O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 25

O Ponto de Vista do Vilão

É você mesmo…

Depois de apalpar meu rosto por um tempo, Carmen finalmente confirmou minha identidade.

— Poupe-me dessa bobagem… Aquele seu ataque podia ter me matado.

Com um sorriso, Carmen amparou meu corpo exausto.

— É… Mesmo que eu não estivesse falando sério, um golpe daqueles já seria o suficiente para acabar com você.

Ela ficou em silêncio por um momento antes de continuar com uma expressão arrepiante.

— Mas você sobreviveu… e com ferimentos mínimos.

Eu tinha sido pego em flagrante.

Virei a cabeça para longe de Carmen, evitando seu olhar.

— Acho que só dei sorte.

Na verdade, eu só tinha revelado uma fração de Balerion naquele momento. Ele foi quem bloqueou o ataque de Carmen. Rezei para que ela não tivesse notado.

— Sorte, hein?

É… ela não estava acreditando.

Eu precisava pensar rápido—ou inventava uma desculpa convincente ou fazia algo imprudente.

— Não sei desde quando sorte consegue bloquear um ataque de Classe S, mas você estava certa sobre uma coisa—você teve sorte de me encontrar antes dos outros.

Eu assenti em silêncio. Ela estava certa.

No momento em que escapei de Byron, meu corpo inteiro gritou comigo, avisando sobre a tempestade que vinha em minha direção.

Várias auras esmagadoras estavam se aproximando rapidamente.

Felizmente, Carmen era a mais rápida.

Se um dos Anciões que me queria morto tivesse me alcançado primeiro, eu não estaria aqui agora.

Falando em Byron…

Avistei o gigante correndo em nossa direção à distância, com o corpo inteiro em chamas com uma aura destrutiva.

Seu rugido furioso ecoou por toda a área.

— Seu bastardo! Acha mesmo que pode escapar de mim?! EU SOU BYRON!

Seu punho enorme voou em minha direção a uma velocidade aterrorizante, ficando cada vez maior à medida que se aproximava.

Mas eu não estava com medo.

O motivo estava bem ao meu lado.

Em resposta ao ataque de Byron, ela levantou um único dedo.

Um dedo.

Foi tudo o que precisou para parar o soco devastador do gigante.

Mas ela não parou por aí.

Num piscar de olhos, seu dedo perfurou o punho dele—e então seu corpo inteiro.

Com meu Olho de Falcão aprimorado, consegui acompanhar sessenta e um golpes precisos.

Mas eu tinha certeza de que ela tinha acertado muito mais do que isso.

O mais assustador?

Cada golpe tinha como alvo um ponto vital.

Byron desabou, seus membros se contraindo, completamente indefeso.

Ele não tinha ideia do que tinha acabado de acontecer.

Carmen pairou sobre ele, um sorriso malicioso curvando seus lábios.

— Bem, bem… Você não é o General Byron ou seja lá qual for o seu nome? Diga-me—minha presença era tão insignificante para você? Ou… você se tornou alguém importante sem perceber?

Os olhos de Byron se arregalaram em puro horror quando ele viu quem estava diante dele.

Ele imediatamente tentou se ajoelhar, mas seu corpo quebrado se recusou a obedecer.

Tudo o que ele conseguiu fazer foi bater a cabeça no chão numa tentativa patética de se curvar.

— M-Minhas mais profundas desculpas, Anciã Carmen… Fui cegado pela minha busca pelo intruso. Por favor, permita-me—

— Anciã?!

A voz de Carmen trovejou pelo campo de batalha.

Eu mal consegui conter uma risada.

Byron… você acabou de assinar sua sentença de morte.

Você não deveria tê-la chamado assim.

Gotas de suor escorreram pelo rosto do gigante quando ele percebeu seu erro.

— A-Ah… Q-Quero dizer, Senhorita Carmen… Minhas desculpas…

Antes que ele pudesse terminar, seu corpo enorme foi arremessado por um único chute, como um míssil.

Ele se espatifou no teto.

Depois no chão.

Depois no teto de novo.

E finalmente, ele caiu, inconsciente.

O pior erro que você poderia cometer era lembrar Carmen de sua idade.

Isso, e o fato de que ela não era casada.

Honestamente, ela provavelmente estava mais chateada com a forma como ele se dirigiu a ela do que com o fato de ele tê-la ignorado antes.

— Calma, Senhorita Carmen. Gigantes como ele tendem a ter cérebros pequenos.

— Tsc… Se ele não fosse da família, eu teria esmagado aquele crânio grosso dele.

Ela não estava brincando.

Recuperando a compostura, Carmen se virou para mim.

— Então, não só você sobreviveu a mim, como também conseguiu escapar de Byron.

— Na verdade, vários guardas me atacaram no caminho para cá… Eu só não entendo por que ninguém me reconheceu.

Carmen inclinou a cabeça.

— Reconhecer você? Claro que não. Você sequer se olhou no espelho?

— Minha… aparência?

Agora que eu pensava nisso—eu não tinha.

Eu estive preso na Seita das Sombras por um ano inteiro.

— Você parece um nobre disfarçado de vagabundo. Esse cabelo selvagem cobrindo seu rosto? Só piorou as coisas. E nem vamos falar do seu fedor.

— …Meu fedor?

Levantei a mão e dei uma cheirada.

Tudo que eu conseguia sentir era… eu.

Isso realmente contava como horrível?

— …Que diabos você está fazendo agora?

— Tentando descobrir do que você está falando.

Carmen soltou um suspiro frustrado.

— Passar um ano inteiro trancado transformou você num idiota… Vamos, vamos dar um jeito nessa bagunça.

Antes que eu pudesse protestar, ela agarrou meu braço e arrastou meu corpo exausto.

Eu sabia que era melhor não resistir a ela.

Eu não queria acabar como Byron.

Depois de dar alguns passos, Carmen diminuiu um pouco o ritmo.

— Ah, e quase esqueci de te dizer…

Ela se virou para mim com um sorriso malicioso.

— Você está oficialmente morto agora.

Eu a encarei, com uma expressão vazia.

— …Morto?


A Capital – Belgrado

Ada soltou um suspiro profundo enquanto examinava a montanha de trabalho que a esperava.

Documentos estavam empilhados em sua mesa enorme, todos exigindo sua atenção.

Desde que ela assumiu o cargo de Lorde, sua carga de trabalho tinha dobrado.

Ela sempre foi uma mulher ocupada.

Afinal, ela administrava uma grande parte dos negócios da família desde jovem.

Mas isso…

Isso não era nada comparado ao que ela tinha que lidar agora.

Ada jogou os papéis de lado e se recostou na cadeira.

Ela murmurou para si mesma.

— …Eu realizei meu sonho.

Ela tinha se tornado oficialmente a Lorde da Família Luz das Estrelas.

Era o maior desejo que ela já teve.

Desde que seu falecido pai, Abraham Luz das Estrelas, tinha deixado um testamento nomeando seu irmão, Frey, como o herdeiro legítimo, Ada tinha se sentido…

Negligenciada.

Como uma mera sombra no canto, desconsiderada pela própria pessoa mais próxima a ela.

Seu pai.

Então, ela trabalhou.

Ela sacrificou sua infância, uma parte de sua juventude.

Ela aprimorou suas habilidades, expandiu seu conhecimento e construiu um nome para si mesma.

Ela realizou o que ninguém de sua idade jamais tinha feito.

Ela não queria apenas o título de Lorde.

Ela queria o reconhecimento que vinha com ele.

Mas as palavras que ela tanto ansiava ouvir… nunca vieram.

O homem de quem ela queria ouvi-las… morreu.

Ela nunca guardou ressentimento de seu pai.

Afinal, ele era sua família.

Ela só queria ouvir…

— Você fez um ótimo trabalho, Ada.

No último ano, ela não tinha sorrido nem uma vez.

A morte de Frey a atingiu como um raio em plena luz do dia.

Ela o odiava, sim.

Ela desejou a morte dele mais vezes do que podia contar.

E ele merecia.

Mas como dizem…

— Você só percebe o valor de algo quando o perde.

Ele tinha sido corrupto, sim.

Mas ele era a última parte de sua família.

E no final…

Ele tinha mudado.

A culpa a consumiu.

Ela assumiu total responsabilidade pela morte dele.

— Eu nunca deveria tê-lo deixado entrar nas Terras do Pesadelo. Eu nunca deveria tê-lo deixado sozinho. Eu nunca deveria ter desejado a morte dele…

Tornou-se uma obsessão.

Ela agora visitava a igreja—um lugar onde ela nunca tinha pisado antes—implorando por perdão.

Apesar de não ser a razão principal...

Ada soltou um suspiro enquanto se espreguiçava na cadeira de seu escritório, com o olhar vazio.

— Por que você se foi… e me abandonou?

Ela tirou os sapatos, se puxou para cima na cadeira e enterrou o rosto entre os joelhos.

— O que eu devo fazer agora?

Naquele momento, uma batida alta e frenética ecoou pela porta.

Uma velha criada entrou apressada na sala, com uma expressão de confusão.

— Frederica? O que houve?

Ada agora residia na propriedade que tinha sido concedida a Frey, enquanto ela tinha feito da velha criada sua assistente.

Frederica respirou fundo, lutando para colocar as palavras para fora.

— Lady Ada… Frey… Lorde Frey…

— Ele voltou!

Naquele instante, a expressão de Ada se despedaçou completamente.

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