
Capítulo 339
O Ponto de Vista do Vilão
Capítulo 339: Leopardo de Neve (2)
Passaram-se dias.
Neve seguiu a mesma rotina diária por um longo tempo. Ele não tinha muitos laços, mas era observador.
Percebeu...
Como as crianças começaram a desaparecer, uma a uma...
Como elas eram praticamente prisioneiras na instituição, nunca permitidas além daqueles muros de ferro.
Havia até uma seção inteira da instituição que era proibido de entrar—
O Terreno Restrito.
Tudo isso revelou fissuras naquilo que antes parecia seu mundo perfeito.
O que realmente acontecia por trás de suas costas?
Será que o mundo lá fora sabia que eles existiam?
Neve se pegava frequentemente se perguntando.
Ele despertou a habilidade de manipular aura ainda na infância—e era indiscutivelmente dotado.
Mas o sistema educacional dentro da instituição o restringia bastante, quase como se não quisessem que ele ficara mais forte.
Sua única esperança era o tempo que passava com a Vice-Diretora Annalise.
A curiosidade aumentava no coração daquele jovem a cada dia.
Especialmente com o desaparecimento cada vez mais frequente das crianças da instituição.
Em algum momento, tornaram-se ocorrências comuns, sempre seguidas pela chegada de novas crianças para substituí-las.
Os professores afirmavam que tinham sido adotadas ou transferidas para "lugares melhores".
Muitos as consideravam sortudas.
Mas será que realmente eram?
Principalmente quando suas partidas pareciam coincidir sempre com o retorno do diretor.
Depois, ao atingir a idade de dez anos, Neve passou a ser tratado como alguém "especial", ao lado de um pequeno grupo de crianças de sua idade.
Foi quando suas dúvidas sobre a instituição—e as substâncias estranhas sendo injetadas em seu corpo—cresceram ainda mais.
Mas ele tinha pouco com que se apoiar.
O único constante... era a Senhorita Annalise. Com ela por perto, sentia que não precisava de mais nada.
E toda vez que ela o abraçava, sussurrava as mesmas palavras em seu ouvido:
"Seja um bom menino, Neve. Seja obediente, que tudo ficará bem."
Um dia, ela até lhe deu um colar.
Um pingente de prata em forma de pomba—um símbolo de liberdade.
Era o mesmo emblema usado pela própria instituição.
Mas... ele era realmente livre?
Neve sempre soube que a resposta era não.
Sua curiosidade crescia a cada dia, impulsionada pela necessidade de descobrir a verdade.
Ele já se cansara de todo o choro silencioso que seguia quando uma criança desaparecia sem dizer uma palavra.
Mas as palavras de Annalise sempre foram o suficiente para segurá-lo.
"Seja um bom menino, Neve. Seja obediente, que tudo ficará bem."
Até que ponto essas palavras poderiam continuar a segurá-lo?
Não por muito mais...
Em uma noite iluminada pela lua, Neve saiu furtivamente do quarto, deixando as outras crianças profundamente adormecidas.
Apesar do treinamento limitado, ele podia manipular aura livremente—permitindo mover-se de forma rápida e silenciosa pelo orfanato.
A zona proibida ficava no lado oeste do terreno. Para chegar lá, tinha que passar por várias áreas.
O orfanato era praticamente uma pequena cidade por si só.
Mas Neve era dotado pela natureza, e em poucos minutos alcançou aquela seção sombria e proibida do alojamento.
Ele avançou, passo após passo cauteloso.
A área estava escura. Sinistra.
Gradualmente, chegou a um corredor amplo no final do corredor, iluminado por luzes verdes tênuas que emanavam de enormes recipientes de vidro.
Era um antigo laboratório, cheio de instrumentos manchados de sangue, camas cobertas de carmesim, e o cheiro de morte.
Só isso já teria sido suficiente para assustar qualquer criança... mas algo mais capturou totalmente sua atenção.
Os enormes recipientes.
Ele se aproximou lentamente.
E então congelou.
Porque reconheceu o conteúdo.
O menino tremeram violentamente, lutando para entender o que via.
Dentro daqueles tubos cilíndricos... estavam partes do corpo humano ensanguentadas.
Braços. Pernas. Membros amputados.
Mas o que mais o assustava não eram essas partes.
Era as cabeças.
Cabeças decapitadas e preservadas—organizadas de forma ordenada dentro do vidro.
Eram pessoas comuns. Não eram estranhas.
Eram as crianças com quem ele tinha vivido por anos sob o mesmo teto.
Não eram exatamente amigos. Mas compartilhavam o mesmo espaço. Riam, choravam, brincavam e cresciam juntos.
E agora...
Seus rostos mortos o encaravam de dentro desses tubos.
A visão grotesca daquelas cabeças decapitadas, combinada com o cheiro de sangue, era intolerável para alguém como Neve Leopardo de Neve, que tinha vivido uma vida pacífica até então.
Ele nem conseguiu gritar.
Tudo o que conseguiu foi tremer enquanto seu coração pulsava violentamente no peito.
Seus instintos gritavam para correr—para sair dali imediatamente.
Mas seus pensamentos estavam nublados. O medo dominava a lógica.
Então, ao invés de recuar, ele correu mais fundo no setor proibido.
Eventualmente, chegou a uma sala.
Uma sala carregada com o aroma de sangue e morte.
O que exatamente acontecia nesta instituição? Experimentos humanos? Que tipo de mente doente havia criado aquele lugar?
A resposta aguardava atrás da porta.
Estava entreaberta.
Neve a empurrou com cuidado, só o suficiente para espiar lá dentro.
A sala estava preta como a noite, iluminada apenas por uma lâmpada pendurada no teto—que lançava luz sobre o centro.
Lá, deitado numa cama pequena, havia uma garota que não devia ter mais de oito anos.
À sua frente...
Estava o homem que tinha aterrorizado Neve por tanto tempo quanto ele se lembrava.
O Diretor.
A garota ainda estava viva.
Mas a luz já tinha se apagado de seus olhos há muito tempo.
Naquele momento, podia-se ouvir os dentes de Neve batendo. Ele tremia mais violentamente do que nunca.
O Diretor lentamente virou-se na direção dele.
A garota deitada na cama à sua frente tinha sido comida parcialmente—seu tórax direito e o estômago estavam completamente desaparecidos, seu sangue acumulando-se sem parar.
O sangue dela cobria o rosto e as vestes do Diretor.
E, entre as cicatrizes acima do olho direito, emergiram olhos vermelhos brilhantes adicionais, encarando diretamente Neve.
O menino desabou, sem conseguir mover as pernas.
Então, em uma voz profunda, o Diretor falou:
"Neve... ah, droga. O que você está fazendo aqui?"
Neve era especial—por isso, o Diretor o reconheceu imediatamente.
enxugando a boca com a manga, o homem começou a caminhar em direção ao menino.
Com cada passo, o coração de Neve afundava ainda mais.
"N-Não!"
O Diretor acelerou o passo.
"Não se aproxime mais!"
Mas ele não parou.
Ele se ajoelhou e agarrou o rosto de Neve com as mãos ensanguentadas, espalhando o sangue da garota em suas bochechas.
Seus olhos assustadores, desumanos, fixaram-se nos de Neve.
Neve podia sentir o hálito sanguinolento do Diretor roçar sua pele.
Então, naquela mesma voz gutural, o Diretor falou novamente:
"Você não viu nada... viu, Neve Leopardo?"
"Q-Que...?"
Neve hesitou. Sua mente ainda lutava para processar o que acabara de testemunhar.
"Você não viu nada. Não ouviu nada."
O Diretor puxou Neve para um abraço apertado, encharcando-o também de sangue.
"Você é uma criança obediente... não é?"
"..."
Neve ficou em silêncio.
Ele não conseguiu dizer uma única palavra. Parecia que o próprio Diabo o segurava.
"Responda."
O Diabo exigia uma resposta.
Mas o menino não conseguiu formar as palavras.
"Responda, meu Deus!!"
O rugido monstruoso quebrou toda a pouca força de vontade que Neve tinha. Tremerino, ele finalmente respondeu:
"S-Sim!"
"Muito bem."
O Diretor afastou-se um pouco.
"Muito bem. Tudo o que você viu esta noite... não passou de um pesadelo."
De repente, um golpe agudo atingiu o estômago de Neve.
O mundo dele virou de cabeça para baixo.
"Só um sonho ruim."
O garoto desmaiou no chão enquanto o Diretor olhava para ele.
Aquele menino era demais para perder. Eles não podiam permitir que morresse.
Caso contrário, seria ele quem estaria naquela mesa, não a garota.
Quando chegasse a hora, ele realmente pretendia deixar o menino partir.
Mas esse tempo ainda não tinha chegado.
Momentos depois, uma mulher conhecida entrou na sala.
O Diretor já tinha terminado de devorar a infeliz criança e agora se limpava.
Quando Annalise chegou, ele fez um gesto em direção a Neve.
"Devolva-o ao seu leito. E assegure-se de controlá-lo bem."
"Desculpe, senhor. Não esperava que esta criança quebrasse as regras. Geralmente, é muito obediente."
Annaleise fez uma reverência profunda. O Diretor se aproximou, colocando uma mão em seu ombro.
"Tudo bem. Só não deixe que aconteça de novo."
"Sim, senhor."
Elas se olharam por um longo momento—antes de se entregarem uma à outra em um abraço, consumidas por seus desejos carnais.
E ao lado… Neve Leopardo de Neve jazia imóvel no chão.
Aquele menino tinha sido engolido pela escuridão.