igreja virou contra eles. Mas a suspeita já o corroía desde o momento em que ouviu falar delas.

"Não tenho provas. Mas mantenha essa possibilidade na cabeça, Snow… Há uma forte hipótese de que não seja o Senhor da Luz, mas sim o Arcebispo Blattier e seus comparsas, que puxam as cordas em nome dele."

"E assim, podem enganar cada alma que se ajoelha ao seu deus falso, obrigando-os a obedecer sem questionar."

Enquanto o nome do Senhor da Luz fosse invocado, os fiéis fariam qualquer coisa.

"Se você estiver certo," disse Snow com ar sombrio, "então toda essa religião foi construída sobre uma mentira…"

Uma fé que dominou o mundo por séculos. Com legiões de seguidores. Sua história, sua estrutura, sua própria existência—não passava de uma invenção orquestrada pelos homens.

"O Senhor da Luz existe," admitiu Frey. "Mas ele não é um deus. É um ser poderoso, sim. Talvez até inimaginavelmente poderoso. Mas nada além disso."

O peso da verdade pairava entre eles. Snow permaneceu em silêncio, os pensamentos tumultuados. O Senhor da Luz era real, mas não divino—apenas mais uma entidade de grande poder no vasto e impiedoso cosmos.

Existiam seres ainda maiores. O Rei Demônio Agaroth. A Primeira Assento, Crimson, cuja presença dizia-se rivalizar até com o Rei Demônio. O Rei do Panteão, Medir. Os Grandes Desconhecidos.

Monstros sob o mesmo céu. E, em comparação, eram pó. Frey convivia com essa consciência há muito tempo. Snow só agora começava a trilhar esse caminho.

Era uma estrada que levava facilmente ao desespero. E talvez por isso, Snow se levantou, com um sorriso tenso.

"Então vamos lá, Frey. Vamos acabar com isso."

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