O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 328

O Ponto de Vista do Vilão

– Ponto de vista de Frey Starlight –

Será que… quando tudo começou?

O ponto de virada que mudou tudo — e brincou com o destino da humanidade.

Penso que tudo começou quando Phoenix voltou com o príncipe e Ghost, após passar exatas sete horas explorando a cidade isolada que havíamos encontrado mais cedo.

Ao retornarem, Phoenix contou que o local era uma cidade fantasma… completamente desprovida de vida humana. A cidade inteira tinha sido abandonada pouco antes de chegarmos.

A má notícia era que, apesar do tamanho, a cidade não continha nada de valor real que pudesse ajudar nosso grupo a sobreviver nas terras infernais dos Ultras.

Mesmo assim, nem tudo era inútil. Decidimos ficar na cidade por ora. Um dos prédios tinha alguns colchões e roupas limpas, pelo menos.

Montar acampamento ali não era a pior ideia, já que era uma área totalmente fechada. Se acontecesse algo, poderíamos reagir adequadamente.

Essa foi a decisão atual de Phoenix — e foi onde seu relato terminou.

Porém, por alguma razão… a expressão sombria em seu rosto levantou muitas perguntas. Como se ele tivesse visto algo que ninguém deveria testemunhar — algo trágico o bastante para marcar aquela expressão em seus traços.

Clara ou claramente, Phoenix tinha escolhido esconder a verdade, assim como Ghost e o príncipe, na esperança de não piorar mais a moral já frágil do grupo.

Infelizmente para eles, eu já tinha visto tudo.

Usando minha habilidade de Visão em terceira pessoa — e aproveitando os 50 Pontos de Afeição que tinha com Ghost — eu os acompanhava desde o começo, completamente invisível.

Foi assim que testemunhei tudo o que eles viram.

Contratos de terceira geração. Demônios. E a verdade de que o selo já tinha sido quebrado.

Consciente desses fatos aterrorizantes, escondi tudo por trás da minha expressão fria habitual. Mas, lá no fundo, também fiquei abalado.

O verdadeiro problema não era a criação de Demônios ou a reabertura dos portões. Eu já tinha conhecimento disso há muito tempo — afinal, fazia parte da história que uma vez escrevi.

O problema… era o timing.

Eles chegaram cedo. Muito, muito cedo. Assustadoramente cedo.

Esses eventos não deveriam acontecer até muito depois da guerra que viria com os Ultras — pelo menos anos a partir de agora.

Mas, de alguma forma, pulamos na linha do tempo de forma tão drástica que os portões já estavam abertos.

Neste ritmo, isso não era mais uma guerra. Era uma jogada de azar.

Uma jogada na qual tudo o que podíamos fazer era orar… e esperar que nada realmente monstruoso cruzasse aqueles portões agora reabertos.

Porque qualquer demônio dos 15 assentos superiores sozinho seria suficiente para dizimar todo o Exército Imperial.

Só podíamos rezar… para que a Terra — aquele planetazinho no fim do mundo — não fosse atraente para eles.

De qualquer forma, fiquei tão perdido em pensamentos que só saí do transe quando chegamos à cerca da cidade vazia.

Phoenix parou deliberadamente no alto.

“Todos, vamos até o centro da cidade e descansar um pouco.”

“E você?”

Os gêmeos Sunlight, que estiveram grudados a Phoenix como sombras, falaram, claramente querendo ficar perto dele.

“Vou ficar na muralha, caso aconteça algo.”

“Então ficaremos com você!”

Phoenix levantou uma sobrancelha ao olhar para Ivan e Scarite, que insistiam em permanecer.

Se algo acontecesse, eles só atrasariam Phoenix, mas, por alguma razão, ele não conseguiu recusar seus primos.

“Não recomendaria… mas também não vou impedir vocês.”

Pelo jeito que os tratava, era fácil perceber que havia algo mais profundo entre os membros da família Sunlight.

Mas essa não era a preocupação agora.

“Tem certeza disso, Professor Phoenix? Você claramente é o mais forte entre nós. Se algo acontecer e você não estiver em condições, pode ser desastroso.”

Ficar de guarda sozinho, sem nem um momento de descanso, poderia ter sido uma decisão terrível.

Porém, Phoenix meneou a cabeça com determinação.

“Vou ficar bem. Não subestimem a resistência de um Acordado rank SS. Posso passar uma semana assim antes de meus energias se esgotarem.”

Sua resposta me deixou sem mais palavras.

Phoenix realmente pretendia carregar todo o peso sozinho.

Alguns dos estudantes relaxaram visivelmente só de ouvir isso. Eles confiavam nele de verdade.

Porém, isso não era bom. Este lugar era vasto, e o inimigo nos cercava por todos os lados. E se Phoenix, de alguma forma, se separasse de nós?

Seria o fim para muitos deles…

Eu quis dizer algo — mas preferi ficar quieto. Minha posição no grupo ainda era incerta.

Então, por ora, decidi seguir em frente.

Depois de deixar Phoenix e seus primos para trás, seguimos rumo ao centro da cidade… o mesmo prédio administrativo onde haviam encontrado os cadáveres.

A ironia era absurda. Estávamos quase dormindo bem ali, no mesmo lugar onde todos aqueles corpos tiveram um dia repousado.

Mas Phoenix tinha incinerado tudo lá embaixo, então não sobrava nenhuma pista do que tinha sido feito.

“Tem água limpa, mantas e camas aqui. Escolham o que preferirem e cuidem de vocês,” disse Ghost simplesmente enquanto nos guiava ao local adequado.

Assim que todos confirmaram suas palavras, imediatamente começaram a se movimentar, rindo e fazendo barulho, com os rostos iluminados de alívio.

Água para tomar banho, lugares limpos para dormir… só o fato de não precisarmos acampar ao ar livre trouxe uma felicidade imensa a todos — principalmente às meninas.

“Por que tanta animação? Ainda estamos no nosso primeiro dia aqui,” comentou Danzo.

Assenti com a cabeça, concordando. Não parecia razoável comemorar tanto após apenas um dia.

“Esses garotos realmente são a elite da humanidade em quem podemos confiar?”

Danzo bufou, e eu não consegui evitar de rir.

“Sabe que vocês e eu temos a mesma idade, né?”

“Olhe isso.”

Ele apontou para seus bíceps, enormes, duros como blocos de pedra — além de um tórax largo, abdômen forte e corpo imponente.

“Essa máquina de destruição parece algo desses palhaços?”

Não sabia como responder. Danzo tinha um ponto. Seus cabelos grisalhos, pele clara e as inúmeras cicatrizes o deixavam parecer bem mais velho do que realmente era.

“Você tem razão… até parece mais velho que Phoenix, meu querido amigo.”

Não que ele fosse o único. Daemon, que tinha se despido na nossa frente para um banho, também não era de faltar… e nem Ragna, que estava sozinho.

“Ainda tenho mais a oferecer.”

Danzo cerrava os punhos, a expressão ficando mais séria.

“Algo na cabeça?”

Ele parecia um pouco surpreso com minha pergunta, antes de soltar uma respiração profunda.

“Sou mesmo tão fácil de ler?”

“De jeito nenhum. Já passei tempo suficiente contigo para saber quando algo não está certo.”

Depois de dois anos inteiros, entender Danzo não era difícil — sem precisar do Sistema de Afeição.

Danzo se recostou na parede ao meu lado, com os olhos fixos no teto.

“Nem vale a pena falar disso, na verdade. Eu só…”

Ele abriu a palma da mão, deixando sua aura se formar — criando a imagem de um dragão prateado circular.

“Mal consegui passar pela última batalha. Mesmo com inimigos fracos, o escudo me drenou completamente… Enquanto isso, Daemon Valerion nem suou.”

Danzo rangeu os dentes, a frustração evidente.

“Quero ficar mais forte.”

“Já é forte.”

“Heh… não preciso ouvir isso de você, gênio.”

Gênio.

Murmurei essa palavra silenciosamente, percebendo como a percepção alheia a meu respeito vinha mudando.

“Será que pareço mesmo um?”

Perguntei sem pensar. Danzo respondeu sem hesitar.

“Sim. Você é um gênio. Tudo o que alguém como eu pode fazer é tentar te acompanhar.”

Havia profundidade nas palavras dele — isso não era só papo furado.

Danzo era a pessoa mais dedicada que eu conhecia. Treinava dia e noite, sempre buscando se aprimorar.

E mesmo assim, não importava o quanto se esforçasse, muitas vezes era superado por outros — aqueles que nasciam sob o rótulo de “gênio”.

Gênios abençoados com um poder avassalador que os permitia superar alguém como Danzo com bem menos esforço.

De algum modo, tinha me tornado um deles.

Porém, odiava ser chamado assim. Afinal, o poder que fazia todos admirarem não era nem mesmo meu de verdade — era emprestado.

Inconscientemente, toquei a máscara escura e sem nome que sempre carregava comigo, escondida sob as roupas.

Eu era aquele que confiava numa força que nem era minha de fato, enquanto Danzo construiu seu poder do zero.

Não tinha direito de me chamar de gênio na frente dele.

“Mas não vou desistir!”

Ignorando meus pensamentos mais uma vez, Danzo se levantou de repente, olhos ardendo de determinação renovada.

“Se o que faço não for suficiente… então vou dobrar meus esforços!”

Por um instante, fiquei paralizado, admirando-o… e a maneira como ele sempre seguia em frente.

Com um talento que talvez nunca o levasse ao rank SS… ele ainda queria lutar. Ainda desejava desafiar gênios como Daemon Valerion, que nasceu com tudo.

Naquele momento… percebi que o admirava de verdade.

“Você realmente é algo demais…”

“Não precisa me dizer. Eu já sei.”

Com um sorriso, segui atrás dele em direção aos chuveiros. De verdade, ficar ao lado de alguém como ele me fazia sentir grato. Sua presença me salvou de várias formas.

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