O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 246

O Ponto de Vista do Vilão

Melina não falou mais nada. Ela estava ali para ensinar esgrima, não para consertar a psique dos seus alunos.

E foi exatamente o que fez, até o fim da nossa sessão.

Depois de duas horas, Snow e eu colapsamos no chão, encharcados de suor.

Como sempre, não havíamos conseguido tocar nela.

Minha mente vagava, lutando para encontrar algum chão firme.

Depois de cada sessão, costumávamos trocar opiniões com ela enquanto assistíamos Phoenix bater a tormenta em Daemon e Danzo.

"Frey Starlight. Sua postura está deixando a desejar."

Sua voz cortou o silêncio, atravessando o ar.

"O que quer dizer?"

"Seu posicionamento é sólido, mas o problema está na sua mão direita."

Minha mão direita?

"Como assim?"

"Você tenta usá-la inconscientemente durante o combate. Isso quer dizer que manejar uma espada sozinha talvez não seja o ideal para você."

Fiquei atônito com a observação dela... ficou claro que estava diante de uma verdadeira elite.

"Pensei se um escudo poderia se encaixar nessa mão... mas não combina com seu estilo. Isso só deixa uma opção... uma segunda espada. Um estilo de duas lâminas."

"Agora que você mencionou," interferiu Snow, "não foi você quem lutou com a mão direita na Victoriad?"

Ele relembrou minhas batalhas no torneio.

Elecerrei a cabeça em confirmação.

Isso confirmou perfeitamente a teoria de Melina.

"A partir de agora, tente lutar com duas espadas. Pode ser a sua chave."

"Vou lembrar disso."

Respondi simplesmente, enquanto a sessão oficialmente chegava ao fim.

Ela não estava equivocada, é claro... especialmente porque minha mão direita já escondia outra espada flamejante.

"Um estilo de duas espadas, hein..."

A verdade é que eu tinha escondido a Irmã Sombria desde que ela caiu em minhas mãos.

A espada do meu pai... algo que considerei uma carta na manga, reservada para emergências.

De novo, isso é uma mentalidade antiga. Uma que adotei há muito tempo.

Mantenha seus ases escondidos para sobreviver a adversários mais fortes.

Todo passo que dava tinha um significado. Mas agora, até tudo isso parecia... sem sentido.

As pessoas começaram a me enxergar de forma diferente. Meu poder não era mais um segredo. Com esse nível, nenhum inimigo me subestimaria. Pelo contrário, ficariam atentos, sempre prontos para algo que eu pudesse tirar das sombras.

Então me perguntei: vale a pena esconder essa arma agora?

A resposta era sim. Escondê-la era importante. Mostrar ao mundo seria tolice.

Mas será que tudo isso realmente importava?

Queria pensar de forma mais simples.

Muito mais simples.

Essa espada era do meu pai. Sua arma. Seu companheiro mais próximo.

Queria lutar com ela.

"Quero usá-la na batalha."

Um desejo simples. Egoísta. Até impulsivo. Mas decidi honrá-lo.

Melina ainda estava lá quando voltei.

"O que houve? Encerramos por hoje."

"Gostaria de pedir um duelo, minha senhora."

"Não era isso que estávamos fazendo há pouco?"

De fato, mas desta vez... o que eu queria era algo diferente.

"Não quero outro treinamento. Quero algo mais profundo… quero uma luta até a morte."

Não queria lutar sabendo que iria escapar vivo.

E também não queria que ela se segurasse.

"Frey Starlight, não faz sentido você se esforçar ao máximo agora. Você ainda não atingiu o limite mínimo necessário para justificar um desafio assim."

Como poderia desafiar alguém que eu sequer tinha conseguido tocar?

Era esse o sentido das palavras dela.

Mas desta vez, não respondi com palavras.

"Venha."

Da minha mão vazia, a Irmã Sombria apareceu. Agarrei a katana negra pela empunhadura.

Melina mascarou bem a expressão, mas eu a vi... o lampejo de surpresa nos olhos ao perceber aquela lâmina perdida.

"A Irmã Sombria…"

"Não só isso."

Da minha outra mão, surgiu também Balerion, o Terrível Negro.

Empunhando duas espadas, ambas capazes de destruição em massa, senti-me mais forte do que nunca.

Mas o que eu realmente queria... era ver até onde podia empurrar a mulher diante de mim.

Ela avançou lentamente, olhos fixos na Irmã Sombria.

"Aquela katana… Abraham Starlight?"

"Meu pai deixou para mim como presente."

"Entendo."

Ela assentiu de forma seca, soltou o manto e sacou sua lâmina.

"Você pediu uma batalha de verdade, Frey Starlight. E é exatamente isso que vai receber."

Até ela parecia empolgada ao ver alguém empunhando duas armas lendárias.

E foi isso que a fez aceitar o pedido tão infantil.

"Venha!"

Ela abriu o duelo.

E eu aceitei.

"Lute com tudo que tem!"

Pai…

Ainda não entendo o sentido da vida que você queria que eu descobrisse.

Ainda não sei por que você me tirou o direito de morrer.

Não sei… mas, pelo menos desta vez, farei o que quero.

Sem planos. Sem manipulações. Sem truques esperto.

Simplesmente farei o que desejar... e deixarei o vento me levar aonde tiver que ir.

Depois, verei até onde ele me leva.

Com um sorriso, lancei-me numa batalha ensurdecedora contra Melina.


Do outro lado do mundo.

Gavid Lindman, o orgulhoso Portador do Éter e Senhor dos Ultras, permanecia imóvel, vestindo seu traje formal habitual, observando silenciosamente a parede de magos destruída e o mar de corpos dilacerados espalhados pelo campo.

"Uma catástrofe,"

murmurou, ao encarar a cena de devastação.

"Concordo,"

respondeu a voz do velho Mergo, que apareceu atrás dele. Juntos, observavam a mesma cena.

O Senhor Godfrey estava sendo arrastado, com o corpo ferido, ensanguentado, a armadura destruída além do conserto.

Acima deles, flutuando no ar e com olhar furioso, estava Astaroth, o 19º. posto dos Demônios... claramente abalado, seus olhos fixos numa única figura.

Essa figura jazia imóvel no centro de uma cratera gigantesca, com a armadura enferrujada ainda grudada na sua forma.

Quanto a Astaroth, não havia vestígio de seu braço direito... apenas uma tênue faixa de chama tremulando ao vento onde ele deveria estar.

"Subestimamos ele..."

Gavid Lindman murmurou, enciumado.

Ali, naquele local, tinha ocorrido a batalha que agora é conhecida como A Batalha da Prisão Eterna.

O objetivo era claro: Lorde Godfrey e suas forças deveriam recuperar o mais forte Hollow… Pontífice Sulyvahn… em preparação para a guerra que viria.

E eles acreditaram que Godfrey e seu exército seriam suficientes.

Estavam completamente enganados.

Terrivelmente enganados.

Pontífice Sulyvahn já havia atingido o Rank SS+.

Com um estilo de luta brutal e devastador, quase matou Godfrey... até que Astaroth entrou em ação no último momento.

E nem mesmo o demônio saiu ileso de um confronto com uma besta tão insensata...

Na verdade, ao lado de Pontífice Sulyvahn, até um demônio parecia racional.

O rastro do combate era evidente em todas as direções. Este lugar virou um cratera de destruição e guerra.

Uma guerra que agora se aproximava no horizonte.

No fim, os Ultras tinham sucesso.

Conseguiram capturar o Pontífice Sulyvahn.

E os Hollows agora estavam oficialmente em jogo.

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