
Capítulo 247
O Ponto de Vista do Vilão
Que cena sombria.
Mergo…
Com uma mão repousando na empunhadura de sua lâmina oculta... Aether, Gavid Lindman lançou um olhar de soslaio para o velho bêbado e cambaleante que chegou atrasado.
O velho cumprimentou seu igual com um sorriso fraco, quase invisível através do cabelo selvagem que cobria a maior parte do rosto dele.
— Senhor Lindman, tão diligente quanto sempre… Então, participou da batalha?
— Só dei o golpe final. Mal cheguei a tempo.
— Isso ainda é impressionante.
Mergo elogiou, embora o rosto de Gavid frísse ainda mais.
— Que pena, realmente. Eu teria chegado mais cedo se tivesse suas habilidades de manipulação espacial.
— Você está certo. É uma pena que você não tenha—ha ha!!
Mergo riu, ignorando a provocação deliberada.
Com seu teletransporte, poderia ter entrado na batalha desde o início, e se tivesse feito isso, talvez tivessem vencido o Pontífice bem mais rápido... sem pagar o preço.
Porém, optou por não.
— Astaroth não ficará feliz com esse resultado.
— Ele pode pensar o que quiser. Assim como você.
De pé em planícies desoladas, numa terra que já havia bebido sangue e corpos, a morte se tornara rotina.
— Quantos mortos desta vez? Centenas? Talvez milhares... O Pontífice estava particularmente animado hoje. Uma pena o que aquele homem virou.
— Você tem pena da besta que causou tudo isso?
— Besta? Essa é uma descrição lisonjeira.
Mergo deu uma risada baixa.
— Você e eu—também somos monstros, Lindman.
— Não vou discutir isso.
— O céu e a terra…
Sem aviso, Mergo começou a falar suavemente, saboreando cada palavra como se fosse imune ao carnage ao seu redor.
— As estações mudam incessantemente sob este céu e terra, e assim também os homens seguem ciclos além do seu controle.
— Mudanças são inevitáveis. Para sobreviver, precisamos nos adaptar.
— No final, todos recebemos o que merecemos. Talvez, para nós, destruidores, nosso destino seja terminar entre esses corpos um dia.
Deitado entre os mortos ensanguentados, Mergo sorriu e fechou os olhos, entrando em uma soneca.
— Seu velho imbecil…
Gavid Lindman se virou, deixando o velho sozinho... sem vontade de continuar lidando com ele.
— Meu destino… é obra das minhas próprias mãos.
Embora tivesse dito apenas para si mesmo, Mergo ouviu claramente, e seu sorriso se alargou.
Ao abrir os olhos, observou Gavid se afastar, com a bainha de seu fino casaco ondulando ao vento.
— Pobre alma…
Gavid não tinha ideia de que caminhava por um caminho traçado pelo destino… um que o levaria exatamente onde a sentença o desejeu.
Mais tarde, o velho se levantou novamente, o cheiro de morte ainda impregnando o ar ao seu redor.
— Lá está você.
Ele acariciou a cabeça de um jovem descalço vestido apenas com uma túnica preta.
— E aí… velhão.
— O que foi, Lawrence?
— Tem tantos corpos…
— Sei. É uma pena, não é?
— Por quê?
— Por que é uma pena? Porque os mortos já não têm histórias para contar, Lawrence.
— Cada um deles tinha uma história esperando para se revelar… mas seus fios foram cortados cedo demais, seja vivendo com graça ou sofrendo.
— No final, todos pereceram.
De repente, a voz de Mergo mergulhou em uma profundidade solene, sem aviso. Lawrence coçou seus cabelos brancos e bagunçados.
— Graça? Eles não morreram por serem fracos?
— Lawrence perguntou como uma criança, e Mergo respondeu com a paciência serena de um pai.
— Pode pensar assim. Se fossem mais fortes, talvez tivessem sobrevivido.
— Então o poder decide quem vive e quem morre?
— Nem sempre.
Os dois se afastaram do campo de batalha e do barulho.
— Por que não? Você acabou de dizer que eles teriam vivido se fossem mais fortes.
Num mundo dominado pela lei da selva, Lawrence, por instinto, compreendeu uma dura verdade.
— Lembre-se, Lawrence—não importa o quão forte você se torne, sempre haverá alguém mais forte.
— Mais forte que Mergo?
— Sim. Muito mais forte que eu.
A essa altura, os dois estavam bem longe do campo de batalha com o Pontífice. Sua jornada tinha mudado para um novo objetivo: recrutar mais dos Hollow… sem aviso ou permissão.
Lawrence era um sujeito estranho, mais parecido com uma criança perdida que havia se apegado ao único homem capaz de lidar com ele—Mergo.
— Então, se força não é a resposta… o que é? O que decide quem vive e quem morre?
— Boa pergunta.
Mergo manipulou o espaço ao seu redor, distorcendo-os instantaneamente, levando os dois para longe.
— Vamos usar os Ultras como exemplo.
— Como?
— Demônios são seres de poder aterrorizante. Astaroth é apenas o décimo nono assento, e mesmo assim é um monstro pelos padrões deste mundo. E os Ultras? Simples humanos. Mas sobreviveram vendendo-se ao lado que estivesse mais forte. É assim que chegamos até aqui.
— Mas os humanos daquele lugar… o Império, também estão vivos.
— Estão. Sobrevivem. Mas o Império é intrinsecamente dividido… entre o clero, as casas nobres e inúmeras facções renegadas. Cada uma luta à sua maneira.
— Ainda assim, quando a guerra chega, eles se unem em uma única força, apesar das diferenças. Isso os torna muito mais perigosos do que parecem.
— Não entendo mais nada.
Lawrence gemeu, irritado e confuso. Ele não sabia mais qual resposta Mergo buscava.
O velho acariciou sua preciosa empírea na cabeça e olhou adiante.
— É adaptação, Lawrence.
— Adaptação?
— Sim. Seja um guerreiro justo que sobrevive mantendo suas crenças, ou um traidor miserável que vende seus companheiros… o que importa é saber se adaptar às provações da vida e da morte.
— No final das contas, só os melhores jogadores sobrevivem. Aquele que aprende a jogar o jogo da vida.
Lawrence suspirou, desistindo de tentar compreender o significado mais profundo.
— Isso é complicado demais… vou ficar com minha primeira resposta mesmo.
— Haha. Então, focar em ficar mais forte deve ser seu caminho, né, Lawrence?
Os dois continuaram conversando sem parar, sem fadiga.
Eventualmente, seus pés os levaram a um lugar estranho.
Num ermo desolado, um trecho de verde irreal surgiu… plantas exuberantes e ventos suaves, mais uma miragem do que uma realidade.
Nesse trecho vibrante de terra ficava um edifício grande… um antigo mosteiro de tijolos pretos, cercado por grandes portões de ferro. Acima da entrada, pendurado, uma placa simples com poucas palavras:
"Orfanato Yhsefka."
Um orfanato que trazia o símbolo de uma pomba… sinal de liberdade.
Um orfanato no coração de um deserto morto.
Esperança enterrada em um poço de desespero… mesmo que essa fosse a coisa mais distante da verdade.
— O que é esse lugar?
— É uma casa para crianças que perderam os pais.
— Pais…
Lawrence fez uma careta ao pensar, sua mente se esforçando para se lembrar de uma mãe ou pai que não conseguia mais recordar.
Mergo acariciou suavemente sua cabeça ao chegarem aos portões do orfanato.
Ali, um segurança corpulento olhava para eles, seus olhos brilhantes visíveis sob o elmo de ferro.