O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 337

O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 337: O Jogo da Bruxa (2)

Snow se dirigiu em direção à maior tenda—

Se houvesse alguma resposta, estaria lá dentro.

Ele entrou silenciosamente.

O que o recebeu não era uma pista..

Mas um rugido ensurdecedor.

A multidão explodiu em aplausos enquanto luzes cegantes iluminavam de cima, deixando o interior da tenda num espetáculo deslumbrante.

O espaço tinha sido magicamente isolado acusticamente.

Nenhum som chegava do lado de fora.

Dentro, o ar estava pesado com suor e sangue.

Ao contrário das figuras encapuzadas lá fora, as pessoas aqui mostravam os rostos…

Suas peles secas e rachadas, traços afilados e desgastados, como se todos sofressem de uma doença crônica.

Todos os olhos na multidão estavam fixos no centro do ringue.

Uma arena gigante.

Iluminada por luzes penetrantes, o ringue servia como campo de batalha.

Dentro, dois homens altos, quase nus, chocavam-se com lanças descomais, lutando como animais selvagens.

Seus movimentos eram brutais e pouco refinados—

Só ofensiva, sem defesa.

Eles se atacavam sem hesitar, atingindo suas armas na carne novamente e novamente, até que o sangue encharcasse a arena e seus corpos se tornassem massas irreconhecíveis de carne esmagada.

A cada choque entre os gigantes, a multidão pulava em gritos ainda mais altos—encorajando-os a lutar com ainda mais ferocidade.

E, em poucos minutos, um dos colossos caiu, morto após um combate brutal e sangrento.

O vencedor rugiu ao máximo de seus pulmões, proclamando sua vitória.

Assim que a luta terminou, um holofote ainda mais brilhante focou no centro da arena, revelando um estranho homem avançando.

Ele usava uma máscara preta e trajes de circo, abrindo os braços dramaticamente em direção ao público.

"Senhoras e senhores! A batalha acabou! Sabem o que isso significa?"

Sua voz, amplificada com aura, ecoou pelo interior da tenda.

E a multidão respondeu com um esforço uníssono retumbante:

"Hora da escravidão!!"

Ao grito, o homem mascarado lançou com facilidade o cadáver do gigante fallen ao alto, num lançamento impossível.

Com uma lâmina reluzente, ele realizou um movimento giratório de tirar o fôlego.. cortando o corpo gigante em pedaços de carne crua que choviam sobre a arena como chuva carmesim.

Membros. Tripas. Peito. Até mesmo o rosto.

No momento em que esses restos humanos tocaram o chão, a multidão entrou numa verdadeira loucura.

Homens e mulheres se lançaram numa briga frenética—mordendo, arranhando, esfaqueando uns aos outros por pedaços de carne.

Eles se destruíam por uma simples mordida num prato de carne considerado uma iguaria.

E tudo isso acontecia bem diante dos olhos de Snow.

Ele observava, com expressão grave.

"Isso não foi uma batalha..."

Seu olhar dourado escaneou a arena, juntando as peças no final.

"Essas pessoas... vieram aqui pra comer."

Foi então que Snow percebeu o quão ingênuo tinha sido.

A multidão devorava carne humana como feras famintas.

E, assim que o estoque acabou, eles se voltaram uns contra os outros—consumidos pela fome.

Homem ou mulher—não fazia diferença.

Eles lutavam. Matavam. Se alimentavam uns dos outros como monstros.

Então, quando acabou e seus rostos sangrentos haviam se alimentado, eles aplaudiram, dançaram e cantaram como se nada tivesse acontecido.

Eles comiam, bebiam, comemoravam—

Até se entregando a atos públicos de depravação sem vergonha.

Nu. Selvagem.

Como...

"Animais."

Pela primeira vez na vida, Snow sentiu um verdadeiro desespero pela humanidade.

Não tinha mais nada ali—apenas podridão.

Virou-se para ir embora daquele lugar miserável.

Mas parou.

Algo chamou sua atenção.

Algo que ele não poderia ignorar.

Ele aceitava o horror. Aceitava os adultos.

Mas o que viu a seguir cruzou uma linha que ele não poderia perdoar.

Quando ele virou para sair, Snow avistou um homem enorme—mais besta do que humano—sobre um menino pequeno que parecia ter no máximo seis anos.

O homem lançou o garoto ao chão e começou a espancá-lo brutalmente.

O garoto era minúsculo, encolhido sobre si mesmo, impossível de notar no meio do caos.

Seus gritos foram abafados pelo barulho da multidão, deixando-o completamente indefeso.

"Ei."

O brutamontes ficou parado.

Snow apareceu ao seu lado.

"Huh? O que você quer—ughkkk!"

Com um golpe de direita, Snow enviou o homem voando—o pescoço girando uma volta completa de 360 graus antes de ele despencar no chão...

"Eu estraguei tudo..."

Snow se ajoelhou, estendendo a mão para ajudar a criança.

O herói da Igreja conseguiu ignorar tudo até então..

Mas não podia virar as costas para uma criança sequer.

"Você está bem?"

Ele estendeu a mão.

A criança se levantou trêmula, soluçando.

Seu corpo frágil e nu estava coberto apenas por uma túnica branca imunda.

"T-Obrigado, senhor..."

Snow concedeu uma fração de sorriso, limpando a sujeira e o sangue do rosto da criança.

"Onde está sua família?"

O menino abaixou a cabeça.

"Eu... não tenho ninguém."

"Órfão, então..."

Snow suspirou, limpando a sujeira do manto do garoto.

Mas, enquanto fazia isso, seus olhos travaram em um emblema tênue costurado na roupa.

Um emblema que fazia o ar parecer ficar pesado—

E escureceu seu rosto num instante.

"S-Senhor?"

O menino recuou ao ver Snow de repente agarrar a túnica, com os olhos fixos no símbolo.

Uma pomba—com asas abertas em liberdade.

Era exatamente a mesma pomba gravada no pingente que Snow usava em volta do pescoço a vida toda.

"Yosefka..."

Ele sussurrou o nome, chocado.

"Senhor... você conhece nosso orfanato?"

A fala do menino confirmou.

"Impossível..."

Olhos dourados flamejantes de fúria, Snow se ergueu cambaleando—atordoado com o que acabara de descobrir.

"Ele não devia estar aqui..."

O orfanato.

Orfanato Yosefka—aquele pelo qual Snow procurava há anos por todo o Império.

"Por que ele está aqui... entre os Ultras?!"

Raiva fervia nas veias de Snow enquanto ele cerrava os dentes.

Isso só podia significar uma coisa—

Que aquele idiota estava aqui.

"E aí, menino bonito. O que está fazendo sozinho?"

Cegado pela raiva, Snow não percebeu o grupo de homens que o cercou.

"Você não é daqui, né? De onde você veio?"

Um homem musculoso colocou o braço ao redor do pescoço de Snow, rindo de forma zombeteira.

"Não que isso importe. Por que você não vem brincar com a gente um pouco?"

"Sua mão."

A voz de Snow era fria e monótona.

"O quê?"

"Tira essa mão imunda de mim."

Apesar de Snow ter uma estrutura física delgada e tom calmo, a intenção de morte que ele transmitia era sufocante.

O sorriso do homem desapareceu. Ele apertou o aperto.

"Você tem uma língua afiada, para alguém tão bonito... Vou garantir que você—"

BOOM!

Antes que alguém pudesse reagir—antes mesmo que a criança piscasse—

O homem explodiu numa névoa carmesim, destruído pela espada radiante que havia surgido do nada na mão de Snow.

"Eu estava tentando passar despercebido. Para facilitar para mim e meus amigos."

BOOM!

"Mas mudei de ideia."

Com outro golpe, o resto do grupo foi dilacerado—desaparecendo numa explosão de luz e sangue.

"Todos vocês vão morrer aqui."

Consumido por uma fúria pura, Snow avançou contra a multidão.

A orgia de loucura transformou-se em matança.

Todas as luzes que antes iluminavam a arena se quebraram, deixando a tenda mergulhada na escuridão total. Gritos de confusão ecoaram dos Ultras..

E, no coração de tudo isso, uma luz permanecia:

Uma espada branca brilhante, e dois olhos dourados ardendo de fúria.

Snow os atravessou como um ceifador.

Sem misericórdia. Sem hesitação. Só morte.

Os Ultras correram para fugir, tropeçando uns nos outros em pânico cego. Mas eles não podiam escapar da Lâmina Vermithor—

Nunca quando ela os cortava mais rápido do que eles podiam respirar.

O sangue corria como rios.

A maioria morreu pelas mãos de Snow.

Os demais foram esmagados sob os próprios pés.

Ele não parou. Não podia parar.

Aquele homem—

Aquele pelo qual buscava há anos—

Estava mais perto do que nunca.

Snow tinha se tornado uma tempestade de morte.

Quando as luzes voltaram a brilhar, ele permaneceu sozinho na arena..

Encharcado de sangue, cercado por montanhas de corpos rasgados e mutilados.

Com expressão séria, virou-se e foi embora.

Não suportava mais o cheiro daquele lugar amaldito.

Mas, ao passar pelos corpos, algo chamou sua atenção.

Uma figura pequena, esmagada sob o peso da confusão.

O garoto.

O mesmo garoto que ele tinha salvado—espremido até a morte no caos que Snow próprio havia desencadeado.

Provavelmente, ele havia gritado.

Mas ninguém o ouviu.

"O que me diferencia dele?"

O porco que o espancou?

Ou Snow, que o levou à morte?

Qual foi pior?

"Droga..."

Snow amaldiçoou baixinho e examinou a área.

"Cadê o líder deles?"

O homem mascarado.

Snow só queria lutar... esquecer.

Se afogar no sangue e liberar tudo que tinha enterrado fundo.

Mas, quando encontrou o corpo do homem mascarado jogado num canto—já morto—

Até essa esperança desapareceu.

"Queimar no inferno..."

Com um comando, Snow incendeiou toda a tenda.

Chamas surgiram do chão, consumindo a estrutura principal.

Os Ultras do lado de fora entraram em pânico, cercando a tenda em chamas, assustados e confusos.

Snow saiu por entre eles..

Seu corpo encharcado de sangue, sua presença sufocante.

Ninguém ousava se mover.

Ninguém ousava respirar.

Porque a intenção de morte que ele transmitia era insuportável.

Ele veio aqui procurando informações.

Mas o que encontrou...

Foi algo muito pior.

SOMBRAS do seu passado.

Memórias enterradas fundo dentro de si..

Aquelas que voltaram do abismo, por mais que tentasse esquecer.

As sombras de Yosefka.

E nos olhos dourados de Snow, essas memórias piscaram...

Desconfortáveis. Implacáveis.

Comentários