O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 59

O Ponto de Vista do Vilão

Belgrado, a Capital Imperial – Palácio do Imperador

O grande salão estava carregado de tensão enquanto representantes das facções mais poderosas do império se reuniam, convocados em resposta às recentes convulsões que abalavam as fundações do império.

A traição que havia inflamado a ira das casas nobres e das grandes guildas foi rapidamente punida. No entanto, apesar da resposta decisiva do império, os Ultras conseguiram atacar um dos locais mais seguros que existia: o próprio templo.

Nessa crescente guerra fria, o império retaliou, enviando dezenas de assassinos do temido Tribunal das Sombras.

Agora, diante do estrado imperial onde o Imperador Maekar se sentava, ladeado pelos chefes das grandes casas e pelos líderes das guildas, estava Névoa Umbra — o assassino mais letal do império.

A notícia que ele trouxe enviou uma onda de choque por todo o salão.

Setenta e um assassinos — todos classificados como B ou superior — foram enviados ao continente dos Ultras. Nenhum deles retornou.

Na verdade, o contato foi perdido no momento em que cruzaram o Mar Demoníaco.

O Imperador Maekar soltou um longo suspiro. Ultimamente, ele não tinha ouvido nada além de más notícias.

E isso só continuava.

Enquanto Névoa se afastava, duas novas figuras se aproximaram: Leonidas Starlight e Iris Sunlight. Suas expressões eram sombrias, e os relatórios que traziam eram idênticos.

Tanto nas Terras do Pesadelo do leste quanto nas do sul, algo estava mudando.

As Bestas do Pesadelo estavam se comportando de forma errática, lançando ataques implacáveis e sem precedentes ao longo das fronteiras do império.

A frequência e a intensidade desses ataques aumentaram drasticamente, representando uma grave ameaça às linhas de frente.

O que mais perturbava os sentinelas da fronteira, no entanto, era a unidade impossível entre as criaturas. Bestas do Pesadelo que eram naturalmente hostis umas às outras começaram a atacar lado a lado, como se impulsionadas por uma única vontade. Essa coordenação antinatural as tornava exponencialmente mais difíceis de repelir.

O rosto de Leonidas escureceu.

— Conseguimos manter as linhas até agora, já que nenhuma criatura de nível superior apareceu. Mas a cada ataque, elas ficam mais fortes. E se a Névoa… ou um dos Lordes do Pesadelo emergir —

Sua expressão ficou ainda mais pesada.

— então não posso garantir que as fronteiras se manterão.

Suas palavras pesaram na sala como chumbo. No entanto, foi Iris quem, como sempre, teve a audácia de dizer o que os outros apenas pensavam.

As brasas em sua barba crepitavam suavemente, mas seu sorriso brincalhão habitual não estava em lugar nenhum. Em vez disso, seu olhar era penetrante, seu tom direto.

— Vamos parar de fingir, Leonidas.

— Os ataques das bestas, as invasões intermináveis, o incidente no templo… e a infiltração do próprio Palácio Imperial.

— É para acreditarmos mesmo que tudo isso é apenas uma coincidência?

Uma risada seca escapou dele.

— Nem uma criança acreditaria nisso.

As sobrancelhas de Maekar se franziram.

— Você está sugerindo que os Ultras de alguma forma ganharam controle sobre as Bestas do Pesadelo? Isso é impossível.

Uma voz grave o interrompeu.

— Não… não é.

O salão ficou em silêncio.

Todos os olhos se voltaram para o orador: um homem envelhecido, mas imponente, seus longos cabelos prateados caindo sobre ombros largos, seus olhos branco-leitosos, desprovidos de pupilas.

Bloodmader.

O diretor do Templo deu um passo à frente, acompanhado por uma figura baixa, de avental branco.

O último não perdeu tempo.

— Eu não diria que eles as controlam — disse ele. — Mas certamente encontraram uma maneira de manipulá-las — incitando sua raiva, desencadeando esses ataques.

Bloodmader assentiu firmemente.

— Ele está certo. Eu posso confirmar.

O homem baixo não era qualquer um. Era Ashol Eduardo, uma das maiores mentes científicas da época. Suas palavras tinham peso, e a confirmação de Bloodmader apenas aprofundou a gravidade da situação.

Levantando um dispositivo em sua mão, Ashol ativou uma tela holográfica.

Uma criatura massiva e aterradora apareceu — uma fusão grotesca de serpente e lagarto.

Uma Besta do Pesadelo Classe A — uma das entidades mais mortais a vagar pelas Terras do Pesadelo.

Ashol acariciou sua barba, girando a imagem para exibir o cadáver da besta de diferentes ângulos.

— Graças a Bloodmader, que se infiltrou nas Terras do Pesadelo Orientais sozinho, conseguimos recuperar este espécime. Agora, dêem uma boa olhada. Vocês notam algo incomum?

Enquanto os presentes examinavam a imagem, a compreensão surgiu.

O olhar de Maekar escureceu.

— Aqueles símbolos… são os mesmos.

— Precisamente.

A imagem aumentou o zoom, destacando um sigilo inscrito na carne da criatura, seu design intrincado e completamente alienígena.

— Isto, senhoras e senhores… é a catástrofe pairando sobre nossas cabeças.

Apesar do peso sinistro de suas palavras, o fascínio de Ashol era evidente.

— É uma forma evoluída de contratos demoníacos. Uma variante de segunda geração, por assim dizer.

Sua voz ficou mais animada.

— Este pequeno sigilo é diferente de tudo que eu já vi. Ele pode manipular a aura, alterar a estrutura física, até mesmo influenciar as emoções! Vocês conseguem imaginar as implicações?

Ele estava tão absorto em sua descoberta que não percebeu a mão enorme de Bloodmader se aproximando dele — até que o trouxe de volta à realidade.

— Chega de suas divagações. Chegue ao ponto.

Esfregando suas costas doloridas, Ashol resmungou.

— Seu bruto! Minhas palavras deveriam ser gravadas para as futuras gerações!

Vendo os murmúrios se espalhando pela sala, ele cedeu.

Levantando as mãos em rendição, ele revelou a verdade central.

— Esses sigilos… não foram feitos por humanos.

— São obra de demônios. De alta patente.

— Isso explica o aumento repentino de poder que vimos em certos indivíduos. É claro… esse poder tem um preço.

Um silêncio se estendeu pelo salão.

— E se os demônios podem fortalecer os humanos…

Sua voz baixou ligeiramente.

— …então não há razão para que não pudessem fazer o mesmo com as Bestas do Pesadelo.

— Isso explicaria seu comportamento enlouquecido. Afinal, demônios e Criaturas do Pesadelo vieram do mesmo lugar — os portais.

A voz de Bloodmader ecoou pelo salão.

— Vocês todos entendem o que isso significa, não é?

Um silêncio sombrio caiu sobre o salão.

As expressões variavam — algumas atordoadas, outras profundamente preocupadas. Mas Maekar simplesmente abaixou a cabeça em seus pensamentos.


Em outro lugar, dentro dos assentos reservados da família Starlight, duas mulheres estavam sentadas lado a lado.

— Estamos em apuros sérios, não estamos?

A pergunta inocente de Ada arrancou um suspiro pesado de Carmen.

— Você não entende, Ada… Isso não é apenas ruim. Este é o pior cenário possível.

Ada olhou para ela, intrigada. Carmen raramente soava tão agitada.

Na verdade, sua frustração não era apenas sobre a situação terrível… mas porque fumar era proibido dentro do salão real.

Precisando de uma distração, ela falou mais do que o normal.

— Esta reunião é um pesadelo para Maekar. Deixe-me te dar uma simples aula de geografia.

Sem esperar por uma resposta, ela continuou.

— O império fica bem no centro do mundo.

— Cercado pelas Terras do Pesadelo. O Mar Demoníaco. E o continente dos Ultras.

— Se os Ultras fossem nosso único inimigo, poderíamos nos concentrar em uma única frente. Mas não.

Ada não era alheia — ela entendia. Mas Carmen não havia terminado.

— Se eles realmente ganharam influência sobre as Bestas do Pesadelo, então este é o fim.

— Ataques virão de todos os lados — norte, sul, leste, oeste.

Criaturas do Pesadelo — milhões delas.

Algumas… não tinham maneira conhecida de serem lidadas.

— Você consegue sequer compreender a escala desta catástrofe? E isso sem mencionar os Ultras. Sem mencionar os Quatro Lordes — agora liderados por um Demônio de Alta Patente.

Enquanto a dura verdade se instalava, a expressão de Ada escureceu cada vez mais — até que, finalmente, ela soltou um pequeno sorriso desconfortável.

— Então… estamos ferrados, não estamos?

— Ferrados? — Carmen zombou. — Este nem sequer é o verdadeiro desastre.

Ela exalou bruscamente.

— Esqueça o cerco em que estamos. Mesmo dentro do império, a segurança é uma ilusão. Não é apenas preto e branco, Ada — há cinza, também. Estou falando sobre os traidores.

Seus lábios se curvaram em algo que não era bem um sorriso.

— Simplificando — por dentro e por fora…

Seu tom ficou afiado, quase zombeteiro.

— Fomos ferrados de todas as direções.

Ada permaneceu em silêncio enquanto Carmen continuava, com a voz carregada de diversão.

— Somos como uma prostituta que de repente se viu cercada por dezenas de goblins vorazes, todos ansiosos para violá-la.

Ada fingiu não ouvir essa última observação. Em vez disso, ela perguntou em um tom uniforme:

— Então, qual é a solução?

Com isso, Carmen fez uma pausa. Ela se inclinou para trás, passando um braço sobre a cadeira, seus olhos se movendo em direção ao teto em pensamento.

Então, depois de um momento —

Ela levantou a mão e apontou para o Imperador Maekar.

Ada piscou.

— O Imperador?

— Isso mesmo.

Os dedos de Carmen se fecharam em um punho cerrado.

— Há apenas uma solução para essa bagunça.

Sua voz estava firme.

— Guerra total. Atacamos primeiro. Nós os atingimos com tudo o que temos antes que eles sequer tenham a chance de retaliar.

Ela se inclinou para frente, seus olhos brilhando.

— É nossa única escolha.

Ela falou como se fosse uma coisa simples. Mas Ada sabia melhor.

— Guerra total…

Era fácil de dizer. Mas a guerra… era a pior decisão possível.

A guerra não era apenas exércitos se enfrentando em campos de batalha.

A guerra consumia tudo.

Dinheiro. Comida. Recursos. Vidas — tanto civis quanto militares.

E o pior de tudo… eles nem sequer sabiam se poderiam vencer.

Pela primeira vez, Ada sentiu o peso esmagador da responsabilidade sobre os ombros do Imperador Maekar.

Alguns, como Iris e Bloodmader, exigiam guerra.

Outros se opunham veementemente a ela.

— E quanto a você, Srta. Carmen? — Ada finalmente perguntou.

Carmen bufou.

— Eu? Eu sou totalmente a favor da guerra.

Ada franziu a testa.

— Por quê?

— Porque o momento é perfeito.

Carmen cruzou os braços, com um brilho perigoso em seus olhos.

— Os Quatro Lordes dos Ultras podem ainda estar vivos, mas seu líder? Ele já está morto.

Ada imediatamente entendeu a quem ela se referia.

— O Demônio Humano… Dragoth.

Carmen assentiu.

— Seu pai — Abraham Starlight — o matou anos atrás. Ele perdeu sua vida no processo… mas derrubar Dragoth foi um golpe devastador para eles.

Seus olhos se estreitaram.

— Mesmo que um Demônio de Alta Patente tenha tomado seu lugar… duvido que ele seja pior do que Dragoth.

Ela suspirou.

— No final, porém… a decisão repousa nas mãos de um homem.

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