
Capítulo 331
O Ponto de Vista do Vilão
Desculpe ter escutado sem querer…
— Acho mais lamentável você ter testemunhado uma cena tão patética.
Com um único salto, Phoenix escalou o muro, e eu o segui logo depois.
— Nunca imaginei que veria a orgulhosa família Luz Solar brigando entre si.
— Não existe perfeição nesta vida, Frey Luz Estelar… Nossa família está longe de ser perfeita. Na verdade, se me perguntar, diria que estamos destruídos.
Atualmente, a família Luz Solar era a mais forte entre todas as casas nobres, pois possuíam três combatentes classificados como SS ou superior.
Então, ouvir Phoenix chamá-los de “destruídos” parecia irreal — mas eu sabia que havia algo mais nos bastidores.
— Isso tem a ver com o próximo Senhor da Família, não é?
Phoenix assentiu.
— Isso mesmo.
De pé lado a lado, olhamos lá de cima para a terra desolada que se estendia bem além de nós.
Foi então que Phoenix revelou algumas verdades sobre sua família.
— A família Luz Solar é um pouco única ao herdar o título de Senhor…
Ele levantou a mão, invocando uma chama carmesim, e começou a manipulá-la com facilidade.
— Tudo começou quando descobri que era o único capaz de suportar o Estilo de Combate do atual Senhor da Família — As Chamas Eternas. Na verdade, domine completamente esse estilo, algo que nem mesmo Iris, o próprio Senhor atual, conseguiu.
Assenti, entendendo o que ele quis dizer. Isso era um fato que eu já tinha conhecimento.
O Estilo das Chamas Eternas era perigoso, e só Iris Luz Solar tinha usado antes — mas mesmo ele nunca o dominou por completo. Deixou marcas duradouras, como uma barba sempre em chamas e a incapacidade de sentir calor ou frio.
Phoenix, por outro lado, o aperfeiçoou… conquistou domínio total. Uma conquista sem precedentes.
— O título de Senhor só é dado ao mais forte da nossa linhagem. Meu tio, Iris Luz Solar, foi um deles. Mas, ao contrário dele, que possuía um poder extraordinário, seus filhos não tinham força nem talento.
Iris teve apenas dois filhos, gêmeos: Ivan e Scarite.
Ambos eram considerados talentosos por padrão comum — mas sua disputa não era algo comum.
— No final, Iris escolheu mim como seu sucessor… deixando de lado seus próprios filhos.
Quando comparados à estrela ardente que é Phoenix, as chamas de Ivan e Scarite eram tênues… quase inexistentes.
— Acho que isso fez com que eles me odiassem, pelo menos um pouco.
Phoenix sorriu com amargura. Foi nesse momento que percebi — ele nunca desprezou eles. Na verdade, ele tentava protegê-los de todas as formas que podia.
— Se dependesse de mim, você estaria muito mais apto a liderar do que qualquer um deles. Você não é obrigado a protegê-los, Phoenix. Você não deve nada a ninguém.
Tentar salvar a todos nunca foi algo realista. Ele podia tentar, claro — mas, no final, fracassaria, não importa o quão forte fosse.
— A morte de Xevier é o exemplo perfeito disso.
— Eu entendo o que você quer dizer, Frey… mas não posso deixar de me sentir responsável por eles. Se eu não consigo salvar tantas pessoas assim, como posso liderar uma família inteira um dia?
É assim que Phoenix pensa…
Senti que começava a entendê-lo um pouco mais.
Ainda assim — eu não concordava completamente.
— Ninguém neste mundo consegue fazer isso, Phoenix.
— Eu sei. Mas vou tentar… do meu jeito. E mais uma coisa —
Ele se virou para mim com um sorriso tênue.
— Seu pai poderia ter feito tudo isso. Com facilidade.
Pela primeira vez naquela conversa, minha expressão mudou no momento em que ele mencionou meu pai.
— Abraham Luz Estelar invadiu sozinho o território dos Ultras, lutou contra todos lá e voltou vivo. Eu era só um garoto naquela época — mas lembro de sentir uma chama no peito ao ouvir aquilo. Pensando: como ele conseguiu?
Phoenix falou com entusiasmo. Ele se transformava na hora em que meu pai entrava na conversa… mas…
— Você não deveria se comparar ao meu pai, Phoenix.
Respondi bluntamente.
Meu pai tinha alcançado o classificação SSS, armado com conhecimentos e poderes de duas vidas.
Ele era excepcional. Isso fazia sua luz brilhar tão intensamente.
— Difícil discordar disso… especialmente vindo do filho dele.
O sorriso de Phoenix não vacilou — prova de que ele não era facilmente abalado.
Conversamos bastante depois disso. Sobre meu pai, sobre a situação atual. E, quando não havia mais o que dizer, seguimos nossos próprios caminhos.
Fui de volta ao edifício central, onde estavam os demais da classe elite.
Naquele dia… senti que finalmente consegui entender Phoenix um pouco mais.
…
…
…
Já fazia um dia desde a morte de Xevier.
Sua perda deixou todos em estado de alerta — cada um com medo de ser o próximo.
Entre eles, Sansa passava a maior parte do tempo sozinha.
As outras garotas vinham visitá-la às vezes, e ela nunca recusava…
Mas ela descobriu que preferia a solidão, longe de todos.
'Quando foi que eu me tornei assim?'
A princesa se perguntava, confusa com seu próprio estado de espírito.
Antes, a solidão era uma prisão que lembrava seu título — uma herdeira sem conexões reais.
Mas, de alguma forma, estar sozinha ultimamente lhe dava uma sensação de paz…
Como se nunca tivesse sido a fonte de sua tristeza.
Sentada na sala provisória que tinha tomado para si dentro do edifício central da cidade abandonada, Sansa passava a maior parte do tempo refletindo.
Principalmente, ela se aprofundava numa verdade dolorosa:
Ela não era mais como os outros humanos.
Seu olhar vagou até o cotovelo — o lugar onde tinha sido mordida por aquele humano mutante.
Só tinha passado um dia, e já estava completamente cicatrizado.
Nem um único sinal de cicatriz permanecia.
Ela não tinha sentido nada.
Mas, ao contrário dela, Xevier — seu colega de classe — morreu no instante em que foi mordido.
Ele morreu de forma miserável… e ela ficou viva, como se nada tivesse acontecido.
Isto só reforçava uma única verdade —
Ela era diferente.
Nem humana… mas algo completamente distinto.
Aquelas ideias consumiram ela por um tempo.
Pelo menos até que um golpe suave na porta as interrompesse.
O golpe foi delicado — suficiente para ela imediatamente presumir que fosse uma menina.
— Sim?
Sansa respondeu brevemente, e a voz vinda do outro lado falou.
— Sou eu… Quer dizer, Adriana. Trouxe comida.
A voz desajeitada de Adriana vinha de trás da porta, que Sansa então abriu.
— Você não precisava se incomodar. Eu disse que não precisava de nada.
O tom de Sansa era firme — à princípio. Mas logo amainou ao ver Adriana envergonhada recuar timidamente.
A postura tímida da garota fez Sansa suspirar em rendição.
— Pode entrar.
— Ah… okay.
Adriana entrou na pequena, desolada sala — mal mobiliada, com apenas uma cama e uma cadeira.
As duas se sentaram na cama, e o silêncio permaneceu por um tempo.
Sansa comeu silenciosamente a refeição simples de pão e purê de batatas que tinha à frente.
Enquanto isso, Adriana parecia tentar reunir coragem para falar.
— Tem alguma coisa que você quer me dizer?
Sansa decidiu ajudar.
Adriana corou, depois assentiu. Sem hesitar, abaixou a cabeça profundamente.
— Me desculpe!
O pedido de desculpas repentino fez Sansa franzir um pouco o rosto.
— Por quê?
— Por tudo. Você sempre foi gentil comigo… mesmo sendo princesa e eu apenas uma camponesa.
Apesar de como você me tratou bem, eu ainda duvidava de você. Via você como… algo inumano.
Adriana fez uma pausa por um momento. Sansa ficou olhando para ela em silêncio.
— Como sua amiga, não deveria ter agido assim. Sei que não posso obrigá-la a perdoar-me…
Mas, pelo menos, quis pedir desculpas. Sinto muito — de verdade — por tudo isso.
A tremedeira no corpo de Adriana mostrava que ela tinha reunido muita coragem só para dizer aquilo.
Era a coisa mais que tinha conseguido falar de uma só vez desde o começo.
Ela ficou alguns momentos só olhando para ela, e Adriana ficou visivelmente envergonhada…
Mas então, a princesa finalmente quebrou o silêncio constrangedor.
— Sabe, Adriana… você é uma pessoa especial.
— O quê?
— Seu rosto.
Sansa segurou suavemente as bochechas de Adriana, com os olhos grandes e negros fixos nela.
— Você provavelmente nem sabe disso, mas eu consigo interpretar rostos. Existem poucas pessoas que realmente podem esconder minha habilidade.
Resistir à minha percepção exige calma excepcional, controle emocional e uma expressão de pôquer absolutamente indecifrável.
Poucas possuíam tudo isso.
Até Frey só desenvolveu essa resistência após inúmeras situações perigosas.
— Mas você é diferente, Adriana. Mesmo sendo uma garota ingênua e tímida… eu não consigo ler seu rosto de jeito nenhum.
Sansa afastou as mãos, concluindo sua observação.
— Ainda assim, suas ações sempre revelam tudo. Você é tão simples — e acho que foi isso que gostei em você desde o começo.
Adriana era como um livro aberto. Fácil de entender, fácil de decifrar.
Diferente dos demais estudantes da elite, com famílias poderosas e nomes tradicionais, Adriana vinha do nada.
Sem status. Sem linhagem.
Seu talento era a única coisa que a trouxe até aqui.
Ela era ingênua — profundamente.
Mas talvez essa fosse justamente a razão pela qual Sansa a preferia às demais.
— Não precisa pedir desculpas, Adriana. Você não fez nada de errado. Pelo contrário… você salvou minha vida. Eu é quem deveria agradecer a você.
A princesa sorriu, mas Adriana rapidamente abanou as mãos em negação.
— N-Não! Eu não fiz nada de importante!
Ela ficou nervosa, acidentalmente derrubando os óculos.
Sansa os pegou no ar e os colocou cuidadosamente de volta no rosto dela — e ambas riram juntas.
Talvez nem tudo pudesse ser consertado…
Mas, por enquanto, sua relação tinha sido restaurada.
As duas passaram o resto da noite conversando —
E, assim, a segunda noite chegou ao fim.