
Capítulo 341
O Ponto de Vista do Vilão
Capítulo 341: Leão de Neve (4)
A Orfanato Yosefka nunca deveria ter existido nas terras do Império, para começar.
O fato de ter durado tanto tempo já era um verdadeiro milagre.
A verdade estranha daquele momento... era que Yosefka não era a única. Era apenas um ramo — um entre muitos, parte de uma organização muito maior.
O lugar onde Snow morava era apenas uma peça disso tudo.
Alguns dias antes de sua fuga...
"Essa instalação foi descoberta. O Império atacará a qualquer momento. Terminem as atividades e evacue imediatamente."
Foi o que o Diretor disse antes de partir — como sempre.
Ele deixou apenas Annalise, junto com o restante da equipe que trabalhava ali dentro.
E agora... aqui estavam eles.
As chamas consumiam o orfanato sem parar.
Snow correu direto para o incêndio, suportando o calor abrasador enquanto arfava por ar.
Quanto mais fundo ele ia, mais cadáveres carbonizados encontrava.
Crianças e adultos, ambos.
Corpos queimados além do reconhecimento, encharcados de fogo e sangue.
Naquele dia, o orfanato seria apagado — como se nunca tivesse existido.
Mas Snow não se importava.
Ele só queria encontrá-la.
E após uma busca desesperada pelo inferno, finalmente viu as costas daquela mulher.
De pé no meio das labaredas furiosas...
Snow estendeu a mão e gritou o nome dela sem pensar duas vezes.
"Mamãe!"
Annalise virou-se imediatamente, com a boca envergonhada de surpresa.
Parecia que ela tinha procurado por ele tão desesperadamente quanto ele.
Sem hesitar, ela correu em sua direção e o abraçou forte.
Eles se esforçaram para se manterem juntos no coração do inferno.
Mesmo agora, Snow ainda se lembrava do calor do corpo dela, apesar das chamas infernais ao redor.
Por um instante, ele se sentiu feliz só de vê-la de novo.
"Ah, Snow... você está aqui. Você não imagina quanto tempo procurei por você."
Naquele momento, Snow sentiu uma onda de alivio.
Lágrimas começaram a correr pelo seu rosto antes mesmo de perceber, e ele pediu desculpas entre soluços sufocados.
"Me desculpe... desculpe por ter ido embora sem você. Desculpe por ser um garoto ruim."
"Tudo bem."
Annalise acariciou suavemente seus cabelos enquanto repousava a cabeça em seu ombro estreito.
"Tudo bem. Você é um bom menino, obediente. Vai ficar tudo bem."
Essas mesmas palavras — novamente.
As mesmas palavras onde tudo começou.
Enquanto a segurava, Snow de repente sentiu algo sendo arrancado dele, seguido por uma dor ardente.
Sangue escorria de seu ombro.
Ele virou-se, em choque, para encarar a mulher que uma vez chamou de mãe...
Só para encontrá-la saboreando o gosto de sua carne, após dar uma mordida gigante em seu ombro.
"M-Mamãe...?"
"Ahh..."
Annalise respirava pesadamente.
"Você não entende, Snow."
Ela lentamente lambeu o sangue dos lábios e inalou o cheiro do garoto nos braços dela.
"Você não sabe quanto tempo esperei por esse momento."
"O quê...?"
Snow tentou perguntar, ainda incapaz de entender o que estava acontecendo.
Mas Annalise enterrou o rosto no pescoço dele novamente.
"Pela Senhora Yosefka."
Snow congelou no lugar, sua mente vazia, enquanto Annalise continuava roendo sua carne macia.
Que tipo de canibais eram eles? E quem era Yosefka?
Essas perguntas passavam por sua cabeça atordoada — mas nenhuma delas importava.
O que importava... era que ele havia sido traído.
Traído por sua única luz.
Snow chorou amargamente, perguntando-se a mesma coisa repetidamente...
"Por quê?"
Por que tudo isso aconteceu? Aquela mulher tinha sido tudo para ele.
E agora, aqui ela estava, devorando-o vivo.
Talvez o Diretor não fosse o que se alimentava das crianças.
Talvez fosse ela o tempo todo.
A mais próxima deles.
Desde o começo, ele foi enganado.
Seu corpo... e seu coração... ambos jogados com manipulação.
"Imperdoável."
Isso era imperdoável.
No final, tudo o que ele tinha passado fazia parte de uma peça distorcida. Ele era apenas um peão.
Sim, a morte de todas aquelas crianças não foi culpa dele.
Mas a dor ardente no peito... era mais profunda do que qualquer ferida.
"Imperdoável."
Não tinha sido ele.
Eram eles.
O Diretor. E ela.
"Annaleise..."
Ela havia parado de morder... não, ela foi forçada a parar.
A carne do garoto tinha ficado mais dura que aço.
Ela recuou, chocada, ao ver o corpo de Snow, agora coberto por marcas douradas radiantes.
Símbolos que ela não entendia.
Leão de Neve levantou-se, sua ferida não mais sangrando. Seus olhos dourados estavam vazios e mortos.
Com uma expressão sombria, ele caminhou lentamente até Annalise.
"Snow... o que você está fazendo?"
A mulher, com sangue ainda no rosto, gritou e avançou.
"Eu te disse para ser obediente!"
Ela o atingiu violentamente, gritando ainda mais forte —
"Eu te disse para ser um bom garoto!"
Ela continuou batendo nele, até uma dor aguda percorrer seus braços.
Quando olhou para as mãos, viu que estavam completamente quebradas.
Annalise sentiu que algo estava errado.
Ela era da Classe S... como um simples garoto poderia bloquear seus ataques só com a pele?
Mas o que estava diante dela não era um garoto.
Snow Leão de Neve nem sabia mais o que estava acontecendo.
Com um olhar aterrorizante, ele avançou contra Annalise, sigilos dourados brilhando por sua pele.
"Você ia me matar há poucos momentos."
Com um golpe brutal, ele fez Annalise voar através do fogo.
"Então, você não se importaria se eu fizer o mesmo, não é?"
"Seu covarde de merda!"
Naquele dia, eles entraram em confronto.
Snow sentiu seu corpo afundar no desconhecido, enquanto uma força estranha tomava o controle dele, movendo-o como bem entendia.
Tudo tinha sido destruído...
Ele tinha perdido ela. Perdido a si mesmo. Perdido tudo ao seu redor.
E assim, ele deixou de se importar com qualquer coisa.
Naquele dia, um simples garoto sem treinamento formal derrotou alguém da Classe S.
Enquanto ela jazia diante dele, amaldiçoando-o com todas as forças, Snow lhe sorriu tristemente.
"Para ser sincero," ele murmurou, "quero tentar... aquela coisa de que vocês tanto gostavam. Quero saber o que realmente te levou a fazer tudo isso."
Snow segurou o corpo quebrado de Annalise no chão, inclinando-se para mais perto.
"Mas diferentemente de você, eu sou apenas um humano comum... Eu não posso comer carne humana."
Annalise não conseguia se mover. Após uma luta longa e brutal, seu corpo estava cheio de feridas — sangrando por inúmeros golpes.
E, mesmo assim, ela não conseguiu machucar Snow sequer uma vez.
Snow aproximou seu rosto do dela e sussurrou:
"Pelo menos... vou levar uma pequena parte."
"O quê...?"
"Só uma pequena parte."
Ele abriu a boca... e mordeu seu pescoço.
"Uma pequena parte de você vai viver dentro de mim pra sempre."
O sabor do sangue e carne imunda dela encheu sua boca, e ele lutou contra a vontade de vomitar.
Annalise assistia, sem acreditar, com o corpo destruído e sua morte iminente.
Por mais que implorasse à sua Senhora Yosefka por força, esta nada lhe ofereceu. Ela foi abandonada—deixada para morrer.
Pensar que ela iria acabar sendo comida por alguém... por quem mais ela pensava que iria morrer assim?
Snow chorou naquele dia, o rosto banhado de sangue.
"Adeus... Mamãe."
Acabou.
Mais tarde, quando as forças do Império chegaram — lideradas pelo ex-diretor do templo, Raphael Bloodmader...
não encontraram nada além de cinzas.
No meio dessas cinzas, estava sentado um menino sozinho, queimado e ensanguentado, ao lado do corpo de uma mulher dilacerada por incontáveis ferimentos.
O menino sobreviveu.
A mulher não.
E ainda assim... Bloodmader sentiu algo estranho emanando do corpo do garoto.
Um poder que ele não conseguia compreender completamente.
"Você," chamou ele.
Mas os olhos dourados de Leão de Neve estavam distantes — completamente perdidos.
Bloodmader se agachou ao seu nível e lentamente puxou uma lâmina fina do casaco.
Ele passou a lâmina na bochecha do menino, fazendo um corte superficial.
Naquele momento, Snow segurou a lâmina com força — sangue escorrendo de sua mão enquanto encarava diretamente os olhos de Bloodmader.
O diretor sorriu.
"Venha comigo... criança nascida das cinzas."
Naquele dia, Raphael Bloodmader encobriu o incidente e levou o menino consigo... de volta para casa.
Mais tarde, Snow descobriria que tudo o que tinha vivido fazia parte de algo vindo de outro continente —
O continente de Ultras.
E naquele dia, o garoto traçou uma nova meta para si mesmo...
Um alvo digno de sua lâmina.
O diretor do orfanato, aquela quem tudo começou...
O Pai.
Smough.
Assim começou a história de Snow Lionheart.