O Cão Louco da Propriedade do Duque

Capítulo 126

O Cão Louco da Propriedade do Duque

Capítulo 126

Kynda Reynolds, a Rainha Pirata, pegou a lança que voava em direção ao seu pescoço com um movimento casual da mão.

— Hah — zombou, achando aquilo completamente absurdo.

A haste de sua lança, Luin, brilhava com mana azul-escura — uma mana estranha, quase sinistra, que parecia uma mistura do mar e da escuridão. Ela agarrava sua palma, tentando consumi-la, mas ela calmamente fechou o punho, esmagando a força indomável com facilidade.

— A mana realmente puxa o mestre — comentou, seu olhar pousando em Caron, que havia causado essa loucura.

Ninguém neste mundo jamais ousou fazer uma proeza como essa. A ideia de arremessar sua própria lança de volta para ela era a maior das loucuras. Era o tipo de insanidade que apenas alguém completamente desequilibrado poderia conceber.

…Luin realmente aprovou ele?, pensou a Rainha.

A lança Luin tinha vontade própria. Ela não permitia que ninguém a empunhasse, a menos que os considerasse dignos. Nem mesmo cavaleiros que haviam alcançado 8 Estrelas conseguiam manusear Luin sem sua permissão.

E, no entanto, o garoto diante dela não só a havia empunhado, como também a havia arremessado de volta para ela com uma habilidade notável. Isso só podia significar uma coisa: Luin o havia aceitado.

Era uma situação sem precedentes na vida da Rainha.

— Caron Leston... você... — murmurou a Rainha.

Sua mente repassou a espetacular perícia com a espada que Caron havia demonstrado momentos antes, conjurando centenas de pétalas em um único movimento. Havia apenas um estilo de esgrima no continente que correspondia a essa forma.

Forma Imperial da Espada 7: Flores Caídas.

Ela a havia encontrado há muito tempo, ao enfrentar cavaleiros da Guarda Imperial. Mas nunca — nem uma única vez — a tinha visto ser executada da maneira como Caron a havia empunhado. Mesmo que a Espada Imperial variasse dependendo das características individuais do espadachim, a interpretação de Caron era totalmente inédita.

— ...Onde você aprendeu a Espada Imperial? — perguntou em voz alta, sua voz carregada de incredulidade.

Caron Leston era neto do Duque Halo, alguém profundamente arraigado nas tradições das Artes da Espada Lobo do Oceano. A Espada Imperial, por outro lado, representava uma oposição completa às Artes da Espada do Oceano. Elas perseguiam ideais totalmente diferentes.

Não importava o quanto ela tentasse racionalizar, a Rainha não conseguia entender como ele havia dominado tal técnica.

— Esse nível de esgrima não é algo que se consegue com mera observação — disse ela. — Requer anos de treinamento dedicado, uma conquista construída ao longo de uma vida.

Mana e esgrima seguiam regras diferentes. Enquanto a mana podia ser aprimorada por meio de elixires e vários métodos, a esgrima exigia nada além de tempo, esforço e prática implacável.

A habilidade que Caron, de dezessete anos, havia demonstrado momentos atrás desafiava todo o bom senso. Suas habilidades, seu caráter — tudo nele era impossível de entender.

A Rainha relembrou a reputação que o precedia. Ele é o maior prodígio do continente?

Ela tinha ouvido histórias de seus feitos em Reben, a cidade fronteiriça ao sul do império; histórias de como ele havia se infiltrado sozinho em um regimento de soldados de elite e derrubado toda a ordem de cavalaria de Reben. Elas pareciam exageradas demais para serem verdade, e ela nunca se preocupou em confirmá-las. Mas agora, de pé diante dele, ela percebeu a verdade.

Esses boatos não eram exagerados.

O rótulo de "maior prodígio do continente" era um eufemismo para alguém como Caron. Rotulá-lo como um mero prodígio parecia quase insultuoso. Ele havia superado em muito essa categoria — sua própria existência a havia transcendido.

— Em breve, sua era vai amanhecer — disse a Rainha, sua voz transbordando de pura admiração. O talento diante dela brilhava incrivelmente forte.

— Impressionante — acrescentou, as palavras carregando o peso de um mestre de uma era passada oferecendo deferência ao futuro.

Caron esboçou um sorriso tenso, sua voz tingida de exaustão enquanto perguntava: — Vai se conter?

A Rainha fincou sua lança no chão com um gesto decisivo e assentiu, então disse: — Promessa é promessa.

— Eu pensei que piratas não se importassem com coisas como promessas — disse Caron.

— Se eu não conseguisse te matar com um único golpe e também não cumprisse minha palavra, minha reputação estaria em frangalhos. E o que isso me tornaria? Apenas mais uma pirata comum? — respondeu a Rainha.

A aura mortal que a cercava desapareceu em um instante. Apesar de ter sido atacada por um jovem insolente, não havia nem um traço de desgosto em seu rosto. Em vez disso, ela olhou para Caron com algo parecido com diversão, como se achasse toda a situação bastante divertida.

— Então, você disse que queria conversar? Vá em frente, vamos ouvir — disse ela, concedendo a Caron a oportunidade que ele havia arriscado sua vida para garantir. Esta não era uma chance que ele podia se dar ao luxo de desperdiçar.

A situação permanecia terrível. Seu corpo estava machucado e dolorido por apenas um ataque. Se a Rainha mudasse de ideia agora, as coisas poderiam espiralar para um resultado ainda pior. E, no entanto, por alguma razão, Caron não se sentia tão desconfortável assim.

A Rainha é uma mulher gananciosa, pensou ele. E isso, ele raciocinou, a tornava uma mulher calculista também.

— Se você não tivesse aparecido, eu estava planejando matar todos eles — começou Caron, seu tom deliberado.

— Hmm, eu acho que você provavelmente teria conseguido — respondeu a Rainha, seu olhar passando brevemente para seus arredores. — Duvido que essa fosse a extensão de seus preparativos. Mas e aquele poder? O que exatamente é isso?

Ela gesticulou com o queixo em direção a Bessic, que ainda estava travado em uma batalha frenética com Edward. Seus olhos estavam selvagens, fazendo-o parecer completamente desequilibrado.

Caron deu de ombros e respondeu com indiferença: — Vamos chamar de... Raiva. É minha arma secreta.

— Esse é um nome apropriado. É magia? — perguntou a Rainha.

— Tecnicamente, é um espírito — respondeu Caron.

— Um espírito que espalha loucura, hein? Esse é um espírito problemático — comentou a Rainha, soltando um zumbido pensativo enquanto estudava o rosto de Caron. Ela se perguntou o que esse lunático estaria planejando dizer em seguida.

— Eu gostaria de lhe oferecer uma chance, Vossa Majestade — disse Caron, seu tom mudando repentinamente para algo mais formal.

— Que chance você está falando? — perguntou a Rainha, erguendo uma sobrancelha.

— Retire todas as suas forças agora e prometa nunca mais pisar nesta floresta — disse Caron.

A audácia de sua exigência era quase risível. Embora suas palavras fossem educadas, a mensagem era pouco mais que uma ameaça velada.

A Rainha riu incrédula e disse em voz baixa: — Você realmente não conhece o seu lugar, não é? Agindo tão ousadamente só porque estou pegando leve com você?

— Bem, já que você já está pegando leve comigo, por que não levar isso até o fim? Certamente você não acha que eu diria isso sem uma condição? — respondeu Caron com um sorriso irônico.

— Suas besteiras são pelo menos divertidas, então vou ouvir por enquanto. Vá em frente, continue falando — respondeu a Rainha com interesse, inclinando-se ligeiramente.

— O motivo pelo qual você está atrás do filhote. Não é porque você quer abrir o tesouro de Etyron? — perguntou Caron, sua voz firme apesar da gravidade de sua afirmação.

Com essas palavras, os olhos da Rainha brilharam com ganância. — Você sabe mais do que aparenta — disse ela, sua voz carregando uma curiosidade perigosa. — Quem te contou sobre isso?

— Deixe-me confirmar uma coisa primeiro — respondeu Caron calmamente. — O tesouro é seu objetivo?

— Na maior parte — respondeu a Rainha.

A suposição de Kerra estava correta.

Caron deu um pequeno aceno antes de mergulhar direto no cerne da questão. — Quando chegar a hora, eu abrirei o tesouro de Etyron para você. Os detalhes mais precisos podem ser discutidos então.

Os lábios da Rainha se curvaram em um sorriso cheio de intriga. Ela disse: — Parece que você já fez contato com o filhote.

— E se eu tiver? — respondeu Caron, seu tom firme e comedido.

— Você está subestimando minha ganância — disse a Rainha friamente. — Eu posso simplesmente te matar aqui e pegar o filhote eu mesma, não posso?

— Isso seria lamentável — começou Caron, sorrindo ironicamente antes de continuar, — já que estou lhe oferecendo um acordo bastante generoso.

— A negociação só funciona quando ambos os lados são iguais. Por que eu me incomodaria quando posso simplesmente matar e pegar o que quero? Por que eu perderia meu tempo? — perguntou a Rainha.

O sorriso de Caron se alargou, assumindo um tom amargo. — Tem certeza de que pode lidar com as consequências?

— Seu pirralho insolente — disparou a Rainha. — Minha paciência não é infinita.

Sua voz era como uma lâmina, afiada e ameaçadora, mas Caron continuou a encontrar seu olhar com um sorriso inabalável.

— Se você recusar minha proposta — disse ele, seu tom se tornando mortalmente sério —, eu destruirei tudo o que você construiu. Pode levar algum tempo, mas posso te prometer que vai acontecer.

— Essa é uma bela história, mas isso só é possível se você puder sair deste lugar vivo — disse a Rainha, seus olhos se estreitando. — Mas aos meus olhos... eu não vejo nenhuma maneira de você escapar.

— Pode ser difícil bloquear seus ataques — admitiu Caron —, mas estou confiante de que posso sair vivo.

— E o que te faz pensar—

Antes que ela pudesse terminar, a Rainha sentiu algo voando em sua direção com uma força incrível. Instintivamente, ela girou sua lança amplamente.

Clang!

Uma enorme onda de choque se propagou pelo ar, atingindo seu corpo. Através da névoa, ela avistou um homem parado além do alcance de sua lança. O reconhecimento brilhou em seus olhos quando ela gritou: — Caron Leston! Esse é o seu movimento final?

O homem do outro lado de sua lança sorriu sombriamente e retrucou: — Se você vai envelhecer, deveria ter feito isso com elegância. Ameaçando crianças na sua idade? Mesmo que eu não conhecesse seu rosto, sua personalidade podre te entrega, Kynda Reynolds.

— Kerra Acht — sibilou a Rainha, sua voz carregada de desdém. — Eu nunca imaginei que o cão do Imperador Malevolente estaria escondido em um lugar como este.

— Bom ver que você não está perdendo a memória na velhice — respondeu Kerra, seu tom gotejando sarcasmo.

— Então, você é o homem de quem os nagas falaram. Aquele que está protegendo o filhote — disse a Rainha lentamente, sua voz endurecendo.

Os lábios de Kerra se curvaram em um sorriso afiado. Ele olhou para trás para Caron antes de se virar para a Rainha novamente, ainda sorrindo. — E eu também sou o guardião dele — acrescentou, sacudindo a cabeça em direção a Caron.

— Aquele garoto — disse a Rainha, sua voz tingida de percepção —, é o neto de Halo Leston. E você ainda está protegendo ele?

— Eu já o perdi uma vez — respondeu Kerra sombriamente. — Eu não vou deixar isso acontecer de novo. Isso responde sua pergunta?

Sem esperar por uma resposta, ele ergueu sua espada e a brandiu sem hesitação.

***

O confronto entre os dois lutadores de 8 Estrelas não durou muito.

— Isso parece um negócio perdedor — murmurou a Rainha, girando sua lança com força para empurrar Kerra para trás. Estalando a língua, ela voltou seu olhar para Caron. — Se Kerra Acht era seu guardião o tempo todo, por que você não o chamou desde o início?

Caron balançou a cabeça com um sorriso irônico e respondeu: — Eu não sou estúpido o suficiente para mostrar minha carta trunfo logo de cara.

— Ah? Isso quase soa como uma cutucada pessoal — respondeu a Rainha, erguendo uma sobrancelha.

— Fico feliz que tenha acertado o alvo, então — disse Caron suavemente.

— Você realmente não deixa ninguém ter a última palavra, não é? — disse a Rainha, exalando levemente enquanto seu olhar oscilava entre Caron e Kerra.

Ela esperava que o pirralho insolente tivesse algo na manga, mas esconder um gigante como Kerra Acht era algo que a havia pego de surpresa.

Isso não é bom, pensou ela, a frustração fervendo sob seu exterior calmo. Daquele pirralho arrogante a Kerra Acht, nada estava saindo como planejado. Mesmo agora, seus subordinados estavam caindo em batalha.

— Então isso explica — disse ela. — Os nagas me disseram que o poder dos espíritos era mais forte do que o esperado. O filhote de Etyron se aliou aos elfos, não foi?

Seu palpite estava correto.

Essa era parte da razão pela qual Kerra havia se juntado à luta tardiamente. Ele havia levado Aqua para as raízes da Árvore do Mundo, o lugar mais seguro nas proximidades. De fato, a magia de Aqua estava atualmente desmantelando os feitiços abissais dos nagas.

A Rainha pensou no cavaleiro de 8 Estrelas, no filhote e nos elfos. Se os espíritos continuassem a recuperar sua força, a maré da batalha mudaria, e não era difícil ver como terminaria.

Com esse pensamento, a expressão da Rainha se endureceu enquanto ela olhava para Caron e perguntava: — Você realmente planejou matar todos os meus subordinados?

Caron assentiu sem hesitação e respondeu: — Claro. Eu pretendia matar cada um deles. Se não fosse por você ter aparecido, eu teria conseguido. Que pena. Se ao menos você tivesse chegado um pouco mais tarde.

Ele manteve o olhar dela sem hesitar, e suas palavras atingiram com uma sinceridade arrepiante. A Rainha percebeu então que ele não estava blefando. Este garoto de dezessete anos genuinamente pretendia aniquilar seus homens.

— Tanta maldade — murmurou ela. — Você é jovem demais para ser tão implacável.

Com isso, Caron soltou uma risada zombeteira. — Maldade? Eu chamaria de justiça. Seus homens lucram com o sofrimento dos outros — eles não merecem nada melhor. Se alguma coisa, eu deveria estar cobrando você pelo esforço.

Seu comportamento implacável, coragem inabalável e talento inegável fizeram a Rainha sorrir involuntariamente. Ela pensou consigo mesma: É tentador.

O tesouro de Etyron empalideceu em comparação com a ganância que agora crescia dentro dela.

Em voz baixa, ela disse: — Tudo bem. Eu poderia considerar recuar minhas forças. Mas eu quero fazer algumas mudanças nas condições que você propôs.

— Vamos ouvir — respondeu Caron.

— Escolha uma das duas opções: Prometa-me todos os tesouros dentro do tesouro de Etyron, ou... — disse a Rainha, a ponta de sua lança apontando para ele. — Trabalhe para mim por um ano. Considere isso uma oferta de recrutamento. Você é adequado para a pirataria, sabe. Se você concordar, eu poderia até prometer um lugar como meu sucessor. Você não acha que os vastos mares do sul são melhores do que o Castelo Azureocean, lotado de adultos invejosos e conspiradores?

Era uma proposta ultrajante.

Os rostos dos outros se contorceram em choque com sua oferta repentina, mas Caron simplesmente sorriu levemente. Com uma voz alegre, ele disse: — Apenas uma pergunta, Vossa Majestade.

— Vá em frente — disse a Rainha.

Um momento depois, Caron lançou sua bomba.

— Você ficou senil, por acaso?

Para um cão raivoso como Caron, a idade era um conceito sem sentido.

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